sábado, março 31, 2007

Homem escravo das paixões



Há pouco tempo vi um filme muito bom: “Tempo de Paixão” (Lover’s Prayer/All Forgotten). Baseado em um livro de Anton Tchecov, a história se passa na Rússia e tem como atriz principal Kirsten Dunst. Mas não é sobre a personagem dela que quero escrever.

Uma das personagens secundárias da estória é uma mulher que cria seu filho e trabalha duro enquanto seu marido está na guerra. Ela sentindo-se só, diz, ao homem que se torna seu amante, que não ama o marido e que casou com ele por obrigação. Eles se envolvem, vivem uma paixão e eis que um belo dia seu marido volta, aleijado, mas feliz por ver novamente a esposa amada e o filho.

O marido fica sabendo do que aconteceu e magoado tem um ataque de raiva, esperneia e chora. Isso tudo na frente do filho e do amante, que arrependido diz que ela deveria se penitenciar e buscar se reconciliar com o marido.

Não quero aqui entrar no mérito da questão do casamento sem amor ou com amor. Fiquei mesmo impressionada com o pobre guerreiro machucado em duas guerras: àquela para a qual ele se retirou e a que se travou em seu lar, a guerra das paixões. Ele confiava na esposa, a amava e imagino a sua surpresa terrível, sua dor e indignação ao descobrir o que se passou em sua casa enquanto esteve fora.

Pode-se comentar que ela tinha o direito de ser feliz. Mas penso: quando é que o direito de ser feliz tem que passar por cima dos sentimentos alheios? E mais, passar por cima do sentimento de alguém com quem ela se comprometeu e que nela confiava.

Parece que no mundo de hoje as pessoas só buscam o prazer. Querem ser felizes a qualquer custo e isso não as impede de passar por cima de quem quer que seja para satisfazer seus impulsos e realizar suas paixões.

Onde a caridade de um ser pelo sofrimento de outro? Onde o amor ao próximo? O que parece na estória é que ele era um homem bom, não a tratava mal. Então ele deveria estar se perguntando: por que ela me tratou tão mal assim? O que fiz?

Ele ali no chão, com o corpo despedaçado e o coração em frangalhos, triste, deveria estar pensando em como seria miserável sua existência dali em diante, pois até mesmo seu sentimento de virilidade deveria estar mexido, sua auto-estima deve ter ido a zero. Ela pode se desculpar dizendo que não casou por amor, mas será que estava realmente feliz tendo um amante? Será que ela não pensou no quanto o magoaria? No quanto o faria sentir-se mal?

O que quero destacar é: será que a busca pela satisfação pessoal, pelos prazeres, enfim, esta vida hedonista que vivemos hoje não é mesmo uma vida doente? Ou melhor, não seria na realidade uma morte? Estamos mortos?

Vale a pena satisfazer os nossos apetites em detrimento do outro? Qual o papel do outro em nossa vida? É mero objeto de prazer ou de sevícia? Ou dos dois alternadamente? Onde fica o respeito ao ser?

E depois do erro cometido? Qual o sentimento que fica? Será realmente que o traidor se satisfez? Ou foram apenas os seus instintos que se satisfizeram? É o homem puro instinto? Claro que não. É muito mais que isso, mas também não é tudo, ou seja, deve obedecer a certas leis, leis estas que estão escritas na consciência de cada um – nem vou mencionar o que diz a religião (que magnificamente dispõe as leis para uma vida correta, diga-se de passagem), vou me ater aqui somente a lei natural mesmo.

Abordei a questão porque vejo que o ser humano hoje encontra boas desculpas para fazer o que é errado, para fazer aos outros aquilo que não gostaria que fosse feito a ele. E então, vale a pena se entregar às paixões? E a consciência tranqüila, não tem mais razão de ser? Como se faz para apaziguar a alma intranqüila com a mancha do erro? Vale a pena viver desse jeito? Isso é vida?