segunda-feira, outubro 29, 2007

As mulheres na Idade Média

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"Recordaremos aqui que certas mulheres (…) de todas as camadas sociais, como o prova a pastora de Nanterre, desfrutaram na Igreja, e devido à sua função na Igreja, dum extraordinário poder na Idade Média. Algumas abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes vastos territórios com aldeias, paróquias… Um exemplo entre milhares: pelos meados do século XII, os cartulários permitem-nos seguir a formação do mosteiro de Paráclito, cuja superiora é Heloísa; basta percorrê-los para constatar que a vida duma abadessa na época comporta todo um aspecto administrativo: as doações acumulam-se, permitindo aqui receber o dízimo sobre uma vinha, ali ter direito a foros sobre fenos ou trigos, aqui usufruir duma granja e ali dum direito de pastagem na floresta… A sua actividade é também a dum explorador, ou mesmo dum senhor. É de dizer, pois, que, pelas suas funções religiosas, certas mulheres exercem, mesmo na vida laica, um poder que muitos homens poderiam invejar-lhes hoje.

Por outro lado, constata-se que as religiosas desse tempo - sobre as quais, digamo-lo de passagem; nos faltam absolutamente estudos sérios - são, na sua maior parte, mulheres extremamente instruídas, que poderiam ter rivalizado em saber com os monges mais letrados do tempo. A própria Heloísa conhece e ensina às suas monjas o grego e o hebreu. É duma abadia de mulheres, a de Gandersheim, que provém um manuscrito do século X que contém seis comédias em prosa rimada, imitadas de Terêncio; são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, cuja influência sobre o desenvolvimento literário dos países germânicos se conhece. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como a prova duma tradição escolar que terá contribuído para o desenvolvimento do teatro na Idade Média. Acrescentemos de passagem que muitos mosteiros, de homens ou de mulheres, ministravam localmente a instrução às crianças da região.

É surpreendente também constatar que a enciclopédia mais conhecida do século XII emana duma religiosa, a abadessa Herrade de Landsberg. É o famoso Hortus deliciarum («Jardim de Delícias»), no qual os eruditos vão procurar as informações mais seguras em relação às técnicas no seu tempo. Podia dizer-se o mesmo das obras da célebre Hildegarda de Bingen. Finalmente, uma outra religiosa, Gertrude de Heifta, no século XIII, conta-nos como se sentiu feliz por passar do estado de «gramática» ao de «teóloga», isto é, que, depois de ter percorrido o ciclo dos estudos preparatórios, ela aborda o ciclo superior, como se fazia na universidade. O que prova que ainda no século XIII os conventos de mulheres são o que sempre tinham sido desde São Jerónimo, que instituiu o primeiro deles, a comunidade de Bethléem: centros de oração, rias também de ciência religiosa, de exegese, de erudição; estuda-se aí a Sagrada Escritura, considerada como a base de todo o conhecimento, e também todos os elementos do saber religioso e profano. As religiosas são mulheres instruídas; aliás, entrar no convento é uma via normal para aquelas que querem desenvolver os seus conhecimentos para além do nível corrente. O que pareceu extraordinário em Heloísa, na sua juventude, foi o facto de, não sendo religiosa e não desejando manifestamente entrar no convento, ela continuar, no entanto, estudos demasiado áridos, em vez de se contentar com a vida mais frívola, mais despreocupada, duma rapariga que deseja «permanecer no século». A carta que Pierre, o Venerável, lhe enviou di-lo expressamente.

Mas há mais surpreendente. Se se quiser fazer uma ideia exacta do lugar ocupado pela mulher na Igreja, nos tempos feudais, é preciso perguntar a si próprio o que se diria no nosso século XX de conventos de homens colocados sob o magistério duma mulher. Um projecto desse género teria no nosso tempo a menor possibilidade de resultar? Foi, no entanto, o que se realizou com pleno sucesso, e sem ter provocado o menor escândalo na Igreja, com Robert d’Arbrissel em Fontevrault, nos primeiros anos do século XII. Tendo resolvido fixar a multidão inverosímil de homens e mulheres que chamava atrás de si -porque foi um dos maiores conversores de todos os tempos-, Robert d’Arbrissel decidiu fundar dois conventos, um de homens outro de mulheres entre eles erguia-se a igreja que era o único lugar onde monges e monjas podiam encontrar-se. Ora esse mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não dum abade, mas duma abadessa. Esta, pela vontade do fundador, devia ser viúva, tendo, pois, a experiência do casamento. Acrescentemos, para sermos completos, que a primeira abadessa, Pétronille de Chemillé, que presidiu aos destinos desta ordem de Fontevrault tinha vinte e dois anos. Não vemos que hoje semelhante audácia, mais uma vez, tivesse possibilidades de ser encarada.

Se examinarmos os factos, impõe-se esta conclusão: durante todo o período feudal, o lugar da mulher na Igreja foi certamente diferente do homem (e em que medida não seria uma prova de sabedoria o ter em conta que homem e mulher são duas criaturas iguais, mas diferentes?), mas foi um lugar eminente, que, aliás, simboliza perfeitamente o culto, eminente também, prestado à Virgem entre todos os santos. E pouco nos surpreende que a época termine com um rosto de mulher: o de Joana d’Arc, a qual, diga-se de passagem, nunca teria podido nos séculos seguintes obter a audiência e suscitar a confiança que no fim de contas obteve".

(PERNOUD, Régine: O mito da Idade Média, Publicações Europa-América, S/D, pp.95-99)

Transcrito do site: www.salterrae.org

11 comentários:

  1. Ei Andrea!
    QUe bom que apareceu. Espero podermos trocar figurinhas de agora em diante...
    Falando nisso: gostaria muitíssimo de obter esse livro. Como conseguiu?!
    Abração

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  2. Fiquei muito contente com sua volta,ANDREA.

    Beijão!

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  3. Otávio, infelizmente ainda não consegui este livro. Apenas este trecho que copiei do site:
    www.salterrae.org

    Vamos trocar figurinhas sim!

    Abraço!

    ************
    DO! Que bom! :)

    Beijão!

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  4. Parabéns pelo belíssimo novo post deste retorno do Borboletas!

    Deus manifesta sua Glória elevando as mulheres ao patamar elevado que merecem, contrariando o pensamento machista de certos homens ao longo da nossa História. A saga de Joana D'arc é especialmente inspiradora.

    Mais uma vez, meus parabéns e continue nessa linha, que nos deixará (leitores) muito satisfeitos.

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  5. Eduardo Araújo11/01/2007

    Andrea, saudações!

    Descobri o seu blog por meio do In Camera Caritatis, do Otávio, e logo de início gostei bastante desta postagem sobre as mulheres na Idade Média.

    Penso ser um assunto de muita importância, para recuperar um perfil mais fidedigno da mulher medieval. Durante muito tempo, a historiografia iluminista, seguida pela marxista, anatematizou aquele período como uma "idade das trevas" em que a humanidade viveu mergulhada na "superstição religiosa" e no obscurantismo. Sem seupresa, dentre dessa ,linha, que se mostrassem as mulheres como oprimidas por uma onipresente (sic) e opressora (id, sic)) Igreja.

    Já havia lido uma menção em desacordo com essa interpretação num livro da medievalista americana Sharan Newman. Embora não fosse o foco de seu livro (voltado para comentar O Código Da Vinci), Sharan faz um breve comentário alusivo ao papel da Igreja na época, destoando em muito do preconceito anticlerical em voga.

    O fato é que há muita tinta precisando correr nesse tema. Adorei a sua citação, por exemplo, de Santa Hildegarda (de Bingen), autora de um tratado de medicina que rivalizava com os melhores escritos na área pelos árabes e bizantinos. Mulher formidável, para todos os tempos! Também foi musicista de primeiríssima categoria e seu progresso no campo intelectual acompanhou em paralelo sua ascenção na vida religiosa, culminando com o posto de Abadessa.

    Enfim, parabéns pelo blog e pelo belo post.

    Eduardo

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  6. Eduardo, seja bem vindo!

    Realmente temos que buscar mostrar a verdade e colocar as coisas em seus devidos lugares. Foi o Cristianismo que levou a mulher a um patamar mais alto, foi na Idade Média que o ser humano alcançou degraus mais altos através da arte, dos vários ofícios bem desempenhados, da filosofia, metafísica e principalmente da espiritualidade bem vivida.

    E Joana D'arc é uma figura interessantíssima, de muito respeito, soube obedecer a Deus. Devemos buscar nos espelhar nela e sermos assim obedientes e cumpridores dos nossos deveres. Santa Joana D'arc rogai por nós!

    Fiquem com Deus!

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  7. Voltou com a corda toda, hein? :) Fantástico post!
    Eu já li e ouvi várias especialistas falando sobre o papel da mulher hoje na sociedade e é surpreendente como vivemos uma época estranha, justamente pelo papel que a mulher desempenhou brilhantemente em séculos passados. Há grande mulheres estadistas desde a época das pirâmides e hoje vemos mulheres engravidarem para terem apenas um meio de sobrevivência até o fim de seus dias. Ficamos banais, não é mesmo?
    Beijinho

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  8. Pois é Cris, as mulheres deveriam olhar para trás e buscar exemplos bons, como Santa Joana D'Arc e Santa Clara de Assis, por exemplo. Mas fazer o quê, o pessoal só quer saber de BBB...ai, ai! *rs*

    Beijos!

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  9. Olá Andrea!
    Em busca de uma imagem para um trabalho,achei aqui o seu blog.
    Muito interessante o que postou,
    e eu queria pedir se pudesse me dizer
    em poucas palavras como era a mulher na idade média.
    Minha saudações!
    Espero anciosamente a resposta.

    Beijos!

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  10. Oi Jarlene! Seja bem-vinda!

    Olha, infelizmente tenho poco conhecimento desse assunto. O que posso dizer é que na Idade Média, como o predomínio do Cristianismo a mulher foi elevada na sociedade. Graças a atenção que Jesus dispensou a elas, as coisas mudam. A mulher passa a ter um espaço que antes não possuía. Poderia sem dona de casa, respeitada por isso, não simplesmente uma parideira como nos tempos de Roma.
    Veja uma citação da Dra.Maria da Ascençao Apolonia, professora da USP:

    "A estabilidade no casamento, conquista que remonta às idéias cristãs da Idade Média, permitiu que pela primeira vez na história a mulher fosse vista legalmente não mais como inferior ao marido, mas como um membro essencial para a família. A instauração do casamento monogâmico trouxe benefício não só para a mulher, mas para os filhos que ganharam a proteção de um lar estável."

    Artigo completo em: http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=334&categoria=Historia&pg=buscaartigo&campo=idade

    A mulher poderia tomar o hábito e ter acesso aos livros, estudar, criar, tal como Hildegard Von Bigen. Há muita desinformação sobre a Idade Média, muitos livros foram escritos cheios de preconceito. Se quiser ler mais a respeito busque os textos do professor Ricardo Costa em http://www.ricardocosta.com/ e também busque os livros da historiadora Regine Pernoud.

    Mais links:

    http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=105&categoria=Historia&pg=buscaartigo&campo=idade

    http://www.permanencia.org.br/revista/Pensamento/laet4.htm


    Beijos!

    Fique com Deus!

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  11. Muito boa esta informação. Tentarei conseguir o livro. Obg e parabéns!

    Gildênia Moura

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