quinta-feira, maio 01, 2008

O trabalho na Idade Média








Dois textos sobre o trabalho na época medieval. Os grifos são meus.

Primeiro a historiadora medievalista Régine Pernoud:

Seria ainda necessário assinalar a influência exercida pela doutrina eclesiástica no regime de trabalho; o direito romano apenas conhecia, nos contratos de arrendamento ou de venda, a lei da oferta e da procura, enquanto no direito canónico e depois dele o direito consuetudinário submetem a vontade dos contraentes às exigências da moral e à consideração da dignidade humana. Isto devia ter uma profunda influência nos regulamentos dos mestres, que proibiam à mulher os trabalhos demasiado fatigantes para ela, a tapeçaria de tear alto, por exemplo; o resultado foram também todas aquelas precauções de que se rodeavam os contratos de aprendizagem e o direito de visita concedido aos jurados, tendo por fim controlar as condições de trabalho do artesão e a aplicação dos estatutos. Sobretudo, é preciso apontar como muito revelador o facto de ter alargado ao sábado de tarde o repouso de domingo, no momento em que a actividade económica se amplifica com o renascimento do grande comércio e o desenvolvimento da indústria.

Uma revolução mais profunda tinha de ser introduzida pelas mesmas doutrinas no concernente à escravatura. Notemos que a Igreja não se ergueu contra a instituição propriamente dita da escravatura, necessidade económica das civilizações antigas. Mas lutou para que o escravo, tratado até então como uma coisa, fosse daí em diante considerado como um homem e possuísse os direitos próprios da dignidade humana; uma vez obtido este resultado, a escravatura encontrava-se praticamente abolida; a evolução foi facilitada pelos costumes germânicos que conheciam um modo de servidão muito suavizado; o conjunto deu lugar à servidão medieval, que respeitava os direitos do ser humano e apenas introduzia, como restrição à sua liberdade, a ligação à gleba. É curioso constatar que o facto paradoxal da reaparição da escravatura no século XVI, em plena civilização cristã, coincide com o retorno geral ao direito romano nos costumes.

Pernoud, Régine. Luz sobre a Idade Média. Publicações Europa-América. 1997. pp. 86-87.


Trecho extraído do blog de Alphonse van Worden:

O sociólogo e economista marxista alemão Robert Kurz, para além de suas controversas, malgrado percucientes análises a propósito da configuração atual do ‘sistema produtor de mercadorias’, tem sido particularmente útil no desmonte de certas ficções pseudo-revolucionárias, de origem mormente iluminista. Em seu livro Os Últimos Combates podemos encontrar, em diversos ensaios, referências positivas a respeito da sociedade feudal frente ao processo de modernização que iria redundar, a partir dos séculos XVII e XVIII, na consolidação do capitalismo.
Kurz salienta, com freqüência e sempre de modo enfático, que a vida dos camponeses, servos e artesãos medievais era, de uma maneira geral, mais livre e confortável que o padrão de vida do proletariado, e mesmo da classe média baixa, nos séculos XIX e XX. No ensaio Escravos da luz sem misericórdia, por exemplo, o autor alemão, fazendo um cotejo entre a duração da jornada de trabalho na atualidade e no período medieval, nos diz ser possível constatar, por intermédio da consulta a documentos da época, "que a jornada de trabalho dos servos nas glebas 'devia durar da alvorada ao meio-dia'. Ou seja, a jornada de trabalho era mais reduzida do que hoje não apenas em termos absolutos, mas também relativos, por variar conforme a estação e ser menor no inverno que no verão" (pág.250); n'outra passagem do mesmo texto, escreve o seguinte: "Nos séculos XVIII e início do XIX, tanto o prolongamento absoluto quanto o relativo da jornada de trabalho, por meio da introdução da hora econômica abstrata, foram sentidos como uma tortura. Por muito tempo, houve uma luta desesperada contra o trabalho noturno ligado à industrialização. (...) Quando na Idade Média calhava de os artesãos trabalharem à noite por razões de prazo, cabiam-lhes lautos repastos e salários principescos. O trabalho noturno era uma rara exceção. E consta das grandes 'façanhas' do Capitalismo ter logrado converter o aguilhão tempo em regra geral da atividade humana"(pág.251). Na conclusão deste texto, Kurz faz uma severa crítica ao próprio pensamento marxista, que se converte em 'religião do trabalho': "O Marxismo, em contraste à sua própria pretensão social, foi um protagonista do 'trabalho abstrato', à medida que sucumbiu ao pensamento mecanicista do Iluminismo e a seu pérfido simbolismo da luz" (pág.253).

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