quinta-feira, junho 04, 2009

A Porta

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Catedral de Notre Dame, Paris: Portal do Julgamento


Abaixo um texto muito interessante sobre o simbolismo da porta no templo cristão. É um trecho do livro de Jean Hani, "O Simbolismo do Templo Cristão".


A Porta
por Jean Hani

Os homens modernos têm de reaprender o valor profundo dos gestos, diz Romano Guardini no seu precioso livrinho sobre Os Sinais Sagrados. O sinal da cruz feito com água benta não passa, na maioria dos casos, de um gesto maquinal.

E é porventura um gesto ainda mais maquinal o de “entrar na igreja”. No entanto, “transpor o limiar”, “passar a porta”, esses gestos aparentemente insignificantes, quanto encerram em si para que suscite a nossa atenção! Existe um mistério da “passagem”! Daí a existência, nas sociedades tradicionais, de todo o gênero de “ritos de passagem” e, sobretudo, dos ritos de hospitalidade.

Transpor uma porta para penetrar, ainda que na habitação mais humilde, constitui algo grave e solene, que se torna muito naturalmente um rito. A sacralidade da passagem e da porta assume todo o seu valor quando se trata do templo, razão pela qual se colocavam à entrada dos edifícios sagrados “guardas do limiar”, estátuas de archeiros, de dragões, de leões ou esfinges, personagens semidivinas, e até divinas, como o Jano dos Romanos, deus da porta —janua — e do primeiro mês do ano, aquele que “abre” o ano —januarius.

Catedral de Notre Dame, Paris: Portal do Julgamento

Esses guardas do limiar tinham por missão recordar a quem se dispunha a entrar o caráter temível do acto que se preparava para executar ao penetrar no domínio sagrado. “Tu que entras, volta-te para o céu”, adverte uma inscrição sobre a porta da igreja de Mozat.

Na cerca sagrada que separa o lugar santo do mundo profano, há um vazio, uma cesura, que é algo de prodigioso: por ela se passa de um mundo para outro.

Um facto verificado por todos os que visitaram as igrejas românicas e góticas é a enorme importância atribuída à decoração das portas e, sobretudo, do portal principal. Isto explica-se facilmente se observarmos que os diferentes motivos de ornamentação, meticulosamente dispostos, visam realçar e explicitar o simbolismo fundamental da porta. Apressemo-nos, aliás, a referir que esse simbolismo existe mesmo na porta mais despojada, pelo que tudo o que vamos expor se aplica a qualquer porta de igreja.

Notre Dame de Paris - Portail de la Vierge: coroação da Virgem

Se o templo é uma imagem do mundo, por outro lado, pode ser considerado uma porta aberta para o Além, segundo a palavra da Escritura que a sagrada liturgia lhe aplica: “Quão venerável é este lugar! Não é ele senão a Casa de Deus e esta é a porta do Céu” (Gen. 28, 17). Ora, demonstrou-se que a própria porta é um resumo de todo o templo. Com efeito, ela apresenta-se como um nicho de base rectangular encimado por um arco, de volta inteira ou quebrado, ou seja, repete muito simplesmente o coro da igreja, que é igualmente um grande nicho proveniente da caverna sagrada das origens — símbolo, por sua vez, da Caverna cósmica —, de que se encontram formas sempre vivas nos nichos sagrados da Índia ou do Islão (Mihrab das mesquitas). O santuário da igreja bizantina e romana tem na verdade o aspecto de uma caverna sagrada, com a sua abóbada em que pontifica o Cristo Pantocrator, como no tímpano do portal. De notar, por outro lado, que os contornos do nicho e da porta reproduzem o próprio plano de todo o edifício: a parte arredondada — como a abóbada e a cúpula — representa o céu; o retângulo — como a nave — a terra. A porta é, pois, por seu turno, um símbolo cósmico.

Mas é igualmente um símbolo místico. Uma vez que o templo representa o Corpo de Cristo, a porta, que é o seu resumo, também deve representar Cristo.

Aliás, Ele próprio o disse de uma forma bem clara: “Eu sou a porta por onde entram as ovelhas... Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo” (João, 10, 7-9). A porta da igreja transforma-se efectivamente nesta porta mística e crística pelo rito de consagração, durante o qual o prelado faz uma unção de santo crisma em cada um dos umbrais, dizendo: “Bendita e consagrada seja esta porta... que ela seja uma entrada de salvação e de paz; que seja uma porta de paz, por intercessão d'Aquele que a si mesmo se chamou 'aPorta', Nosso Senhor Jesus Cristo”.


Portal do Julgamento

Sendo o templo cristão igualmente a figura da Jerusalém celeste, ou seja, do mundo renovado e transfigurado, do Paraíso reencontrado, é pelo Cristo-Porta que se penetra nele. Toda a ornamentação dos portais desenvolve esses dois simbolismos – cósmico e místico – que se apóiam e completam mutuamente...