sábado, maio 17, 2008

O papel da mulher na Idade Média

Consegui este texto na internet. É um trecho da obra de Régine Pernoud "Idade Média - o que não nos ensinaram". Não sei quem é o autor dos bons comentários que aparecem no meio do texto e no final.
Photobucket


O papel da mulher na Idade Média

Há quem pense que na Idade Média o papel da mulher era o de submissão total e completo ostracismo. Há quem cogite que se pensava que a alma da mulher não era imortal - afirmação gratuitamente preconceituosa e contraditória (se a alma é espiritual e imortal, como a alma feminina não seria? Seria uma alma mortal?). Como a Igreja seria hostil a esses seres sem alma, mas durante séculos batizou, confessou e ministrou a Eucaristia a essas criaturas? Não é estranho que os primeiros mártires cristãos tenham sido mulheres (Santas Agnes, Cecília, Ágata etc)? Como venerar a Virgem Maria como cheia de graça e considerá-la desalmada? A historiografia contemporânea simplesmente apagou a mulher medieval.

Por exemplo, no plano social. Dentro dessa perspectiva desapareceram da história personagens como Hilda de Whitby, que no século VII fundou sete mosteiros e conventos, ou quem sabe a religiosa alemã Hroswitha de Gandersheim, autora de dezenas de peças de teatro. Em Bizâncio, numerosas eram as mulheres na universidade. Anna Comnena fundou em 1083 uma nova escola de medicina onde lecionou por vários anos. Eleonora da Aquitânia, enquanto rainha, desempenhou um importante papel político na Inglaterra e fundou instituições religiosas e educadoras.
Nos tempos feudais a rainha era coroada como o rei, geralmente em Rheims ou, por vezes, em outras catedrais. A coroação da rainha era tão prestigiada quanto a do Rei. A última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis em 1610, na cidade de Paris. Algumas rainhas medievais desempenharam amplas funções, dominando a sua época; tais foram Eleonora de Aquitânia (+1204) e Branca de Castela (+1252); no caso de ausência, da doença ou da morte do rei, exerciam poder incontestado, tendo a sua chancelaria, as suas armas e o seu campo de atividade pessoal. Verdade é que a jovem era dada em casamento pelos pais sem que tivesse livre escolha do seu futuro consorte. Todavia observe-se que também o rapaz era assim tratado; por conseguinte, homens e mulheres eram sujeitos ao mesmo regime.

A mulher na Igreja

Precisamente por causa da valorização prestada pela Igreja à mulher, várias figuras femininas desempenharam notável papel na Igreja medieval. Certas abadessas, por exemplo, eram autênticos senhores feudais, cujas funções eram respeitadas como as dos outros senhores; administravam vastos territórios como aldeias, paróquias; algumas usavam báculo, como o bispo... Seja mencionada, entre outras, a abadessa Heloisa, do mosteiro do Paráclito, em meados do século XII: recebia o dízimo de uma vinha, tinha direito a foros sobre feno ou trigo, explorava uma granja...Ela mesma ensinava grego e hebraico às monjas, o que vem mostrar o nível de instrução das religiosas deste tempo, que às vezes rivalizavam com os monges mais letrados. Pena faltar estudos mais sérios sobre o tema...É surpreendente ainda notar que a enciclopédia mais conhecida no século XII se deve a uma mulher, ou seja, à abadessa Herrade de Landsberg. Tem o título "Hortus Deliciarum" (Jardim das Delícias) e fornece as informações mais seguras sobre as técnicas do seu tempo. Algo de semelhante se encontra nas obras de S. Hildegard de Bingen.Gertrude de Helfta, no século XIII conta-nos como se sentiu feliz ao passar do estado de "romancista" ao de "teóloga". Conforme Pedro, o Venerável, ela, em sua juventude, não sendo freira e não querendo entrar num convento, procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola de uma jovem. Ao percorrer o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. Veio da abadia feminina de Gandersheim um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada, imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma tradição escolar que terá contribuído para o teatro da Idade Média.

Mulheres líderes

Algo inédito e que nos dias de hoje - tão democráticos - jamais aconteceria:
No século XII, Robert d'Arbrissel, um dos maiores pregadores de todos os tempos resolveu fixar a multidão de seguidores seus na região de Fontevrault. Para isso ele criou um convento feminino, um masculino e entre os dois uma Igreja que seria o único local aonde os monges e as monjas poderiam se encontrar. Ora, este mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não de um abade, mas de uma abadessa. Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva, tendo tido a experiência do casamento. Para completar, a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de Fontevrault, Petronila de Chemillé, tinha 22 anos. (um parêntesis: nos dias de hoje alguém imaginaria um acontecimento destes sequer ser considerado? Pois ele aconteceu na época em que os ignorantes costumam taxar como "Idade das trevas").

No período feudal o lugar da mulher na Igreja apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem, mas este foi um lugar iminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem Maria entre os santos. E não é curioso como a época termine por uma figura de mulher - Joana D'Arc, que seja dito de passagem, não poderia, jamais, nos séculos seguintes obter a audiência do rei, sendo ela mulher, plebéia e ignorante, conseguindo mesmo assim suscitar a confiança que conseguiu, afinal. Pobre Joana D'Arc! Recentemente Luc Besson fez um filme de S. Joana D'Arc digna dos melhores hospícios, completamente esquizofrênica e que confundia sua vingança pessoal com o que seria a voz de Deus. Sem comentários.

A mulher comum

Faltaria falar das mulheres comuns, camponesas ou citadinas, mães de família ou trabalhadoras. A questão é muito extensa, e os exemplos podem chegar através de diversas fontes como documentos ou mil outros detalhes colhidos ao acaso e que mostram homens e mulheres através dos menores atos de suas existências. Através de documentos, pôde-se constatar a existência de cabeleireiras, salineiras (comércio do sal), moleiras, castelãs, mulheres de cruzados, viúvas de agricultores, etc. É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real - muito diferente dos romances de cavalaria ou de fontes literárias que apresentam a mulher como um ser frágil, ideal e quase angélico - ou diabólico - mas que não tinha voz nem vez. Existem documentos demonstrando como em muitos locais, mulheres e homens votavam em assembléias urbanas ou comunas rurais. Ouve um caso curioso: Gaillardine de Fréchou foi uma mulher e a única pessoa que, diante da proposta de um arrendamento aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint Savin, votou pelo Não, quando a cidade inteira votou pelo Sim. Nas atas dos notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Enfim, os registros de impostos, desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII, mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.

***

Estas informações foram retiradas da mundialmente conhecida medievalista Régine Pernoud, em seu livro Idade Média - o que não nos ensinaram. A autora consultou e teve acesso a documentos originais da época, quando não de informações contidas em fontes confiáveis.



Nos nossos dias, pouco ouvimos falar do papel da mulher na Idade Média. E quando ouvimos, muitas vezes de forma deturpada.
O papel da mulher na sociedade, aliás, a própria sociedade medieval, segundo a autora, passaram por mudanças lentas a partir do século XIII, com o ressurgimento do chamado direito romano, que aos poucos suplantou o direito medieval (eclesiástico).
Pelas constatações, vê-se que hoje em dia a maioria das mulheres têm muito o que fazer para reencontrar o lugar que foi seu nos tempos da rainha Eleonora ou da rainha Branca..

9 comentários:

  1. Pesquisava sobre o papel da mulher na Idade Média, e foi em seu blog que consegui algumas informações preciosas. Poderia me informar sobre a relevância do papel feminino em Roma, durante a Idade Média?
    Grata pela atenção e pelas informações preciosas.

    ResponderExcluir
  2. Olá Cidinha!

    Bom, eu não sei especificamente qual a relevância da mulher em Roma neste período, mas o que posso dizer é que a situação da mulher em Roma na Idade Média, é praticamente a mesma de toda a Europa, dependendo da fase do medievo. É que nesta época a cultura foi se formando de maneira universal, graças ao trabalho da Igreja Católica que através das catequeses foi unindo os povos bárbaros e terminou por construir a Europa com todos aqueles povos diferentes unidos por uma mesma cultura e religião. Era o que se denominava a Cristandade. Como a cultura era basicamente a mesma, o tratamento era basicamente o mesmo. Claro que há algumas diferenças das populações germânicas para as romanas. Os latinos costumavam ser mais centralizados na figura do homem. Mas com o cristianismo crescendo foi também se espalhando a idéia de que a mulher é um ser que deve ser respeitado e que tem na mãe do Senhor Jesus Cristo, seu modelo de virtude, beleza e fé. Daí as mudanças essenciais na visão do papel da mulher perante a sociedade, que muda radicalmente: na Antiguidade greco-romana a mulher era apenas um objeto, uma parideira. Com o cristianismo isso muda e esta passa a ter um papel de respeito, surgindo como a senhora da casa, podendo desenvolver outros dons que não so domésticos (tal como aconteceu com a grande figura de Hildegard von Bingen). A mulher passa a poder estudar (os conventos eram lugares ideais para os retiros das mulheres que queriam se dedicar não somente a vida espiritual, mas a intelectual também), funda ordens e levanta mosteiros (Santa Clara de Assis), frequenta a universidade (Heloísa), guerreia (Santa Joana D’Arc), vai às Cruzadas (Eleanor de Aquitania), enfim, está presente em toda a sociedade. Esses nomes que citei são apenas alguns, não constituem exceção.

    Para saber mais sobre o assunto leia os livros de Regine Pernoud (você encontra na livraria Cultura e na Estante Virtual).

    Eu sempre publico aqui informações importantes sobre este período, você pode encontrar mais clicando na tag Idade Média.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  3. Letícia8/26/2008

    Oie...
    Gostei muito desse site, ele me ajudou muito em um trabalho que estou fazendo sobre o cristianismo.
    Achei informações muito importantes que me ajudaram muito.

    Abraço.

    ResponderExcluir
  4. Olá,
    Estou realizando uma pesquisa da mulher na Idade média, pos busco encaixá-lo numa evoluição histórica do papel feminino numa sociedade e a sua relação de subordinação ao gênero masculino.
    Gostaria saber se você tem algo a acrescentar nesse texto, ou se existem outros que possam me ajudar no desenvolvimento desse tema acima exposto.

    ResponderExcluir
  5. Letícia, muito obrigada e que Deus te abençoe!

    Abraço!

    ResponderExcluir
  6. Cah,

    eu recomendo sempre os livros de Regine Pernoud, que são ótimos. Há um que fala especificamente da mulher: “A Mulher no Tempo das Cruzadas”, da mesma autora. Há também alguns bons sites especializados no período medieval (você pode entrar em contato com os autores), pode ser que ajudem:

    www.ricardodacosta.com
    http://gloriadaidademedia.blogspot.com/
    http://catedraismedievais.blogspot.com/
    http://heroismedievais.blogspot.com/
    http://castelosmedievais.blogspot.com/
    http://ascruzadas.blogspot.com/
    http://oracoesemilagresmedievais.blogspot.com/
    http://cidademedieval.blogspot.com/
    http://contoselendasmedievais.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  7. Anônimo10/23/2009

    Preciso faser um trabalho sobre a mulher na idade média,até a pouca nao tinha encontrado nada que pudesse ser ultilizado,sobre o assunto.Gostri muito desse texto por que traz a mulher nao como uma simplies subimisa....

    ResponderExcluir
  8. Anônimo6/22/2011

    Excellent work there. I really love it.

    ResponderExcluir
  9. Anônimo8/17/2011

    I just added this blog to my rss reader, excellent stuff. Can not get enough!

    ResponderExcluir

Antes de fazer seu comentário: ele deve ser relacionado ao post, e feito respeitosamente. Reservo-me o direito de não publicar comentários que julgue desnecessários ou desrespeitosos. Os comentários não expressam a minha opinião e são de total responsabilidade de seus autores.

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.