segunda-feira, maio 18, 2009

No Fio da Navalha

vida

Às vezes sinto como se estivesse andando no fio de uma navalha. Não é nada fácil viver tendo de fazer escolhas, o tempo todo, pensando na responsabilidade de cada ato, de cada palavra ou pensamento. Mas não há outra forma de viver para quem quer ter uma vida espiritual plena, para quem confia – ou pede a graça de confiar - inteiramente a vida a Deus.

Percebo que eu mesma não tenho o equilíbrio necessário para lidar com algumas situações; que tenho que pedir aos Céus para obter serenidade no momento de fazer certas coisas ou lidar com certas pessoas.


Eu sei que tenho que fazer o bem, mas nem mesmo devo lembrar que o fiz, pois senão posso querer me vangloriar disso e a vaidade anula tudo. É como aquela história de sua mão esquerda não saber o que fez a direita. É o fio da navalha: fazer algo e ao mesmo tempo nem mesmo dar importância ao que se fez, sabendo que a linha que separa a benfeitoria da vaidade é muitíssimo tênue. É um caminho tão estreito e tão difícil, que só pode ser trilhado com fé em Quem pode lhe segurar. Não vejo outra maneira. Agora começo a ver com mais clareza que se Ele não me sustentar, serei nada.


O obstáculo principal à fé não está nas dificuldades intelectuais que ela suscita, mas nos sacrifícios que impõe. É o medo de sermos melhores que nos distancia da verdade.”
(Pe. Leonel Franca*)


Então percebo o medo dos que não querem crer Nele. O medo da entrega é causado pela soberba. Os descrentes e os pseudo-crentes pensam que podem se sustentar por suas próprias forças e não percebem como é absurda tal situação assim como é absurdo o Barão de Munchausen salvar a si mesmo do afogamento puxando seus próprios cabelos para fora d’água!


Eu não criei a mim mesma, eu não Sou, Ele É. Se Ele É, então é somente Dele que vem o meu sustento. Simples assim.


Andar no fio da navalha tem uma analogia com a porta estreita:

Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram”. (Mt 7,13)

Aquele que se recusa a andar no fio da navalha é o que busca a porta larga. Ele não quer passar pelo sofrimento de ter que fazer escolhas importantes, ele não quer parar para pensar nas conseqüências de seus atos, palavras e pensamentos, quer apenas viver de acordo com seus interesses mais egoístas, posando de benfeitor da sociedade ou de “pessoa esclarecida” ou mesmo de “espírito evoluído” que não precisa de Deus para tomar decisões e que crê piamente que pode puxar seus cabelos da água quando tiver se afogando.

Ele não busca a verdade, busca apenas afirmar a si mesmo. Tem medo de crescer, pois se crescer vai terminar por encontrar a verdade. Por isso prefere "usar máscaras", viver preguiçosamente, buscar refúgio em situações, lugares, pessoas, ideologias e instituições que não trazem a verdade, apenas simulam trazê-la. O sucesso das seitas e pseudo-ciências, dos partidos políticos de ideologia marxista, das organizações globalistas e outros do tipo acontece justamente por isso: medo de buscar a verdade.

Por procurar a porta estreita tenho me visto continuamente a dançar no fio da navalha. Mas a vida sem isso, sem o conteúdo transcendente, não vale a pena para mim. Qual o sentido em viver sem buscar saber o porquê das coisas, sem querer saber qual o início de tudo? Qual o sentido em viver de maneira puramente egoísta, apenas buscando o prazer e fugindo da dor ou me iludindo com paraísos na Terra e prorrogações de prazo para melhoria de minha alma? Isso tudo é fuga!

Não, não. A porta é estreita. E eu prefiro andar no fio da navalha.



*FRANCA, Leonel. A psicologia da fé. Rio de Janeiro: Agir, 1946, p. 53