segunda-feira, outubro 19, 2009

Monges copistas




Cópias a preço de ouro

Abaixo, uma carta de Gerbert d'Aurillac para o abade de Saint-Julien-de-Tours.

"Tendo considerado que a ciência moral e a ciência da língua não são separadas da filosofia, sempre misturei estudos de bem viver, e estudos de bem falar (...) para me preparar, jamais cessei de constituir uma biblioteca. E mesmo que recentemente em Roma, e em outras regiões da Itália, na Alemanha e também na Bélgica, eu tenha resgatado copistas e cópias de obras a preço de ouro, graças à ajuda benévola, e à solicitude dos meus amigos nessas províncias, do mesmo modo deixe-me vos pedir que seja assim no vosso mosteiro, e por vosso intermediário. No final das cartas nós vos indicaremos o que queremos copiar. Segundo vossas instruções, nós enviaremos o pergaminho para os copistas, e os fundos que serão necessários, sem esquecer não mais de vos indicar a nossa benevolência." (Extrato da carta 44.)

Um trabalho para a alma

O texto abaixo do scriptorium de Saint-Martin-de-Tours busca orientar o trabalho dos copistas.

"Que tomem lugar os que escrevem as palavras da lei santa, assim como os ensinamentos dos santos padres. Que eles não se permitam misturar suas tagarelices frívolas, com medo de que essa frivolidade não induza sua mão ao erro.

Que consigam textos corrigidos com cuidado, a fim de que a pena do pássaro siga certa pelo seu caminho. Que distingam as nuances dos sentidos das palavras, por membros e incisos, e que coloquem cada ponto em seu lugar, a fim de que o leitor não leia coisas falsas, ou talvez permaneça repentinamente interditado na igreja diante dos seus irmãos na religião.

De resto, deve-se fazer obra valiosa, e copiar os livros santos, e o escriba não será privado da sua própria recompensa. Mais do que cavar a videira, é bom copiar livros: lá se trabalha para a venda, aqui, para a alma. Do novo e do antigo, todo mestre poderá produzir em abundância, se ele ler os ensinamentos dos santos padres." (Alain, "Poème no 94".)

Um manuscrito no centro de mistério

O cotidiano dos copistas medievais é o cenário que o escritor italiano Umberto Eco escolheu para seu romance O nome da rosa (Difel), que viria a se transformar em filme de sucesso. A ação se passa num mosteiro em algum lugar no norte da Itália, no qual há uma imensa biblioteca com obras profanas e sagradas. E o enredo fala de uma série de crimes que, como se vê pelo desenrolar da história, estão de alguma forma ligados a esses livros. A reconstituição é perfeita e até o nome scriptorium é utilizado, embora as legendas do filme usem a palavra "escritório", que, apesar de ter derivado da primeira, não traduz o sentido específico, qual seja, o local onde trabalhavam os copistas.


Fonte: História Viva