sexta-feira, maio 14, 2010

Perseverança Final e Oração

Por Santo Afonso de Ligório
vida
Algumas vezes em tentações mais fortes, a graça suficiente que Deus não nega a ninguém poderia bastar para resistirmos ao pecado. Mas devido às nossas más tendências, ela não nos bastará; necessitamos então de uma graça especial. Quem reza alcança esta graça; quem não reza, não a consegue e se perde.

Tratando-se particularmente da graça da perseverança final, isto é, de morrer na amizade de Deus, o que é absolutamente necessário para a nossa salvação, do contrário estaremos para sempre perdidos, esta graça Deus não a dá senão a quem pede (84). Este é um dos motivos porque muitos não se salvam, pois são poucos os que cuidam de pedir a Deus a graça da perseverança final.


Rezar Sempre

Resumindo a oração é necessária não só por necessidade de preceito (nota), mas ainda por necessidade de meio. Isto quer dizer: quem não reza, é impossível que se salve. A razão é que não podemos alcançar a salvação sem o auxílio da graça de Deus e Deus só dá esta graça a quem lhe pede. Sendo contínuas as tentações e os perigos de perdermos a amizade de Deus contínuas também devem ser as nossas orações. Por isso escreveu Santo Tomás: “A oração contínua é necessária ao homem” para entrar o céu.(85). No momento que deixarmos de nos recomendar a Deus, o demônio nos vencerá (86).

Embora a graça da perseverança final não possa ser merecida por nós, como ensina o Concílio de Trento, contudo pode-se merecê-la de certo modo com a oração (87). O Senhor quer nos dar suas graças, mas quer que as peçamos; quer até mesmo ser importunado e como que constrangido com nossas orações, como escreve S. Gregório (88). Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi que quando pedimos as graças a Deus, Ele não só nos atende, mas de certo modo nos agradece (89). Sim, porque sendo Deus a bondade infinita, deseja comunicar-se com as pessoas tendo, por assim dizer, um desejo enorme de distribuir-lhe seus bens; mas Ele quer que peçamos. Por isso quando uma pessoa lhe pede, é tanto o seu prazer que de certa forma se vê obrigada a agradecer.

Portanto, se queremos permanecer na amizade de Deus até a morte, precisamos sempre nos fazer mendigos e ter a boca aberta para pedir a Deus que nos ajude, repetindo sempre:

- “Meu Jesus, misericórdia! Não permitais que eu me separe de vós. Meu Deus, ajudai-me, socorrei-me!”

A oração freqüente dos antigos monges do deserto era: “Senhor, atendei às minhas preces, vinde depressa em meu auxílio” (90). Senhor, ajudai-me depressa, porque se demorardes, eu cairei na desgraça e me perderei.

É preciso fazer assim principalmente nos momentos de tentações. Quem não faz assim, está perdido!

Confiança na oração

Tenhamos grande fé na oração; Deus prometeu atender aquele que lhe pede: “Pedi e recebereis”. Porque vamos duvidar, se o Senhor se obrigou com sua promessa e Ele não pode faltar à promessa de nos conceder a graça que lhe pedimos? (92) Quando recorremos a Deus tenhamos plena confiança de que Deus nos atenderá e alcançaremos aquilo que queremos. “Tudo o que pedirdes na oração, crede que o recebereis, e ser-vos-á dado”.

Mas alguém poderá dizer:
- Sou um pecador, não mereço ser ouvido
- Mas Jesus é que disse: “todo aquele que pede recebe”, seja justo ou pecador. Ensina Santo Tomás que a força da oração para obtermos a graça, não vem dos nossos méritos mas da misericórdia de Deus que prometeu ouvir aquele que lhe pede. Nosso Salvador para nos tirar todo o receio quando rezamos, nos diz: “Em verdade, em verdade vos digo, o que pedirdes ao Pai, em meu nome, ele vo-lo dará”. É como se dissesse: Pecadores, não tendes merecimentos para ganhar as graças. Fazei assim, quando desejardes as graças: pedi ao meu Pai em meu nome, isto é, pelos meus merecimentos e pelo meu amor; pedi quanto quiserdes e vos será dado.

Notemos a expressão “em meu nome”, isto em, em nome do Salvador. Por isso tudo que pedimos deve ser graças referentes à nossa salvação; é bom reparar que a promessa não se refere a bens temporais. Os bens temporais quando são úteis à salvação eterna, ele nos concede mas quando não são, ele nos nega. Pedindo bens temporais lembremo-nos de pedi-los com a condição de que sejam úteis à nossa alma. Quando são graças espirituais então não existem condições, mas confiança e confiança infalível. Podemos dizer “Pai Eterno em nome de Jesus Cristo livrai-me desta tentação e dai-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor, dai-me o céu”. Todas essas graças podemos pedi-las a Jesus Cristo em seu nome, isto é, pelos seus méritos, pois aqui existe a promessa de Jesus: “Tudo que pedirdes a meu Pai em meu nome, eu o farei”.

Quando rezamos a Deus não nos esqueçamos de nos recomendar à dispensadora das graças, Maria. Deus é quem dá as graças, mas é pelas mãos de Maria que ele as dá. Como diz São Bernardo: “Busquemos as graças e busquemo-las por meio de Maria, porque o que ela procura para nós sempre acha; nada lhe pode ser recusado”. Se Maria pede também por nós, estamos seguros, porque as orações de Maria são todas ouvidas e nunca rejeitadas.


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(84) Santo Agostinho, De dono perseverantiae, c. 16, n. 39. ML 45-1017.
(85) Sto. Tomás de Aquino, Sum. Theol. 3, q. 39, a. 5, c
(86) Lc 18, 1; Ts 5,17
(87) Concílio de Trento, Sess. 6, c. 13 – Sto. Agostinho, De dono perseverantiae, 1. 6, c. 10. ML 45-999
(88) S. Gregório, Ps. paenitentialis Os CIX), n. 2. ML 79-633

(Santo Afonso de Ligório. A Prática do Amor a Jesus Cristo. 18 ed. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1996. pg. 111)