segunda-feira, julho 12, 2010

O País das Fadas




O país das fadas não é outra coisa senão o ensolarado país do senso comum. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra.



Quando nos perguntam por que os ovos se transformam em pássaros ou os frutos caem no outono, devemos responder exatamente como a fada-madrinha responderia se Cinderela perguntasse por que é que os ratos se transformaram em cavalos ou os seus vestidos cairiam à meia-noite. Devemos responder que é MAGIA. Não é uma "lei", porque não compreendemos a sua fórmula geral. Não é uma necessidade, porque embora possamos esperar que isso aconteça de fato, não temos o direito de afirmar que deve acontecer sempre.



Todos os termos usados nos livros de ciência, "lei", "necessidade", "ordem", "tendência" e outros semelhantes, são de fato inintelectuais, porque pressupõem uma síntese interior que não possuímos. As únicas palavras que ainda me satisfazem ao descrever a Natureza são os termos usados nos livros de fadas, "mágica", "feitiço", "encanto". Elas expressam a arbitrariedade do fato e o seu mistério. Uma árvore frutifica porque é uma árvore MÁGICA. A água corre morro abaixo porque está enfeitiçada. O Sol brilha porque está enfeitiçado.



Somente os contos de fadas são ainda capazes de despertar em nós o quase inato sobressalto de interesse e espanto. Esses contos dizem-nos que as maçãs são douradas somente para reavivar o esquecido momento em que nós descobrimos que elas eram verdes. E põem vinho a correr pelos rios somente para nos fazer lembrar, por um fulgurante momento, que é água o que corre por eles. Eu disse que isto é completamente razoável e até agnóstico. E sou realmente, neste ponto, pelo mais alto agnosticismo; o seu melhor nome é Ignorância.

Vivemos todos sob a mesma calamidade mental; nós todos esquecemos nossos nomes. Nós todos esquecemos o que realmente somos. Tudo aquilo que chamamos senso comum e racionalidade e praticabilidade e positivismo significa apenas que em algumas zonas adormecidas de nossa vida já nos esquecemos que nos esquecemos. Tudo aquilo que chamamos espírito e arte e êxtase significa apenas que por um formidável instante lembramos que nos esquecemos.



Num conto de fadas há uma incompreensível felicidade que depende de uma incompreensível condição. Uma caixa é aberta, e todos os males saem voando. Uma palavra é esquecida, e cidades desaparecem. Uma lâmpada é acesa, e o amor voa para longe. Uma flor é arrancada, e vidas humanas perecem. Uma maçã é comida, e esvai-se a esperança em Deus.



Eu sentia e sinto que a própria vida é brilhante como o diamante, e quebradiça como uma vidraça; e quando o céu era comparado a um terrível cristal, posso lembrar-me de um sobressalto. Eu tinha medo de que Deus derrubasse o cosmos com um estrondo.


____________________

Trechos de "A Ética do País da Fadas", de Chesterton.