quinta-feira, fevereiro 12, 2009

As Cruzadas - Agredidos e Agressores

por Vittorio Messori*






"Admitido que alguém, na história, devesse pedir desculpa a outro, deveriam ser os católicos a pedir perdão por um ato de autodefesa, pela tentativa de ter pelo menos aberto o caminho da peregrinação aos lugares de Jesus, como foi o ciclo das cruzadas?"

Sempre foi chamada "praça das Cruzadas". Há pouco mais de um ano é "praça Paulo VI". À mudança de nome do largo milanês, junto à insigne basílica de São Simpliciano, não está alheia a Faculdade Teológica da Itália Setentrional que se abre para ela. Dizem que houve pressões clericais para que se mudasse o nome daquele logradouro. Sentiam que era embaraçoso, mais para certos meios católicos que para as autoridades laicas. Este acontecimento milanês não é senão uma confirmação, entre tantas, de um fato desconcertante: depois de dois séculos de propaganda incessante, a "legenda negra" construída pelos iluministas como arma da guerra psicológica contra a Igreja Romana, terminou por instilar um "problema de consciência" na intelligentsia católica, além do imaginário popular.

Foi, na realidade, no século dezoito europeu que, completando a obra da Reforma, se firmou o rosário, tornado canônico, das "infâmias romanas". No que diz respeito às Cruzadas, a propaganda anticatólica chegou até a inventar o nome, como o termo "Idade Média", excogitado pela historiografia "iluminista". Os que há novecentos anos tomaram de assalto Jerusalém considerariam estúpidos os que lhes tivessem dito que davam cumprimento àquilo que seria chamado de "primeira Cruzada". Para eles, era iter, peregrinatio, succursus, passagium.

Os "panfletários", em suma, inventam um nome e constróem em torno uma "legenda negra". Não é só isso: será essa mesma propaganda européia que "revelará" ao mundo muçulmano o ter sido ele o "agredido". No Ocidente, a obscura invenção "cruzada" terminou por impregnar com sentimento de culpa certos homens da própria Igreja, ignorantes de como as coisas ocorreram.

Quem foi o agredido e quem é o agressor?

Quando em 638 o Califa Omar conquista Jerusalém, esta era, há mais de três séculos, cristã. Pouco depois, sequazes do Profeta [Maomé] invadem e destróem as gloriosas igrejas, primeiro do Egito e, depois, de todo o norte da África, levando à extinção do cristianismo em lugares que tinham tido bispos como Santo Agostinho. Depois foi a vez da Espanha, da Sicília, da Grécia, daquela que será chamada Turquia e onde as comunidades fundadas pelo próprio São Paulo tornaram-se montes de ruínas. Em 1453, depois de sete séculos de assalto, capitula e é islamizada a própria Constantinopla, a segunda Roma. O rolo islâmico atinge os Bálcãs, e, como por milagre, é detido e obrigado a retirar-se das portas de Viena.

Entretanto, até o século XIX, todo o Mediterrâneo e todas as costas dos países cristãos que ficam em face, são "reservas" de carne humana: navios e países serão assaltados por incursões islâmicas, que retornam às covas magrebinas cheios de butins, de mulheres e jovens para os prazeres sexuais dos ricos e de escravos obrigados a morrerem de cansaço ou para serem resgatados a preços altíssimos pelos Mercedários e Trinitários. Execre-se, com justiça, o massacre de Jerusalém em 1099, mas não se esqueçam de Maomé II, em 1480, em Otranto, simples exemplo de um cortejo sanguinolento de sofrimentos.

Ainda hoje: quais países muçulmanos reconhecem aos outros que não aos seus, os direitos civis ou a liberdade de culto? Quem se indigna com o genocídio dos armênios, ontem e dos sudaneses cristãos, hoje? O mundo, segundo os devotos do Corão, não está ainda agora dividido em "território do Islam" e "território de guerra", todos os lugares, ainda não muçulmanos, mas que devem se tornar tais, por bem ou por mal? Não é esta a ideologia subentendida por muitos na imigração maciça rumo à Europa?

Uma simples revisão da história, mesmo nas suas linhas gerais, confirma uma verdade evidente: uma Cristandade em contínua posição de defesa em relação a uma agressão muçulmana, desde o começo até hoje (na África, por exemplo, está em curso uma ofensiva sanguinolenta para islamizar as etnias que os sacrifícios heróicos de gerações de missionários tinham levado ao batismo). Admitido que alguém, na história, devesse pedir desculpa a outro, deveriam ser os católicos a pedir perdão por um ato de autodefesa, pela tentativa de ter pelo menos aberto o caminho da peregrinação aos lugares de Jesus, como foi o ciclo das cruzadas?


Vittorio Messori* in Frente Universitária LepantoCorriere dela Sera - 26 de julho/1999

* Vittorio Messori. Autor de best-sellers, com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Único autor que publicou um livro-entrevista com o Papa João Paulo II («Cruzando o limiar da esperança») e entrevistou o cardeal Joseph Ratzinger («Informe sobre a Fé»), que depois chegaria a ser Papa.

MESSORI, Vittorio: As Cruzadas - Agredidos e Agressores. Disponível em: Sociedade Católica.

7 comentários:

  1. Indiquei seu blog para o prêmio "Blog de Ouro".

    Para participar, entre:

    http://filhaprodiga.wordpress.com/2009/02/15/eu-ganhei-o-selo-blog-de-ouro/

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  2. Achei tudo muito interessante,ANDREA.
    Se vc permitir,gostaria de reproduzir num futuro PAPIRO AMIGO.
    Beijos!!

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  3. DO, pode sim, claro.

    Beijos!

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  4. Eduardo Araújo2/17/2009

    Muito bom mesmo, minha cara Andréa.

    No caso das cruzadas, ainda prevalece a tese de Steven Runciman, mesmo após mais de quarenta anos de elaborada. Esse historiador britânico estudou o tema, chegando à conclusão de que a motivação das cruzadas foi o fanatismo religioso. Pronto, de lá para cá, vimos assistindo a essa enxurrada de interpretações anticlericais, que expõem a Igreja como uma vilã e cita os cristãos como agressores fanáticos e assassinos de um povo "ordeiro", "pacífico", "culto", que estava pacatamente vivendo o seu cotidiano naqueles tempos da "idade das trevas".

    Messori é bastante feliz ao indicar os antecedentes que levaram à manifestação do Papa Urbano II. E sobre os massacres, vale mencionar que no próprio período das cruzadas houve muitos perpretados pelos muçulmanos, inclusive o que fechou a série, a tomada de Acre pelos mamelucos egípcios, que já vinham fazendo banhos de sangue a rodo.

    O próprio Saladino é mostrado sempre como um líder virtuoso e cortês, amiúde fazendo-se paralelo com os cristãos, citados como brutos, incultos e violentos. Mas a história do chefe curdo contém boas amostras de atrocidades por ele ordenadas e das quais participou. No entanto, os "intelectuais" destas bandas, com seu revisionismo primário e unilateral, juntam-se a escritores e cineastas de Hollywood numa distorção monumental dos conflitos, num matiz fortemente anticlerical.

    Beijos!

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  5. Exatamente, Eduardo. É interessante també notar que quando vamos tentando mostrar a veradde sobre os fatos, alguns logo nos apontam o dedo chamando-nos de "revisionistas", como se contar o resultado de estudos sérios fosse algo ruim! Esses mesmos "críticos" não se dão conta de que acreditam em falácias, em fantasias e distorções de certos autores e que deveriam buscar a verdade...

    Beijos!

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  6. Eduardo Araújo2/18/2009

    Cara Andrea,

    Reli agora o comentário que fiz e notei o quanto ainda sou "verde" (mal germinei, quiçá, rs) ao escrever na internet.

    Gostaria, portanto, de esclarecer que ao mencionar que a tese de Runciman é a que prevalece faltou-me acrescentar: "nas abordagens sobre as cruzadas".

    Ok, minha cara? Apenas para evitar que alguém interprete equivocadamente o que afirmei sobre a tese de Runciman como se eu concordasse com ela.

    Aproveito para lhe parabenizar pelo selo Blog de Ouro(post acima). Conheço a maioria dos blogs indicados e todos também são muito bons. Destaco os do Luís Darfur, que faz um trabalho de resgate do autêntico conhecimento sobre a Idade Média. Além do citado (Glória da Idade Média), tem o das catedrais, o dos castelos, o das orações, enfim, um tesouro, igual a este seu blog. :))

    Beijos

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  7. Ok, Eduardo, entendi sua colocação.

    Obrigada pelas felicitações! :)

    Gosto muito desses blogs sobre Idade Média! São maravilhosos!

    Beijos!

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