segunda-feira, abril 26, 2010

O que Aquino nunca disse sobre as mulheres

Por Michael Nolan
Traduzido por Andrea Patrícia




Se a primeira vítima de guerra é verdade mal recebida, a primeira ferramenta do descontente é a mentira bem-vinda. Tais mentiras agrupam-se livremente ao redor de Tomás de Aquino. Aqui eu quero empregar duas freqüentemente encontradas na literatura feminista: que ele reivindica que as mulheres são machos defeituosos e que ele reivindica que o embrião humano masculino recebe uma alma racional mais cedo que a fêmea. Aquino não faz a segunda reivindicação em nenhuma parte, e para a primeira, não só faz ele não afirma isto, como nega nada menos que seis vezes.

Pode se desejar saber por que ele deveria achar necessário negar que a mulher é defeituosa. A resposta está em Aristóteles que, na sua consideração sobre reprodução, escreve que a fêmea é como se fosse um macho defeituoso. Como um teólogo Católico, Aquino acredita que Deus produziu a primeira mulher pessoalmente. Ela não pode ser então defeituosa. Ainda o nome de Aristóteles pela Idade Média evocava todo o respeito que o de Einstein evoca hoje em dia. O que ele disse sobre a fêmea ou qualquer outra coisa seria levado muito seriamente nas universidades medievais. Aquino tenta fixar o dito de Aristóteles em seu contexto e mostrar então diplomaticamente que tem uma aplicação estritamente limitada e que isso não implica que as mulheres são defeituosas.

A teoria de reprodução de Aristóteles identifica o sêmen corretamente como a substância reprodutiva masculina. Mas ele não sabia sobre a existência do óvulo que teve que esperar as pesquisas de William Harvey, um inglês do décimo - sétimo século que também descobriu a circulação do sangue. Aristóteles pensa que a substância reprodutiva feminina é uma fração muito pura do sangue menstrual. Ambas as substâncias, ele diz, são produzidas pelo corpo em um processo de concentração que requer calor. A substância masculina, o sêmen, está mais concentrada que a substância feminina. Aristóteles conclui que o macho possui mais calor do que a fêmea. A fêmea, de acordo com isso, está relativamente com falta de calor e este é o significado da declaração que a fêmea é um macho defeituoso. É, como pode ser visto, uma declaração muito limitada e não tem mais nenhuma significação geral que a afirmação de que às mulheres falta o poder muscular dos homens.

Porém, Aristóteles tem mais para dizer. Ele pensa que o sêmen masculino busca dominar a substância reprodutiva feminina e que isto causa a geração de uma criança masculina. Mas às vezes - manifestadamente em uns cinquenta por cento de ocasiões - o próprio sêmen é dominado, seja porque é fraco, seja porque a substância feminina resiste à sua ação, ou por alguma outra razão. Então uma criança feminina nasce. Em outra palavra, a criança feminina não é o que o sêmen masculino pretende e surge de algum fracasso na ação do sêmen.

Para ser justo com Aristóteles, deve-se adicionar que para ele este fracasso está embutido na natureza, tanto para as fêmeas quanto para os machos animais é requerido que se reproduzam e continuem as espécies. A fêmea não é verdadeiramente defeituosa, mas só como se fosse defeituosa.

A frase de Aristóteles “a mulher é como se fosse um macho defeituoso” veio para os escolásticos na tradução “femina est mas occasionatus”. Occasionatus é uma palavra não encontrada no latim clássico. Os escolásticos usam-na para falar sobre algo causado intencionalmente ou acidentalmente. Agora, os acidentes, em geral, são para o pior tanto quanto são para melhor, estamos falando de um acidente ‘feliz’. A frase, portanto, implica que há algo deficiente no feminino.Aquino, como já foi dito, leva o assunto tão a sério que ele lida com ela nada menos do que seis vezes. O tratamento principal é na sua Summa Theologiae (1, 92, 1). O problema surge quando ele está lidando com a criação do mundo. Ele pergunta se Deus deveria ter criado a mulher no começo do mundo. Embora a resposta manifesta a isto seja Sim, Aquino, no entanto, levanta algumas objeções a esta resposta. A primeira objeção é que Aristóteles afirmou que a mulher é um macho não “intencional” (occasionatus), e o que é involuntário está com defeito. Daqui resulta que a mulher é defeituosa. Ora, Deus não deveria ter feito alguma coisa com defeito, no início do mundo e, conseqüentemente, ele não deveria ter feito a mulher.

Aquino responde a objeção da seguinte forma. A mulher não pode ser planejada pelo sêmen masculino, mas certamente é planejada pela natureza. E já que Deus é o autor da natureza, a fêmea é planejada por Deus. Sendo planejada, não é defeituosa. Então Deus com razão fez a mulher no começo do mundo.

No que diz respeito à natureza da mulher ser algo com defeito e occasionatum, a força ativa do esperma masculino tem a intenção de produzir uma imagem perfeita de si mesmo no sexo masculino, mas se uma mulher deve ser gerada, isto é por causa de uma fraqueza da força ativa, ou por causa de alguma indisposição do material, ou mesmo por causa de uma transmutação [trazida] por uma influência externa... Mas, com respeito à natureza universal do feminino não é algo occasionatum, mas é por intenção da natureza ordenada para o trabalho de geração. Agora, a intenção da natureza universal depende de Deus, que é o autor universal da natureza. Assim, ao instituir a natureza, Deus produziu não só o masculino, mas também o feminino.

A passagem requer algum comentário. A frase “com relação à natureza particular da mulher é algo com defeito” pode sugerir aos ouvidos não habituados ao idioma escolástico que a natureza especial da mulher é defeituosa. Mas “natureza particular” significa o poder ou força de uma coisa particular, e aqui a natureza particular é o poder do esperma masculino. Não pode haver dúvida sobre este ponto, pois em sua Summa Contra Gentiles (3, 94) Tomás de Aquino afirma explicitamente que a natureza especial é o poder no sêmen.

A frase que diz que a fêmea é “pela intenção da natureza ordenada ao trabalho da geração” não deve ser tomada para significar que o homem não é então ordenado. Aquino defende explicitamente no mesmo artigo que tanto a mulher e quanto o homem têm coisas mais importantes a fazer do que procriar. Sua tarefa principal é conhecer e compreender o mundo em que vivem. Na verdade a razão pela qual os sexos são distintos é precisamente para que os indivíduos possam explorar o mundo à sua maneira. Pode-se notar o significado que Aquino dá a declaração do Gênesis que a primeira mulher foi formada do lado do primeiro homem. A mulher, diz ele, (Summa 1, 92, 3) não foi formada da cabeça do homem, porque ela não deve dominá-lo. Nem ela foi formada a partir de seus pés, para que ela não deve ser desprezada pelo homem, como se ela estivesse sujeita a ele como um servo. Em vez disso, ela foi feita a partir do seu lado, de modo a significar que o homem e a mulher devem ser unidos como aliados (socialis coniunctio).

A atribuição equivocada de que Aquino opina que o embrião masculino recebe uma alma racional, mais cedo do que a fêmea também surge de um comentário sobre Aristóteles. Aquino cita (na 3 sent., 3, 5, 2, co et ad 3) uma passagem do “História dos animais”, de Aristóteles, que diz que se um embrião é abortado, a articulação do macho pode ser percebida em quarenta dias, a da fêmea, após noventa dias. Ele cita a passagem, porque ele pretende argumentar que o corpo de Cristo foi completo em todos os detalhes, mesmo que pequenos, desde o momento da concepção, que os embriões restantes são apenas gradualmente articulados. Nem na declaração original de Aristóteles, nem no comentário de Tomás de Aquino sobre ele há qualquer referência à infusão da alma. Há mais de cinqüenta passagens em outras partes de Aquino, onde faz referência à infusão da alma racional. Em nenhuma dessas passagens ele faz qualquer distinção entre homens e mulheres.

No fim das contas então, aqueles que procuram por provas de que o Cristianismo via a mulher como defeituosa com relação ao homem terá que procurar em outro lugar, mas não em Tomás de Aquino.


MICHAEL NOLAN is Professor Emeritus in the Maurice Kennedy Research Center at University College, Dublin.

Original
aqui.