sexta-feira, junho 19, 2009

“Sozinho” nem sempre significa “abandonado”

Por Mary Beth Bonacci
Traduzido e adaptado por Andrea Patrícia




Deus usa a nossa solidão para revelar-se a nós. Mas temos que deixá-lO vir.

Há muito, muito tempo, antes de eu nascer, houve um grupo de garotas chamado, acredite ou não, Dixie Cups*, que teve uma canção que foi um hit chamada "Chapel of Love” (Capela do Amor). Havia uma linha na canção que dizia:

"Nós amaremos até o fim dos tempos, e nunca mais iremos ficar sozinhos".

Sério? Poderia ser? Casamento é a melhor panacéia para a solidão? As pessoas casadas realmente nunca, nunca ficam solitárias?

Um monte de pessoas solteiras acredita que sim. E um monte de ex-solteiros que casaram apenas para fugir à sua solidão aprendeu da maneira mais difícil que não é assim.

Solidão é uma parte da condição humana. Todos experimentam isso. Claro, as pessoas que vivem isoladas vivem às vezes mais solitárias que aqueles que vivem com o cônjuge e/ou família. Mas não necessariamente. Quem é que nunca se sentiu solitário mesmo quando cercado por uma multidão de pessoas?

Aparentemente o Papa João Paulo II compreende solidão também. (Não é surpreendente, uma vez que ele perdeu toda a sua família, por volta dos seus vinte anos de idade). Ele lida com ela na sua Teologia do Corpo. Uma vez que todos nós - casado, solteiro, religioso - experimentamos solidão, eu pensei que seria uma boa idéia levar algum tempo hoje para ver o que JPII tem a dizer sobre isso.

No livro do Gênesis, Deus criou Adão, "E isso foi muito bom." Adão é criado à imagem e semelhança de Deus. Toda a criação existia como um dom para Adão. E, no entanto, a primeira coisa que disse Deus depois de criar Adão foi "Não é bom que o homem esteja só." Adão é criado para dar-se no amor a outra pessoa humana - e ainda, não há pessoa humana, a quem ele possa se entregar.

O Santo Padre afirma que Adão experimentou a "solidão original". Ele foi percebendo que ele era diferente do resto da criação. Ele não tinha apenas a capacidade de entregar-se no amor para outra pessoa - mas a necessidade de fazê-lo. JPII fala da "subjetividade pessoal" - Adão tem de existir, não apenas em sua própria vida, mas na vida de outras pessoas também.

Mas esse "outro" está longe de ser encontrado. Adão não pode criá-la. Ela será uma dádiva de Deus, e Adão deve esperar por isso.

O Santo Padre afirma que a espera é importante. Solidão original é importante. Para usar uma frase muito não-teológica, "Você não sente falta da água até que o poço fique seco." É só na solidão original que Adão descobre a sua capacidade e a sua necessidade de auto-oferta. Sem a experiência da solidão, ele não seria capaz de apreciar o dom e o tesouro de outro ser humano em sua vida.

Eva é, naturalmente, criada para o seu próprio bem, não o de Adão. Mas sua presença na vida de Adão é um presente de Deus, tal como a presença de Adão na vida de Eva é um presente. Mas essa dádiva, tão bela como ela é, não encobre completamente a solidão original. Adão e Eva permanecem sozinhos perante Deus, e não importa o quão perto eles podem estar um do outro, esta realidade nunca fica distante de suas mentes. Essa outra pessoa não pode e não vai preencher o espaço no coração que é feito para Deus sozinho.

Você sabe por que eu amo a Teologia do Corpo? Porque nós somos Adão e Eva. É sobre nós.

Por isso, a nossa solidão pode ser boa. Ela ajuda-nos a apreciar a dádiva dos outros em nossas vidas. Mais importante ainda, nos ajuda a entrar em contato com a nossa necessidade de Deus. Mas isso é só no caso de usarmos essa solidão. Se nós corremos dela ou se chafurdamos nela, não há nenhum benefício.

Como é que podemos usá-la? Acho que eu encontrei a resposta à pergunta nos escritos de Gabrielle Bossis. Ela era uma mulher francesa rica - uma mulher solteira - que na década de 1930 começou a ouvir locuções que acreditou que fossem de Cristo. Aquelas locuções são registradas em um livro chamado He and I (Ele e eu). Que você acredite ou não que essas mensagens foram realmente de Cristo, as mensagens nele contidas são assombrosamente belas. Por exemplo, na solidão, Cristo diz:

Você faz tudo - trabalho, oração, reflexão, conversa - como se eu estivesse lá, e eu realmente estou lá. Não acha isso infinitamente maravilhoso? Quando você acorda, eu estou lá. Quando descansa, estou lá. Então você pode dizer: "Ele nunca me deixa sozinha." Isto é o que torna a sua solidão divina. (p. 96)

Veja no que tudo isso se resume: Temos de estar sozinhos, a fim de perceber que não estamos sozinhos. Quando vivemos em estado de graça, Cristo está presente para nós. Ele não está lá no alto do céu ouvindo nossas orações em uma espécie de rádio dupla via. Ele está bem aqui, ao nosso lado. Ele vive cada momento de nossas vidas com a gente - amando-nos, cuidando de nós. E Ele quer que a gente O reconheça, O ame, fale com Ele e partilhe com Ele.

É fácil ver a solidão como uma maldição. Eu sei faço isso. Queremos fugir disso. Fazemos muito trabalho, assistimos televisão - qualquer coisa para fugir de nós próprios e da nossa solidão. Mas estou aprendendo que talvez eu precise aprender a fazer de outra forma - a correr para a solidão.

Porque às vezes Deus esconde Seus melhores presentes em lugares inesperados.


Original em Real Love

*algo como as xícaras de Dixie.