sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Os Bailes e Outros Divertimentos Permitidos, Mas Perigosos

Por São Francisco de Sales



As danças e os bailes são coisas de si inofensivas; mas os costumes de nossos dias tão afeitos estão ao mal, por diversas circunstâncias, que a alma corre grandes perigos nestes divertimentos. Dança-se à noite e nas trevas, que as melhores iluminações não conseguem dissipar de todo, e quão fácil que debaixo do manto da escuridão se façam tantas coisas perigosas num divertimento como este, que é tão propício ao mal. Fica-se aí alta hora da noite, perdendo-se a manha seguinte e conseguintemente o serviço de Deus.

Numa palavra, é uma loucura fazer da noite dia e do dia noite, e trocar os exercícios de piedade por vãos prazeres. Todo baile está cheio de vaidade e emulação e a vaidade é uma disposição muito favorável às paixões desregradas e aos amores perigosos e desonestos, que são as conseqüências ordinárias dessas reuniões. Referindo-me aos bailes, Filotéia, digo-te o mesmo que os médicos dizem dos cogumelos, afirmando que os melhores não prestam para nada.

Se tens que comer cogumelos, vejas que estejam bem preparados e não comas muito, por que, por melhor preparados que estejam, tornam-se, todavia, um verdadeiro veneno, se são ingeridos em grande quantidade. Se em alguma ocasião, não podendo te escusar, fores coagida a ir ao baile, presta ao menos atenção que a dança seja honesta e regrada em todas as circunstâncias pela boa intenção, pela modéstia, pela dignidade e decência, e dança o menos possível, para que teu coração não se apegue a essas coisas. Os cogumelos, segundo Plínio, como são porosos e esponjosos, se impregnam facilmente de tudo quanto lhes está ao redor, até mesmo do veneno de uma serpente que por perto deles se arraste. Do mesmo modo, essas reuniões à noite arrastam para seu meio ordinariamente todos os vícios e pecados que vão alastrando pela cidade, os ciúmes, as pedanterias, as brigas, os amores loucos; e, como o aparato, a influência e a liberdade, que reinam nestas festas, agitam a imaginação, excitam os sentidos e abrem o coração a toda sorte de prazeres, caso a serpente murmure aos ouvidos uma palavra indecente ou aduladora, caso se seja surpreendido por algum olhar dum basilisco, os corações estarão inteiramente abertos e predispostos a receber o veneno. Ó Filotéia, esses divertimentos ridículos são de ordinário perigosos.

Dissipam o espírito de devoção, enfraquecem as forças da vontade, esfriam os ardores da caridade e suscitam na alma milhares de más disposições. Por estas razões nunca se deve freqüentá-los, e, no caso de necessidade, só com grandes precauções. Diz-se que, depois de comer cogumelos, é preciso beber um gole do melhor vinho existente; e eu digo que, depois de assistir a estas reuniões, convém muito refletir sobre certas verdades santas e compenetrantes para precaver e dissipar as tentadoras impressões que o vão prazer possa ter deixado no espírito. Eis aqui algumas que muito te aconselho:

1. Naquelas mesmas horas que passaste no baile, muitas almas se queimavam no inferno por pecados cometidos na dança ou por suas más conseqüências.
2. Muitos religiosos e pessoas piedosas, nessa mesma hora estavam diante de Deus, cantando seus louvores e contemplando a sua bondade; na verdade, o seu tempo foi muito mais empregado que o teu !...
3. Enquanto dançavas, muitas pessoas se debatiam em cruel agonia, milhares de homens e mulheres sofriam dores atrocíssimas em suas casas ou nos hospitais. Ah ! eles não tiveram um instante de repouso e tu não tiveste a menor compaixão deles; não pensas tu agora que um dia hás de gemer como eles, enquanto outros dançarão?!...
4. Nosso Senhor, a SS. Virgem, os santos e os anjos te estavam vendo no baile. Ah! Quanto os desgostaste nessas horas, estando o teu coração todo ocupado com um divertimento fútil e tão ridículo!
5. Ah! Enquanto lá estavas, o tempo se foi passando e a morte se foi aproximando de ti; considera que ela te chame para a terrível passagem do tempo para a eternidade e para uma eternidade de gozos ou de sofrimentos.

Eis aí as considerações que te queria sugerir; Deus te inspirará outras mais fortes e salutares, se tiveres santo temor a ele.



Os Bailes e Outros Divertimentos Permitidos, Mas Perigosos - Capítulo XXXIII do livro Filotéia, de 
São Francisco de Sales (1567-1622).

vida

6 comentários:

  1. As cristotecas, além de profanarem o santo nome em uma festa, são festas como as sinceramente profanas.

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  2. Abdicar dos bailes... Uma das coisas mais difíceis pra mim! Sempre fui muito chegada em bailes, festas, baladas, e no próprio carnaval. Passei muitos e muitos carnavais frustrada e com raiva porque minha mãe não me deixava sair de casa pra aproveitar um baile. Briguei muitas e muitas vezes com um ex-namorado com quem passei vários anos porque ele ficava "pegando no meu pé" enquanto eu queria dançar em festas de casamento, formaturas e outras assim, ou porque não me deixava aproveitar como eu gostava shows ao ar livre. Quanta ingenuidade, né? Eu estava sendo livrada do pecado, e ainda estava reclamando!!! Porém, aos poucos os meus olhos vão se abrindo, e quando estou nessas ocasiões já coeço a enxergar coisas tão absurdas que antes eu via coom tão naturais! E vou me contendo cada vez mais, e melhor ainda, vou aos pouquinhos aprendendo a gostar de me conter. Neste último carnaval passei dias de descanso e de estudo (estudando para um concurso) maravilhosos, na segunda-feira fizemos uma festinha muito simples e inocente com os pacientes do local em que eu trabalho (um abrigo para pessoas com deficiências físicas e mentais), e quando chegou a quarta-feira eu cheguei a comentar com o meu noivo que tinha passado o melhor carnaval da minha vida. Por quê? Porque eu não tinha ido a nenhuma festa cheia de abusos e pecados, e também não tinha ficado me corroendo por raiva e frustração por não poder ter estado lá. Estava tranquila e alegre, de uma alegria verdadeira.

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  3. Ótimo, Thais! Se os bailes fosse sempre inocentes, não é? Bom, as danças nos bailes jovens como aconteciam antigamente, com adultos por perto, não deixavam espaço para coisas impróprias. E as danças não eram essas coisas horríveis que vemos hoje, esses funks, bregas e outras coisas mais.

    Mas como diz o santo, mesmo os divertimentos permitidos devem ser levados com cautela. Pois somos criaturas decaídas e a nossa tendência para o pecado faz muitos estragos. Daí o cuidado que devemos ter.

    A Paz!

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  4. Guilherme, perfeito comentário! :)

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  5. Estou voltando ,Andrea. Beijos e uma otima semana.

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  6. Ótima semana também, DO!

    Fique com Deus!

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