quinta-feira, novembro 09, 2006

De Novo



Fiquei emocionada ao ler este trecho de um belíssimo
artigo de Chesterton e tenho que repartir isso com vocês:


“Todo o altaneiro materialismo que domina o pensamento moderno se apóia em última análise numa suposição; numa falsa suposição. Supõe-se que se uma coisa se repete constantemente ela provavelmente está morta; é uma peça de relojoaria. As pessoas acham que se o Universo fosse pessoal ele deveria variar; que se o Sol fosse vivo ele deveria dançar. Isto é uma falácia até em relação a fatos conhecidos. A variação no mundo dos homens é geralmente produzida não pela vida, mas pela morte; pelo enfraquecimento ou pela interrupção da sua força ou do seu desejo.

Um homem varia os seus movimentos por causa de algum tênue princípio de deficiência ou de fadiga. Entra num ônibus porque está cansado de andar; ou passeia porque está cansado de ficar parado. Mas, se a sua vida e a sua alegria fossem tão imensas que ele nunca cansasse de ir até Islington, podia ir até Islington com a mesma regularidade com que o Tâmisa vai para o Sheerness. A própria velocidade e o êxtase de sua vida teriam a quietude da morte. O sol levanta-se todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs; a variação porém não se deve à minha atividade, mas à minha inação. Ora, para usar uma frase popular, pode ser que o Sol se levante regularmente porque nunca se cansa de levantar-se. A sua rotina pode provir não de uma falta de vitalidade, mas de uma torrente de vida.

O que eu quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando descobrem algum jogo ou brincadeira de que gostam muito. Uma criança balança ritmicamente as pernas devido a um excesso, e não a uma ausência de vida. As crianças têm uma vitalidade abundante, são impetuosas e livres de espírito, e portanto querem as coisas repetidas e inalteradas. Elas sempre dizem “De novo”; e o adulto faz de novo até ficar quase morto. Os adultos não são suficientemente fortes para exultar na monotonia. Mas talvez Deus seja suficientemente forte para exultar na monotonia. É possível que Deus diga ao sol todas as manhãs: “De novo”, e diga à lua todas as noites: “De novo”. Pode ser que não seja uma necessidade automática que faz todas as margaridas iguais; pode ser que Deus faça cada margarida separadamente, e que nunca tenha cansado de fazê-las. Pode ser que Ele tenha um eterno apetite de infância; pois nós pecamos e envelhecemos, e nosso Pai é mais jovem do que nós.

A repetição na Natureza pode não ser uma simples recorrência; ela pode ser um BIS de teatro. O céu pode ter pedido BIS ao pássaro que botou um ovo. Se o ser humano concebe e dá à luz um bebê humano em vez de dar à luz um peixe, ou um morcego, ou um grifo, pode ser que não seja pelo fato de estarmos fixados num destino animal sem vida ou finalidade. Pode ser que a nossa pequena tragédia tenha impressionado os deuses, que eles a admirem lá do alto das suas cintilantes galerias, e que ao final de cada drama humano o homem seja chamado uma e outra vez à boca de cena. E a repetição poderá continuar por milhares de anos, por pura escolha, e em qualquer instante poderá acabar. Os homens podem permanecer na terra por gerações e gerações, e entretanto cada nascimento poderá muito bem ser a sua última apresentação.


Esta foi minha primeira convicção, gerada pelo encontro entre minhas impressões infantis e o credo moderno. Tive sempre o vago sentimento de que os fatos são milagres no sentido de que são maravilhosos; agora comecei a considerá-los milagres no estrito sentido de que eram INTENCIONAIS. Isto quer dizer que eles eram, ou poderiam ser, repetidos atos de alguma vontade. Em suma, sempre acreditei que o mundo tinha algo de mágico; e agora penso que ele talvez tenha alguma coisa que ver com um mágico. E isto originou uma profunda impressão sempre presente e subconsciente: a de que este nosso mundo tem alguma finalidade; e, se há uma finalidade, há alguém. Sempre considerei a vida antes de tudo como uma história; e se há uma história há um contador de histórias. ”