sábado, abril 26, 2008

Escolas e educação na Idade Média

Trechos de “A Igreja das Catedrais e das Cruzadas”, de Daniel-Rops*


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Se há uma idéia comumente admitida, é certamente a da ignorância das massas na Idade Média. Um povo iletrado e, por isso mesmo, dócil às instruções supersticiosas de um clero tirânico - essa é a imagem que muitas vezes se apresenta desses homens que, no entanto, deixaram às gerações futuras tantos testemunhos de uma admirável fecundidade intelectual. Voluntário ou não, deve existir forçosamente aqui um mal-entendido.

Em primeiro lugar, é preciso perguntar se o número de iletrados na Idade Média era realmente tão grande como muita gente superficial pensa. Ultrapassaria a proporção que se observa nos nossos dias em certos países do Ocidente europeu? Ainda hoje encontramos nos nossos arquivos um grande número de atas notariais cujas testemunhas assinaram os seus nomes. E ao vermos a multidão de clérigos e de professores de renome que saíram das fileiras da plebe, somos obrigados a concluir que, mesmo nos meios mais humildes, a instrução das crianças não devia ser tão negligenciada como se imagina.

Além do mais, ao pensarmos nesta época, não podemos nem devemos identificar o conhecimento do alfabeto com a instrução. Se nos nossos dias a pedagogia e a cultura assentam sobre dados acima de tudo visuais, adquiridos pela leitura e pela escrita, na Idade Média, na qual o livro era raro e custoso, o ouvido desempenhava um papel muito mais importante. Num capítulo dos Estatutos municipais da cidade de Marselha, do século XIII, lê-se uma enumeração das qualidades requeridas num bom advogado, que termina com estas palavras: litteratus vel non litteratus", quer seja letrado ou não; conhecer o direito e os costumes era mais importante que saber ler e escrever bem.

E, quanto a admitir que a Igreja tinha interesse em manter a ignorância para melhor estabelecer a sua autoridade, é o mesmo que aceitar uma pura calúnia, contra a qual se insurgem os fatos.

Já no século VI se ouvira o grande São Cesário de Arles expor no concílio de Vaison (529) as razões imperiosas que exigiam a criação de escolas no campo. Seria longa a enumeração de bispos que eram da mesma opinião: um São Nizier de Lyon, um Teodulfo de Orléans, um Leidrade, um Hincmar notabilizaram-se pelo seu esforço nesse sentido. Da mesma forma, foi a Igreja que ditou a Carlos Magno a sua política escolar, a primeira que foi praticada com seriedade no Ocidente. E se, no decurso do trágico século X, as escolas decaíram, como todas as atividades ligadas à civilização, logo que o clima melhorou, a Igreja retomou a sua tarefa educadora, reabriu as suas escolas e voltou a pregar do púlpito (quando se usavam púlpitos - prática enterrada pelo Concílio Vaticano II) a necessidade da instrução. É com admiração que se relêem os cânones de um Concílio como o de Latrão em 1179, sob a presidência de Alexandre III, nos quais se ordena ao clero que abra escolas em toda a parte para instruir gratuitamente as crianças, mesmo "os estudantes pobres".

A necessidade, numa sociedade bem ordenada, de manter o povo estagnado na sua ignorância, não foi a Igreja medieval que a defendeu: foi Voltaire!** (essa é para quem ama a Idade das "Luzes"). As categorias escolares que conhecemos já estavam definidas: primária, secundária e superior. Na base, encontravam-se as escolas paroquiais, "as pequenas escolas". As paróquias estavam muitas vezes na dependência dos senhores; eram eles, na realidade, que criavam a sua escola, como aquele senhor de Rosny-sur-Seine, que celebrou em 1200 - conhecemos o texto - um contrato cheio de sabedoria com o seu pároco para abrir uma escola nas suas terras.

Por vezes, eram os habitantes de uma aldeia que se associavam para contratar um mestre, e chegou até nós um texto divertido, uma reclamação de uns pais solicitando a demissão de um professor tão frouxo que os alunos o bombardeavam com os seus estiletes. Em princípio, todas as crianças deviam ir a essas escolas; muitos contratos de aprendizagem estabeleciam o compromisso assumido pelo patrão de enviar o aprendiz para lá. A imagem tradicional da escola "laica e obrigatória" num país como a França, tem certamente mil anos de antiguidade. O ensino era ministrado num local contíguo à igreja ou mesmo na própria igreja. O mestre era geralmente um leigo que exercia simultaneamente as profissões de sacristão, de participante do coro e, como diríamos hoje, de secretário do conselho paroquial. Recebia ordinariamente dos alunos uma modesta remuneração em espécie: favas, peixe e vinho, e mais raramente um soldo. Antes de ser nomeado, devia, em princípio, ser confirmado pela autoridade eclesiástica; em certas dioceses, como Paris, Reims, Lyon, Toulouse e Montpellier, os futuros professores eram submetidos a uma espécie de exame. O que é que ensinavam? Antes de mais nada, ministravam instrução religiosa, explicavam o catecismo; mas ensinavam também a ler, a escrever, a contar - utilizando tentos -, davam umas noções de gramática e mesmo de latim. Como os livros eram inacessíveis, usavam-se quadros murais, feitos com peles de bezerro ou de carneiro, nos quais estavam pintadas as genealogias do Antigo Testamento, a lista das virtudes e vícios, e modelos de escrita. Alguns desses quadros chegaram até nós. Podemos ter como certo que, nos séculos XII e XIII, nos países mais avançados do Ocidente, havia um sistema de instrução primária bastante espalhado, um sistema em que se difundia a moral tanto como os conhecimentos.

Um homem viria a prestar homenagem a esse antigo ensino medieval, em que a educação e a instrução jamais se separavam, um homem que não tem nenhuma fama de clerical - Thiers - e que exclamava, há cem anos, durante a discussão da lei sobre a liberdade de ensino: "Ah! Se a escola sempre permanecesse a cargo do pároco e do seu sacristão, como outrora, eu estaria longe de me opor a que crescesse a rede de escolas para todos os filhos do povo!". Num plano superior, encontravam-se as escolas monásticas, por um lado, e, por outro, as escolas catedrais e capitulares, que correspondiam ao nosso ensino secundário, com, mais ou menos, um pouco de ensino superior. Eram, em primeiro lugar, os mosteiros que, fiéis à sua missão de "cidadelas do espírito", tinham abrigado as primeiras escolas cujo nível de ensino era um pouco mais elevado. Saint-Riquier, Gembloux, Reinchenau, Luxeil, Marmoutier, Saint-Remy em Reims, mais tarde Fleury, Saint-Martial de Limoges e, em Paris, Santa Genoveva, São Vítor e Saint-Germanin-des-Prés foram prestigiosos centros de ensino; de Fleury saiu o rei Roberto o Piedoso; de Saint-remy saiu Gerberto, o futuro papa Silvestre II, que foi a glória do seu mosteiro, depois de ter começado a estudar em Saint-Géraud d'Aurillac. No limiar do século XII, contavam-se na França setenta abadias dotadas de escolas, entre as quais algumas eram célebres, como Bec-Hellouin na Normandia, conhecida pelo prestígio de mestres como o Bem-aventurado Lanfranc e Santo Anselmo; Saint-Denis, de onde saíram o rei Luís o Gordo e o seu ministro Suger; e, finalmente, Cluny, onde Pedro o Venerável incentivava muito a atividade docente dos monges. para as moças, era notável Argenteuil, onde foi educada Heloísa e onde Abelardo lecionou.

No entanto, em meados do século XII, as escolas monásticas entraram em declínio, pois o espírito de reforma inquietava-se com a coexistência de uma escola "interna" para os noviços e de uma escola "externa" para os alunos. Depois de Pedro o Venerável, Cluny deixou periclitar a sua. Em Cister, recusaram-se a admitir crianças "no interior ou nas dependências do mosteiro". Dali para a frente, já não foi a Igreja regular, dos monges, que teve o ensino nas mãos, mas - favorecida aliás pelo renascimento urbano - a secular, cuja atividade neste campo em breve seria excelente. As escolas dos bispados ou dos cabidos - muitas vezes uma ao lado da outra - nasceram pouco depois das dos conventos. Todos os grande bispos quiseram ter estabelecimentos de ensino; foi o que aconteceu com a escola de Orléans, onde o próprio Santo Aignan gostava de ensinar.

No limiar do século XII, não existiam na França menos de cinqüenta escolas episcopais, e o terceiro Concílio de Latrão obrigou todas as dioceses a abrirem uma. Várias delas conheceram um sucesso inaudito, como a de Chartres, ilustrada sucessivamente por Fulberto, Yves, e depois João de Salisbury, e que foi verdadeiramente um cadinho onde fervilhavam as idéias do tempo, mesmo as mais inquietantes; a da Avranches, que se beneficiou da projeção de Bec e de Santo Anselmo; a de Besançon, que Frederico Barba-roxa sempre procurou encorajar; a de Châlons-sur-Marne, onde ensinou Guilherme de Champeaux; a de Châtillon-sur-Seine, que teve São Bernardo como aluno; e, finalmente, a de Paris, verdadeiro celeiro de bispos e de grandes personalidades, embrião da mais célebre Universidade da época. Fora da França, destacam-se Canterbury e Durham na Inglaterra, Toledo na Espanha, Bolonha, Salerno e Ravena na Itália.

Em todas essas casas, a autoridade religiosa exercia uma vigilância e, mais do que vigilância, uma influência direta e estimulante. O écolâtre, geralmente um cônego designado pelo bispo ou pelo deão do cabido, entregava-se de corpo e alma à sua tarefa, e não se pode duvidar de que tinha muito que fazer, porque a vida escolar, nessa época, estava longe de ser um mar de rosas (Parece que era difícil manter a disciplina nessas escolaa; aliás, não tinham locais especiais e os assistentes sentavam-se no chão e escreviam sobre os joelhos com os seus estiletes e tábuas de cera. A grande afluência de alunos também contribuía evidentemente para tornar a disciplina mais difícil. São Bernardo criticou energicamente os costumes escolares do seu tempo, acusando os estudantes das escolas catedrais de muitos vícios e crimes, entre os quais a fornicação e até o incesto. A literatura dos Golliards conservou vestígios desses desregramentos, cuja tradição será mantida pelos estudantes universitários até Villon).

Que tipo de estudantes acolhiam estas escolas, quer monásticas, quer episcopais? Desde os sete aos vinte anos, todos eram recebidos, sem distinção de classes: "filhos de homens ricos e filhos de fanqueiros", diz Gilles Le Muisis. A única distinção estabelecida consistia na retribuição que se pedia a alguns. Originalmente, e em princípio, o ensino era gratuito, e assim se conservou nas escolas monásticas (imaginem aulas gratuitas no colégio São Bento!); nas diocesanas, estabeleceu-se o hábito de fazer com que os ricos pagassem, sem recusar o acesso aos cursos àqueles que nada possuíam. Certos mestres de renome, que exigiam dinheiro de todos, foram várias vezes censurados pelos concílios. Os exames eram gratuitos; o Concílio de Latrão proibiu que se exigisse qualquer gratificação "dos candidatos ao professorado para a concessão da licenciatura”.

As moças se beneficiavam também do ensino, menos apurado, sem dúvida, porque as casas de educação feminina eram menos numerosas, e diversos concílios tinham proibido que elas freqüentassem as escolas de rapazes (e com razão!); no entanto, certas casas que lhes estavam reservadas deviam ser de alto nível, visto sabermos que, em Argenteuil, Heloísa não só aprendeu a Sagrada Escritura (para quem diz que a bíblia estava terminantemente proibida aos leigos) e os Padres da Igreja, mas também medicina e cirurgia, sem falar desses cursos de grego e hebraico em que tanto gostava de escutar as lições de Abelardo...

O ensino mantinha-se fiel às divisões tradicionais. Como no tempo em que Alcuíno o organizara por ordem de Carlos Magno, dividia-se em trivium (gramática, dialética e retórica) e quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). No entanto, a avaliar pelos tratados pedagógicos da época - os de Hugo de São Vítor e de João de Salisbury, por exemplo -, verificamos que os mestres procuravam sair dessas categorias sistematizadas. Um grande pedagogo, Thierry de Chartres, observava com muita razão que o trivium e o quadrivium eram apenas o meio e que o fim era formar alunos na verdade e na sabedoria. O que se pretendia inculcar era sobretudo um método que permitisse atingir o conjunto do saber humano. Assim, a dialética, que aguça o espírito e lhe dá flexibilidade para o jogo do conhecimento, ocupava um lugar de honra.

Da mesma forma, ciências que nunca figuravam nos cursos clássicos dos estudos eram ensinadas por mestres que, muito mais livres diante dos programas do que hoje, exerciam sobre os seus alunos um ascendente mais direto. Assim, enquanto Bernardo de Chartres ensinou nessa cidade, a "gramática" foi na verdade um curso geral de literatura latina. Em certas escolas, ministravam-se até conhecimentos técnicos, como na de Vassor, perto de Metz, onde os alunos aprendiam a trabalhar o ouro, a prata e o cobre. Pouco a pouco, foram aparecendo verdadeiras especializações: ia-se a Chartres para as letras, a Paris para a teologia, a Bolonha para o direito, a Salerno e Montpellier para a medicina, uma especialização que viria a refletir-se na organização das Universidades.

Assim, no meio de uma extraordinária fermentação intelectual, tende-se, por volta de 1200, a criar um ensino superior. Os alunos mais velhos das escolas catedrais reclamavam um alimento intelectual mais rico. Ao passo que, até esse momento, os que verdadeiramente queriam obter uma cultura superior tinham de frequentar a escola dos árabes na Espanha, como Gerberto, que frequentou os cursos de Toledo, ou a dos bizantinos, onde o principal filósofo, Miguel Psellos, contava muitos ocidentais entre os seus ouvintes, daí por diante, os amadores da alta cultura passaram a encontrar no Ocidente o modo de a adquirirem. Reduzidas as escolas episcopais ao ensino secundário, o ensino superior iria desenvolver-se numa nova formação: a das Universidades.


Trechos de “A Igreja das Catedrais e das Cruzadas”, de Daniel-Rops* extraídos de adaptação postada na internet. Os grifos são meus.

* Daniel-Rops (pseudônimo literário de Henri Petiot) nasceu em Épinal, em 1901, e faleceu em Chambéry, em 1965. Foi professor de História e diretor da revista Ecclesia (Paris), e tornou-se mundialmente famoso sobretudo pelas obras de historiografia que publicou: a coleção História Sagrada, que abrange os volumes O povo bíblico (1943), Jesus no seu tempo (1945) e os onze tomos desta História da Igreja de Cristo (1948-65). Também foi autor de diversos ensaios, obras de literatura infantil e romances históricos, entre os quais destacamos Morte, onde está a tua vitória? (1934) e A espada de fogo (1938). Foi eleito para a Academia Francesa em 1955.

**Frase de Voltaire: “Parece-me essencial que haja pobres ignorantes. ... Não é preciso instruir o artesão, mas sim o burguês. ... Se o povo se mete a raciocinar, tudo estará perdido”. Besterman, T. (ed.); Voltaire: Correpondance (avril 1765 – juin 1767), vol. VIII, Gallimard: França, 1983, p. 422.