quinta-feira, agosto 21, 2008

Tal qual Narciso


Há algum tempo atrás reli um texto do Professor de Filosofia Luiz Felipe Pondé, da USP, muito bom. Baseada neste artigo escrevi este post.


Enquanto o homem escolher estar no Caminho Dele, que Ele enviou como Seu Filho mesmo à terra, então há esperança de realizar no homem aquilo que Deus viu se realizar no humano Jesus. Porque Jesus foi o ser humano perfeito, o modelo de humanidade mesmo para cada um de nós e ao mesmo tempo é Deus. Isso tão fascinante, que me pergunto como é que não vi isso antes!

Eu não sei se em algum momento vivi essa “espiritualidade agônica” da qual fala o Pondé. Mas desde que me voltei para a Igreja passei a pensar em várias coisas nas quais não pensava antes. E dia desses me peguei pensando que só estou viva, só existo porque sou sustentada por Deus. Eu poderia cair no aniquilamento se Ele não me sustentasse. E pode acontecer também que eu fique separada Dele (no inferno). Isso é assustador! Muito! Pensando nisso me admiro em ver as pessoas vivendo como se nada tivesse tanta importância quanto seu jogo de futebol ou o vestido novo. Me admiro cada vez mais de ver que as pessoas à minha volta, a maioria, não pára mesmo para pensar no transcendente, no sentido da vida (ao menos é isso o que aparentam). Não é que eu não goste de diversão ou vestidos. É que não coloco isso em primeiro plano. É como foi colocado no texto, o ser humano fica “alienado do Bem” porque deseja o que não pode nunca lhe dar o verdadeiro conforto. Não repousa porque busca as coisas efêmeras. Só podemos repousar em Deus e enquanto isso não acontece vivemos sentindo falta, muita falta Dele, mesmo que não saibamos disso.

Pondé vê a cultura do bem-estar como narcísica e tem razão. Essa cultura é tão forte que causa estranheza que alguém queira se privar de doces na quaresma ou que não queira faltar a nenhuma missa de domingo. Pois hoje o que vale é sugar da vida até a última gota, como se nada mais tivesse sentido. Somente que a vida para estas pessoas é aquilo que há de mais mundano, vulgar até. Logo a gente vê que não há lugar aí para o cristianismo autêntico – digo isso porque há por aí um pastiche de cristianismo, com musiquinhas piegas, rock’n’roll na missa e pregações pseudo-sociais de cunho marxista entre outras barbaridades.

Há uma frase fantástica no texto dele: “o narcisismo só pode ser vivido como desespero da consciência mergulhada na própria miséria”.

Calculem então o tamanho da miséria na qual estamos mergulhados atualmente. Pois nunca vi sociedade mais narcísica do que a nossa.