quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Caminhos para entrar na vida eterna



Comentário ao Evangelho feito por S. João Crisóstomo (cerca 345-407), bispo de Antioquia e de Constantinopla, doutor da Igreja

Sermão sobre o diabo tentador

Quereis que vos indique os caminhos da conversão? São numerosos, variados e diferentes, mas todos conduzem ao céu. O primeiro caminho da conversão é a condenação das nossas faltas. "Aviva a tua memória, entremos em juízo; fala para te justificares!" (Is 43,26). E é por isso que o profeta dizia: "Eu disse: «confessarei os meus erros ao Senhor» e Vós perdoastes a culpa do meu pecado" (Sl 31,5). Condena pois, tu próprio, as faltas que cometeste, e isso será suficiente para que o Senhor te atenda. Com efeito, aquele que condena as suas faltas, tem a vantagem de recear tornar a cair nelas...

Há um segundo caminho, não inferior ao referido, que é o de não guardar rancor aos nossos inimigos, de dominar a nossa cólera para perdoar as ofensas dos nossos companheiros, porque é assim que obteremos o perdão das que nós cometemos contra o Mestre; é a segunda maneira de obter a purificação das nossas faltas. "Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós" (Mt 6,14).

Queres conhecer o terceiro caminho da conversão? É a oração fervorosa e perseverante que tu farás do fundo do coração... O quarto caminho, é a esmola; ela tem uma força considerável e indizível... Em seguida, a modéstia e a humildade não são meios inferiores para destruir os pecados pela raiz. Temos como prova disso o publicano que não podia proclamar as suas boas ações, mas que as substituiu todas pela oferta da sua humildade e entregou assim o pesado fardo das suas faltas (Lc 18,9s).

Acabamos de indicar cinco caminhos de conversão... Não fiques pois inativo, mas em cada dia utiliza todos estes caminhos. São caminhos fáceis e tu não podes usar a tua miséria como desculpa.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Sobre boicotes e cegueira

Estamos em clima de Quaresma, mas creio que este post não vá destoar da proposta desta época tão importante para o cristão.

Tenho um amigo que tem um blog bastante visitado. Ele fez um post muito bom sobre a decisão dele de boicotar as Olimpíadas na China. Decisão esta que apóio. Mas o que quero comentar aqui é sobre a cegueira de algumas pessoas, proposital ou não, em relação aos males do mundo. É incrível como que há pessoas que decidem simplesmente fechar os olhos para o que acontece de ruim à sua volta, seja na rua ao lado, seja na China.
Pois bem, há irmãos nossos neste momento sofrendo horrores nas mãos do governo comunista chinês. São presos, torturados e mortos. Tem seus órgãos tirados e vendidos no mercado negro.

Essas notícias só chegam aqui porque há pessoas muito corajosas que decidem, mesmo colocando sua vida em risco, contar às pessoas de fora o que acontece lá dentro. E não é só na China. Há o Tibet. Um povo que vive hoje exilado de sua cultura, tendo que viver sem seu líder espiritual, o Dalai Lama. É muito triste isso tudo. Mas é horrível ver que existem pessoas que parecem pisar nos corpos dessas vítimas. Sem culpa! Ver que há pessoas que em vez de se unirem para denunciar tais crimes, resolvem agir aplicando o diversionismo, e tiram a atenção do foco da questão para discutir coisas que estão fora da proposta concebida e até mesmo para atacar a honra de quem se propõe denunciar essa barbárie. É isso o que está acontecendo lá no blog desse meu amigo.


Como é que pode isso? E o sofrimento daquelas pessoas que estão sendo tiradas de suas famílias, de sua religião? Não têm compaixão delas? Algumas alegam coisas tão absurdas que nem vale a pena comentar aqui. Querem fazer crer que ter vida espiritual é viver como um palerma fechando os olhos para a realidade, só faltando dizer amém à crueldade!


Vida espiritual não é fuga da realidade! Temos que estar atentos ao que ocorre à nossa volta, estender a mão a quem precisa. Jesus Cristo sempre esteve atento à realidade. Soube criticar os fariseus, expulsou os vendilhões do templo, foi firme quando necessário. E há aqueles que querem fazer passar a imagem de um Jesus sem firmeza, que só dizia palavras doces o tempo todo. Ora, mas esse Jesus não existe!


Que nesta Quaresma aprendamos a ter compaixão de nosso próximo. E que há momentos nos quais precisamos ser firmes, tomar medidas enérgicas, para que os malfeitores não continuem a prejudicar os inocentes. Foi isso que Ele nos ensinou.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A capacidade de sofrer por amor da verdade é medida de humanidade






Torna-se cada vez mais difícil entender palavras como estas no mundo de hoje. Sofrer por amor da verdade? Taí algo que mal vejo acontecer.

Atualmente o que mais vale para as pessoas é buscar a satisfação dos sentidos. Isso acontece mesmo com aquelas que julgam estar vivendo uma espiritualidade. Pois pensam que espiritualidade é sentir isso ou aquilo, é ter experiências, visões, premonições...


Vejo isso como uma permanente busca de evasão da realidade que leva ao afastamento da verdade e em último caso ao esfriamento da fé. Sim porque se não conseguirem o que almejam, sua fé vai estar firme ainda?

Hoje as pessoas querem missas onde se canta rock, querem falar em línguas, ver anjos de luz, entre outras coisas. Esquecem-se que Satanás se disfarça em anjo de luz...

Para quê pedir tais coisas a Deus? Para se sentir melhor perante si mesmo? Perante o mundo? Vaidade, tudo é vaidade...

Qual a esperança que traz alguém que busca por sinais o tempo todo? Esse tipo de vida espiritual não será simplesmente “fogo de palha”?

O caminho cristão não é fácil. Hoje as pessoas buscam por facilidades. Não é à toa que terminam por se envolver com certas práticas perniciosas para a alma.

Para caminhar com Cristo é preciso deixar o orgulho de lado e saber vencer caprichos.

Hoje a mensagem para a Quaresma é: humildade.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Vestibular para Eva e seus filhos

(*) Pe. David Francisquini

Adão e Eva foram submetidos, a seu modo, a um vestibular, e não passaram na prova. Com isso, todos os homens pecaram em Adão, segundo São Paulo. Com efeito, tendo o demônio falado através da serpente, seduziu Eva e esta por sua vez levou seu marido a comer também do fruto proibido. A essa tentação, seguida da desobediência, chamamos pecado original.

Além da expulsão do paraíso terrestre, da sujeição aos sofrimentos, da fadiga no trabalho, das discórdias, das guerras, das doenças e da própria morte, o pecado original ainda deixou nossa natureza corrompida, com três inclinações particularmente más: o orgulho ou soberba, a sensualidade e a avareza. Essas inclinações acompanham o homem do berço à sepultura.

Mas por que Deus permite que seus filhos sejam tentados? Tendo Ele nos criado livres, dá-nos ocasião, por meio de repetidas provas, de exercitarmos o espírito de luta contra os nossos defeitos, para assim adquirirmos méritos. No mais das vezes, os mais amados são os mais provados. O Arcanjo Rafael disse a Tobias: "Porque eras agradável a Deus, foi necessário que a tentação te provasse".

São Paulo nos consola ao ensinar que não existem tentações acima de nossas forças, pois a vontade de Deus é que tiremos proveito da própria tentação para alimentarmos em nós o espírito de humildade, de oração e de vigilância. No Padre-Nosso se afirma: "E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos de todo o mal".

Para vencer as tentações, temos que fazer de nossas almas como que cidadelas no alto das montanhas. O castelo-forte representa os princípios enraizados na alma, enquanto os píncaros simbolizam as leituras e estudos das verdades eternas, seguidos da reflexão constante em descobrir os ataques do adversário e os meios mais eficazes para as batalhas.

As muralhas da fortaleza significam as virtudes que protegem a alma, à maneira da diligência, que afugenta a ociosidade, causadora de maus pensamentos e más imaginações. São João Crisóstomo nos ensina que a ociosidade é a mãe de todos os vícios e nosso Divino Mestre nos encareceu a necessidade da vigilância e oração com a seguinte exortação: "Vigiai e orai, para não cairdes em tentação".

Quem reza evita a queda em tentação e, conseqüentemente, deixa de ofender a Deus. Como a cidade fortificada encontra-se preparada para resistir à investida de um exército inimigo, assim nossas almas, através de batalhas constantes e renhidas, devem estar fortalecidas para vencer em primeiro lugar a nós mesmos, pois quem não combate os seus defeitos ficará desguarnecido, tornando-se presa fácil das tentações.

(*) Sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria - Cardoso Moreira (RJ)

Publicado "Agência Boa Imprensa" (ABIM).Notícias e comentários destinados a órgãos do Brasil e do exteriorABIM nº 971 - Novembro - 2007

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Para entender a Idade Média


Por Gilbert Keith Chesterton


É inteiramente razoável que os homens prósperos do nosso tempo não saibam História. Se a conhecessem, teriam de conhecer a história muito pouco edificante de como se tornaram prósperos...É inteiramente razoável, digo, que não saibam História: mas por que raios pensam que sabem? Aqui está uma opinião, tomada a esmo do livro de um dos mais cultos dentre os nossos jovens críticos, obra muito bem escrita e inteiramente digna de confiança – quando trata do seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz esse escritor: “Na Idade Média, houve pouco ou nenhum avanço social ou político” até a Reforma e a Renascença.Ora, eu poderia igualmente bem afirmar que, no século XIX, houve pouco avanço na ciência e na técnica até a vinda de William Morris (1), e depois justificar essa afirmação dizendo que não tenho nenhum interesse pessoal por teares a vapor ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Porque isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: que não tem nenhum interesse pessoal por arautos ou abades mitrados. Tudo isso está muito bem; mas por que, ao escrever sobre coisas que não existiam na Idade Média, esse autor sente a necessidade de dogmatizar sobre um assunto de que evidentemente nunca ouviu falar? E sobre o qual, apesar de tudo, talvez ainda se pudesse contar uma História muito interessante?

Pouco antes da conquista pelos normandos (2), países como o nosso apresentavam um feudalismo ainda incipiente e completamente pulverizado, sulcado por contínuas ondas de bárbaros, bárbaros que nunca tinham montado um cavalo. Praticamente não havia casa de pedra ou de tijolo na Inglaterra; quase não havia estradas, apenas sendas batidas; praticamente não havia lei, apenas costumes locais. Essa era a Idade das Trevas, da qual surgiria a Idade Média.

Mas tomemos agora a Baixa Idade Média, duzentos anos depois da conquista normanda e praticamente outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os cidadãos são privilegiados e importantes; os trabalhadores organizaram-se em Corporações de Ofício livres e responsáveis; os Parlamentos são poderosos e litigam com os próprios reis; a escravidão desapareceu quase por completo; abriram-se as grandes Universidades, que ministram esse programa de ensino tão admirado por Huxley (3); repúblicas tão orgulhosas e patrióticas como as dos antigos pagãos erguem-se como estátuas de mármore ao longo da costa mediterrânea; e por todo o norte os homens construíram igrejas tão grandiosas que os homens talvez nunca mais as igualem. E isso – que, na sua maior parte, foi realizado mais propriamente não em dois, mas em um século –, é a isso é o que o nosso crítico chama “pouco ou nenhum avanço social ou político”. Praticamente não há instituição moderna importante que tenha influenciado a sua vida – da escola em que estudou ao Parlamento que o governa –, que não teve os seus principais avanços na Idade Média.

Se alguém pensa que escrevo isso por pedantismo, espero poder mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e mais prático. Quero considerar a natureza da ignorância, e começo por dizer que, em qualquer sentido escolar e acadêmico, sou eu mesmo muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham (4) que tinha um grande conhecimento geral, eu diria que tenho uma grande ignorância geral.

Só que este é exatamente o ponto a que pretendia chegar. É um conhecimento geral e uma ignorância geral: sei pouco de História, mas sei um pouco de quase toda a História. Não sei muito, digamos, sobre Martinho Lutero e sua Reforma, mas sei que ela fez uma diferença enorme; ora, não saber que o rápido progresso dos séculos XII e XIII fez uma diferença enorme é pelo menos tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Também não estou muito bem informado sobre os budistas, mas sei que se interessam por filosofia; não saber que os budistas se interessam por filosofia, acredite em mim, seria tão chocante como não saber que os medievais se interessavam pela experimentação e pelo progresso políticos.

Da mesma forma, não sei muito sobre Frederico o Grande. Na minha infância, a enorme coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto inspirava-me medo: parecia haver tantas coisas a conhecer! No entanto, apesar desses receios, eu seria perfeitamente capaz de adivinhar, com uma razoável probabilidade de acerto, o tipo de assunto que esses volumes continham. Por exemplo, eu arriscaria (penso que não incorretamente) que os volumes deviam conter a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que, de tempos a tempos, se falaria de guerra; que se faria alguma menção de tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada caso se procurasse diligentemente, bem como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar de todos aqueles volumes, o seu grande autor diria se Frederico o Grande tivera um pai, se chegara a casar-se, se possuíra grandes amigos, se tivera algum hobby ou aficção literária de qualquer tipo, se havia morrido no campo de batalha ou na cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem suficiente para abrir um daqueles volumes, provavelmente teria encontrado alguma coisa, ao menos nessas linhas gerais.

Agora, troque a imagem; imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro. Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a brigar em nome do futuro “socialismo”.

Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas, se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.

Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.

Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir – ou o fará acordar.


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(1) William Morris (1834-1896): Artista e escritor inglês, contribuiu com grande sucesso para a valorização e o aprimoramento das mais variadas formas de arte (desde a decoração até a arquitetura e a iluminura), chegando mesmo a fundar empresas bem-sucedidas nesse ramo (entre elas, a tipografia Kelmscott Press, em 1890). Ao fim da vida, deixou de lado os seus êxitos artísticos e empresariais para dedicar-se a difusão de idéias socialistas.
(2) A conquista da Inglaterra pelos normandos comandados por Guilherme o conquistador ocorreu no ano de 1066.
(3) Thomas Henry Huxley (1825-1895): biólogo inglês, amigo de Charles Darwin e um dos maiores defensores e divulgadores da teoria evolucionista, o que fez especialmente através do seu livro Man´s Place in Nature (“O lugar do homem na natureza”, 1863), em que pela primeira vez os princípios do evolucionismo são aplicados ao homem.
(4) Henry Peter, Lord Brougham (1778-1868): político britânico nascido em Edimburgo. Suas numerosas obras, às vezes contraditórias entre si, cobriram quase todos os ramos do conhecimento da época, tendo ele escrito sobre Filosofia, Teologia, Economia e até Matemática. Destacou-se também por ter fundado revistas e sociedades de difusão do conhecimento e por ter realizado reformas no Parlamento britânico.

Fonte: Illustrated London News, 15 de novembro de 1913
Tradução: Quadrante