Quinta-feira, Julho 02, 2009

Religião, Revelação, pseudo-religião

vida

Alguns trechos do sexto bate-papo do escritor Yuri Vieira com o filósofo e jornalista Olavo de Carvalho sobre religiões, revelação, transcendência, seitas, sociedades secretas, formação do feudalismo. Os grifos são meus.

Este bate-papo é interessante para pensar em alguns dicursos insanos de gente que não conhece nada sobre o assunto, mas que ainda assim não deixa de opinar à vontade! E suas opiniões são sempre baseadas em idéias de gente desonesta, mal-intencionada, confusa, iludida ou até mesmo psicótica.



Yuri: você faz uma diferenciação entre religiões e seitas usando o critério da revelação, não é?

Olavo: se você quiser distinguir o que é uma religião, tomando o conceito de religião no sentido mais elástico e já não muito exato, ainda assim você pode distinguir do que é uma pseudo-religião, uma falsificação, porque uma religião tem um conjunto de elementos sem os quais não perfaz, ou seja, as religiões são origens de civilizações, se você não tem ali elementos suficientes para sustentar uma civilização inteira, não é uma religião de maneira alguma.

(...) a humanidade no seu conjunto, não é impossível que ela se equivoque, mas é muito improvável. Agora que ela se equivoque e que só um fulaninho depois de milênios apareça e diga ‘eu sou o primeirão a saber a verdade’, bastaria isso acontecer para que toda a estrutura da realidade imediatamente fosse uma loucura.

Yuri: então não se pode falar de uma religião evolutiva?

Olavo: pode e não pode. Por exemplo, o cristianismo na sua essência não pode evoluir porque está completo na vida, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, aí está todo o cristianismo. Mas enquanto doutrina ele não só pode evoluir como ele evolui porque as sucessivas interpretações vão melhorando. Às vezes elas pioram também, mas de um modo geral se obtém mais clareza a respeito do que seria a expressão doutrinal da revelação originária.

Yuri: por que que a Igreja não aceita um Swedenborg, por exemplo?

Olavo: é difícil você aceitar ou rejeitar o Swedenborg, porque a obra dele é imensa, abrange uma sucessão de visões que ele teve do céu e do inferno e que não dá pra dizer nem que sim, nem que não, pode ser até aceito como uma revelação pessoal, mas como doutrina é quase impossível.

Yuri: a Bíblia está fechada, ela não aceita mais nenhuma atualização?

Olavo: a Bíblia não vai ter acréscimo, nem tem porque ter.

Yuri: então a Bíblia nunca poderia ter um livro do Swedenborg nela.

Olavo: mas isso não teria nem pé nem cabeça, porque a última “atualização” da Bíblia foram os relatos diretos da vida do Cristo, tirados ou de testemunhos diretos ou de primeira geração e ali acabou.

Yuri: para os judeus foi uma aberração juntar o Antigo ao Novo Testamento.

Olavo: mas preste atenção, o NT não é uma revelação [no sentido de conteudo ditado, revelado], é o que aconteceu, é a vida de Jesus. Então o AT e o NT não se colocam no mesmo plano, não são espécies do mesmo gênero. Por exemplo, quando Moisés desce do Monte Sinai com os Dez Mandamentos ele vem com conteúdo revelado. Moisés não é revelado, é um ser humano natural. Aquelas palavras é que são reveladas, são ditadas a ele como lei. Não existe nada disso no Cristianismo. O Cristianismo é uma série de acontecimentos e eles são propriamente uma revelação (...) no caso da vida do Nosso Senhor Jesus Cristo e vida dele inteira é revelação.

Yuri: então discutir religião é uma coisa extremamente complicada, não?

Olavo: dá pra discutir religião sim, mas toda discussão tem que ser com base no conhecimento dos fatos, com os dados da experiência. Como as pessoas não tem isso, então elas pegam palavras e imantam essas palavras com um poder mágico e discutem em torno das palavras. No Brasil isso aí é a única coisa que as pessoas sabem fazer. Elas acham que pensar é isto: é você formar uma frase, depois você falar outras frases que confirmam a mesma frase. Quando você “expreme” a frase para saber a que fato da ordem concreta aquilo corresponde, você vê que é impossível.

Yuri: na verdade é uma discussão formal...


Olavo: não, é uma discussão verbal. São palavras e as palavras provocam reações emocionais imediatas sem passar pela representação da realidade. Isso aí é o modo brasileiro de pensar, se é que isso é pensar. Isso para mim não é pensar é somente falar. O brasileiro, além de ser analfabeto, tem pouco domínio da linguagem, então quando ele consegue formar uma frase, aquilo deu tanto trabalho para ele, ele se sente tão vitorioso porque conseguiu formar a frase, que ele acredita nela. Acredita que ela [a frase] é a realidade pelo simples fato de que ele conseguiu dizê-la, conseguiu formulá-la. E a formulação da frase é o ato mágico pelo qual o sujeito acha que apreendeu a realidade. Então veja, o aprendizado da linguagem vem antes do conhecimento da vida. Um garoto de quatorze anos tem que ter mais ou menos o domínio da língua, tem que ser capaz de falar. Mas ele não tem o conhecimento dos fatos, isso aí ele demora mais trinta, quarenta, cinquenta anos para ele adquirir. Como no Brasil todo mundo é obrigado a tomar posição já na adolescência, então o sujeito tem uma série de opiniões que são construídas em torno de reações emocionais à palavra. É claro que isso pode acontecer em qualquer parte do mundo, mas como no Brasil não tem, no Brasil só existe isso. Toda discussão pública no Brasil é discussão em torno de palavras imantadas de valores emocionais. É discussão de maluco, está totalmente fora da realidade sempre.


0 comentários: