quarta-feira, dezembro 12, 2007

Cavaleiros Templários

Por Débora Lerrer


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A ordem dos monges guerreiros, que se tornou uma das mais poderosas e controversas organizações na história da Europa medieval, era conhecida com uma variedade de nomes: Pobres Soldados de Cristo e do Templo de Salomão, Milícia de Cristo ou, mais comumente, Cavaleiro Templários. Em 200 anos, a partir de seu objetivo de proteger as rotas de peregrinação, eles construíram um império econômico que pode ser considerado a primeira multinacional européia. Devendo obediência apenas ao papa, os Templários desenvolveram arrojadas técnicas de construção, trouxeram tecnologias dos muçulmanos e se tornaram mais ricos do que vários reinos, emprestando dinheiro para príncipes, bispos e reis. Famosos por sua bravura nas batalhas travadas nas Cruzadas, foram destruídos em menos de uma década por um rei que, não por acaso, era altamente endividado com a Ordem. Para o historiador Ricardo da Costa, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, os templários podem ser considerados os fundamentalistas da época. "Eles estavam na vanguarda da espiritualidade cristã. Ser um padre e ao mesmo tempo combater o infiel era considerado o máximo para a época".

Em 1118, os cavaleiros Hugh de Payen e André de Montbard (tio do abade Bernard de Clairvaux, famoso pregador da época), junto com sete companheiros, se apresentaram para o Rei Balduíno I de Jerusalém, anunciando que tinham a intenção de fundar uma ordem de monges guerreiros e, na medida em que sua força permitisse, manteriam seguras as estradas e caminhos com especial atenção para a proteção dos peregrinos. A nova ordem fez votos de pobreza pessoal, de obediência e de castidade e jurou manter todo seu patrimônio em comum.

Os primeiros Templários passaram nove anos na Terra Santa, alojados em uma parte do palácio que foi cedida a eles pelo rei, exatamente em cima dos estábulos do que outrora foi o antigo Templo de Salomão. Daí veio o nome de cavaleiros do Templo, ou Templários. Para Tim Wallace-Murphy, responsável pela página da Rede Européia de Pesquisa da Herança Templária (ETHRN), a principal razão para a fundação da Ordem, ou seja, a proteção das rotas de peregrinação, não se sustenta - se analisados os primeiros anos da sua existência. Seria fisicamente impossível que nove cavaleiros de meia-idade protegessem as perigosas rotas entre Jaffa e Jerusalém de todos os bandidos e saqueadores infiéis, que acreditavam que os peregrinos que lhes garantiam roubos tão fáceis eram um presente de Deus. Já os indícios existentes das ações desses cavaleiros na região fazem essa hipótese ser ainda mais improvável, pois ao invés de patrulharem as rotas da Terra Santa para proteger peregrinos, eles passaram nove anos na tarefa perigosa e exigente de re-abrir uma série de túneis localizados sob seus quarteirões no Templo do Monte.

Os túneis explorados pelos Templários foram re-escavados em 1867, por um oficial da coroa britânica. Ele não encontrou o tesouro escondido do Templo de Jerusalém, mas pedaços de uma lança e de uma espada, esporas e uma pequena cruz templária, hoje guardados na Escócia. O que os Templários estariam procurando e como eles sabiam exatamente onde escavar?
No exterior da Catedral de Chartres, na porta do norte, está esculpida uma imagem no pilar que nos dá uma indicação do objeto procurado pelos Templários: a Arca da Aliança, representada sendo transportada em um veículo de rodas. Várias lendas contavam que a Arca ficou escondida por muito tempo embaixo da cripta da Catedral de Chartres. As mesmas lendas alegam que os Templários teriam encontrado muitos outros artefatos sagrados do velho templo judeu durante suas investigações, bem como uma considerável quantidade de documentação.

No Concílio de Troyes, em 1128, a Ordem dos Templários recebeu reconhecimento oficial. Seu regulamento foi redigido pelo monge Bernard de Clairvaux, e ganharam o manto branco como distintivo. Mais tarde o Papa Eugênio III lhes outorgou o uso da cruz vermelha octogonal. Em 1139, a Ordem ficou isenta de todos os impostos e passou a dever obediência somente à vontade do papa, não precisando mais prestar contas nem para bispos nem reis.

Desde sua fundação até a queda, os Templários exerceram influência e grande poder na Terra Prometida, e acabaram se tornando uma das forças militares mais importantes do Reino de Jerusalém. Além de seu papel militar, eles construíram castelos em posições estratégicas de defesa e estabeleceram bases importantes em toda a Palestina. "Com seus castelos e os povoamentos que surgiram em torno eles dominavam a área, efetivando a conquista em solo palestino", explica o historiador Ricardo da Costa. Rapidamente os Templários adquiriram fama de bravura em batalhas e de nunca se renderam facilmente aos inimigos.

A medida em que a Ordem crescia em prestígio, suas finanças também aumentavam vertiginosamente. Parte porque membros das famílias mais importantes da Europa se integravam a suas hostes, mas também porque a aristocracia européia acreditava que ao doar suas propriedades a eles, garantiam de antemão a salvação de sua alma. Rapidamente a Ordem tornou-se dona de terras de vários tamanhos espalhadas por todas as regiões européias da Dinamarca à Escócia, ao Norte, até a França, Itália e Espanha, no Sul. "O Rei de Aragão chegou a doar todo seu reino a eles", conta o historiador Costa.

Os interesses comerciais dos Templários eram impressionantes e variados, e suas atividades incluíam administração de fazendas, vinhas, minas e extração de pedras. Como resultado de seu interesse em proteger peregrinos e a manutenção de comunicações com suas bases operativas na Terra Santa, os templários operavam uma frota muito bem organizada que excedia a de qualquer reino daquele tempo. Em menos de 50 anos de sua fundação, os Cavaleiros Templários se tornaram uma força comercial com poder sem igual na Europa. Em cem anos, já haviam desenvolvido um precursor medieval dos conglomerados multinacionais, com interesses em todas as formas de atividades comerciais daquele tempo. Eram de longe muito mais ricos do que qualquer reino europeu.

Entre os principais itens de suas atividades comerciais estavam aquelas que hoje seriam definidas como de "tecnologia e idéias". A rede de comunicação dos Templários era a principal rota pela qual conhecimentos de astronomia, matemática, medicina fitoterápica e técnicas de cura faziam seu caminho da Terra Santa para a Europa. Entre esses avanços tecnológicos trazidos pelos cavaleiros estavam a respiração boca-a-boca e o telescópio.

Os Templários também eram grandes construtores. Em seus próprios Estados eles construíram e sustentaram castelos fortificados, fazendas, celeiros e moinhos, bem como alojamentos, estábulos e oficinas. Diversas ruínas particularmente no Sul da Europa e na Palestina demonstram a razão pela qual eles eram particularmente famosos como engenheiros, pois seus castelos foram construídos em locais estratégicos para defesa que colocavam enormes desafios e dificuldades de construção. As clássicas igrejas templárias, supostamente inspiradas no design da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, influenciou a construção de muitas catedrais européias, especialmente a Catedral de Chartres, na França.
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