quarta-feira, junho 30, 2010

A TV Nunca Irá Envenenar a Mente das Minhas Crianças

Por Roger Scruton
Traduzido por Andrea Patrícia


Para meu espanto o Governo Australiano saiu em protesto contra a televisão. O relatório reconhecidamente se limita ao efeito sobre as pequenas crianças, e assume a forma de orientações não-exigentes: o relatório afirma que nenhuma criança com idade de dois anos deve ser permitida a ver tevê.


Mas nenhuma parte da população é mais dedicada ao televisor do que os políticos, que competem entre si por um lugar na tela, e eu fiquei aflito por ouvir a verdade sobre este ubíquo veneno de alguém com o poder de controlá-lo. Os governos que tomam uma posição contra televisão são tão improváveis quanto os destiladores que se opõem ao uso de álcool ou produtores de laticínios que fazem campanha contra o leite.


Já se sabe há vinte anos ou mais que a televisão induz transtornos mentais, tais como aumento da agressividade, encurtamento da capacidade de tempo de atenção e redução da habilidade de comunicação, e que esses transtornos envolvem um custo social ainda maior do que a obesidade e a letargia que são os efeitos colaterais comuns da TV. Uma investigação por parte dos psicólogos Olgac Csikszentmihalyi e Robert Kubey demonstrou que a televisão também causa dependência, criando percursos de prazer que demandam constante reforço. Como ameaça à saúde pública da nação, é muito superior ao álcool, drogas e tabaco, e a preocupação é que pode ser demasiado tarde para fazer alguma coisa, uma vez que o vício é quase universal.


É uma constante presença tremeluzente que concorre pela atenção com todas as movimentações do cotidiano.


Ainda pior do que o efeito da televisão em adultos é seu efeito sobre as crianças pequenas. O cérebro humano não está completamente desenvolvido no nascimento e prossegue com os primeiros anos de crescimento, em moldes que dependem de uma constante exploração do meio ambiente. Esta característica do nosso desenvolvimento é única na nossa espécie e está no cerne do que é ser humano. Muitas das ligações vitais para uma vida realizada - notadamente as que envolvem uma compreensão social - não existem no momento do nascimento, e chegam ao ser a partir de como o cérebro se desenvolve nos primeiros cinco anos.


Cérebros sujeitos a entradas erradas nos primeiros anos de idade serão incorretamente conectados; capacidades vitais, tanto intelectuais quanto emocionais, estarão condenadas ao fracasso e não serão adquiridas, e o resultado será um ser humano atrofiado. Se você não acredita nisso, basta perguntar como os senhores poderiam explicar o súbito aparecimento na era da televisão de tantos jovens que são inarticulados, de pavio curto e incapazes de formar relações sociais duradouras ou cordiais.


Esta síndrome--que testemunhamos em toda a parte, na sala de aula e em nossas ruas--é exatamente o que neurologistas prevêem. Quando as crianças são entretidas por uma tela tremeluzente a partir da mais tenra idade e nunca incentivadas a explorar o mundo real, não irão desenvolver a capacidade de se comunicar com outros seres humanos, ou de lidar com as pressões dos encontros reais. Eles irão pegar o caminho mais curto, que não é o caminho da comunicação, mas da agressão.


Como qualquer meio de comunicação, a televisão tem as suas utilizações. Existem importantes programas educacionais, em que imagens comunicam o que não pode ser transmitido em qualquer outra forma. Existem clássicos da TV e formas de entretenimento inocentes apropriadas para a telinha. Um programa de televisão sério deve ser tratado como um livro, ou uma visita ao teatro--para ser absorvido no estado de espírito crítico.


Mas não é assim que a televisão é utilizada. É uma constante presença tremeluzente que compete com todas as movimentações do cotidiano pela nossa atenção. Ao longo dos anos, com o seu impacto extinto, recorreu a cores cada vez mais vulgares, sempre uma linguagem mais grosseira e cada vez mais closes faciais hipnotizantes. Quando o televisor está ligado, e em um terço dos lares australianos, aparentemente, nunca está desligado, a conversa é impossível, e as habilidades de conversação não podem se desenvolver. Além disso, mesmo a melhor e mais afetuosa observação perderá o seu sabor quando ouvida em frente às clamorosas vulgaridades emitidas pela tela.


Tudo o que era óbvio muito antes a investigação psicológica confirmou. Devo dizer que essa investigação não é uma surpresa para mim. Na minha infância a televisão foi um luxo raro; as transmissões começavam às 18h e eram constantemente interrompidas por falhas técnicas. Meu pai tomou uma atitude firme de princípios a esta intrusa que sua madrasta tinha contrabandeado para dentro do lar, e era a de desligá-la sempre que passasse pela sala de estar. Poucos anos antes de ele finalmente despachá-lo com um martelo, o televisor nunca ganhou uma posição que permitisse competir com livros e música. Assim eu cresci fora da cultura que a televisão tem gerado.


E é por isso que não existe uma televisão em Scrutopia* hoje. Naturalmente, os nossos filhos têm uma visão da coisa de vez em quando, ao visitarem amigos e vizinhos. E eles ganharam uma competência suficiente da maioria das besteiras faladas para poder acompanhar as conversas um pouco limitadas de quem assiste isso. Quando a nós, no entanto, prosseguem os hábitos antiquados, como falar, ler, andar e tocar piano. Não me surpreende que eles tenham perdido todo o desejo de uma televisão para eles mesmos e estão bem satisfeitos, quando se trata da tela, em olhar para DVDs no computador, selecionados e censurados por seus pais.

Pode ser que eles estejam perdendo algo. Mas as coisas boas que temos, parece-me, superam em muito as coisas boas que lhes faltam. O triste é que tão poucos pais parecem concordar comigo.

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Roger Scruton é um filósofo, escritor e compositor inglês.


Artigo original aqui.



*uma brincadeira com o nome dele – Scruton - e a palavra utopia.