quarta-feira, junho 23, 2010

O barulho reflete a confusão das almas



Neste domingo eu fui assistir ao jogo da Copa do Mundo na casa de parentes. Bom, eu prefiro ficar quieta em casa, mas enfim, eu terminei indo com meu esposo.

Não era somente a família, havia também vizinhos e amigos deles. Todos muito animados (até demais para o meu gosto), caracterizados de verde e amarelo e (in)devidamente munidos de suas agora inseparáveis vuvuzelas. Ai que barulho infernal! Como é que essa selvageria caiu assim no gosto popular? Ah, mas se eu começar a falar de gosto popular moderno... isso aqui não acaba mais e de post vai virar testamento de tão grande. Mas continuemos.

O interessante é que metade das pessoas lá simplesmente não assistia ao jogo! Elas ficavam rindo, brincando, cantando, tirando fotos, soprando aquelas malditas buzinas, enfim, azucrinando a vida dos que queriam somente assistir a partida de futebol. Eu percebi que estas pessoas parecem muito torcedoras, parecem acreditar no time, mas na realidade o que elas querem é apenas um motivo para festejar. Eu, que hoje em dia não me importo com futebol e que assisto aos jogos mais para fazer companhia ao meu esposo, curti muito mais a partida, acompanhei mesmo sem entender bem do que se trata tudo aquilo, aproveitei o espetáculo, enfim. E os torcedores vuvuzélicos somente pararam para olhar mesmo para a tevê quando começaram as brigas em campo. Interessante isso! Um deles até comentou algo assim apontando para o grupo que estava quieto: “na verdade somente aquele pessoal ali está assistindo ao jogo”.

É interessante e ao mesmo tempo triste notar como o mundo de hoje está ficando cada vez mais bárbaro. O barulho é ensurdecedor, as pessoas querem emoções fortes. Parece que estamos voltando mesmo à selvageria. Digo isso porque vi coisas tão feias e desagradáveis nestes dias de Copa, inclusive nesta reunião na casa de parentes, que fico mesmo pensando quanto tempo mais isso tudo vai durar. Não quero detalhar o que vi, mas posso colocar que notei com muita clareza o estado de alma da maioria de nós hoje em dia: dissipação, imoralidade, intemperança.

Qualquer acontecimento é motivo para colocar para fora as baixezas do vício. As pessoas não se contêm mais diante das outras. Tudo é permitido hoje: todas as piadas de mau gosto, todos os comentários obscenos, todas as roupas imodestas. Mas o que podemos esperar de gente que se compraz em ouvir funk carioca ou pagode de quinta categoria? E o barulho martelador da techno-music? E a zoada infernal do metal? Viver tendo como trilha sonora a música popular atual* não pode mesmo gerar bons frutos, não favorece o surgimento de santos. Pois é tanta maldade, tanto vício, tanta falta de castidade, tanta intemperança, que vibra na maior parte dessas composições, que no fim das contas as pessoas vão expor tudo isso de alguma forma. Acostumadas com o barulho dos tambores e guitarras ensurdecedoras, as pessoas agora armam-se com vuvuzelas para melhor torturar os que querem um pouquinho de paz.

O que estou começando a perceber é que há várias coisas que antes eu não julgava que fossem barulhentas, mas que hoje eu percebo como incomodam, como agridem. Não é somente a música. É também o comportamento, a arquitetura, as artes plásticas, as conversas, as roupas.

O toque ensurdecedor das vuvuzelas é somente mais um sintoma da doença que atacou o homem moderno. Creio realmente que o barulho reflete a confusão das almas.


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*Eu gosto de muita música que na realidade é barulhenta (mesmo que não pareça, pois estamos muito mal acostumados e é com dificuldade que percebemos tais coisas), mas aos poucos vou percebendo o mal que isso causa – a agitação da alma, a falta de concentração - e estou passando a ouvir músicas mais calmas e de boa qualidade como as barrocas e boa parte das clássicas. Com pouco tempo de audição dessas músicas eruditas (estou há alguns meses ouvindo somente esse tipo de composição) eu tenho percebido que a música pop atual é uma chatice, uma cacofonia e uma pobreza de dar dó. Gosto de várias canções populares do passado, mas estou sem ouvi-las para fazer a experiência da música erudita. Ainda estou lendo e meditando sobre o assunto, mas tenho percebido que há vantagens em ouvir uma música bem feita como a de Bach, por exemplo.