segunda-feira, agosto 23, 2010

O Beber Virtuoso e o Vicioso

Por Roger Scruton
Traduzido por Andrea Patrícia




As preocupações atuais sobre o “binge drinking” - pelo qual se entende o hábito de beber grandes quantidades de álcool com a intenção de ficar bêbado sem o benefício de melhorar a conversa - puseram em relevo a grande diferença entre o beber virtuoso e vicioso.

Nossa herança puritana, que vê o prazer como a porta de entrada para o vício, torna difícil para muitas pessoas entender essa diferença. Se a embriaguez é causada pelo álcool, eles pensam, então a única questão moral diz respeito a se se deve beber, e em caso afirmativo quanto.

No entanto, o que Aristóteles disse sobre a raiva é igualmente aplicável ao consumo de álcool. Não é correto evitar a ira absolutamente: é preciso adquirir o hábito correto - em outras palavras, educar a nós mesmos a sentir a quantidade certa de ira pela pessoa certa, no momento certo e pelo período certo de tempo. O mesmo vale para beber. Não é apenas a quantidade certa que é importante, mas o contexto certo, a companhia certa, e a bebida certa.

Utilizado corretamente, o álcool é um estímulo para a conversa, um solvente para o constrangimento e um lembrete de que a vida é uma bênção, e as outras pessoas também. Existe uma linha fina entre o estado benevolente e perspicaz da mente e o sentimentalismo falso no qual bebedores incautos caem tão facilmente. E o antigo provérbio in vino veritas é tão falso para a embriaguez quanto é válido para os primeiros movimentos nesse sentido. Declarações bêbadas de paixão são infectadas por uma falsidade perigosa, e são fruto do beber vicioso.

Aqui, então, está a minha receita para um beber virtuoso. Primeiro cercar-se dos amigos. Então servir algo que é intrinsecamente interessante: um vinho com raízes em um “terroir”, que chega a você de algum lugar preferido, que convida à discussão e exploração, e que desvia a atenção de suas próprias sensações e concede-o em vez do mundo. Partilhe cada memória, cada imagem e cada idéia com a companhia; esforce-se por um afeto sincero e descontraído, e mais que tudo, pense nos outros e esqueça de si mesmo.

Infelizmente, tais ocasiões necessitam de organização. A questão urgente, portanto, é como beber virtuosamente enquanto se está sozinho. Um conselho foi dado pelo grande poeta chinês Li Po (701-762)*:


Um copo de vinho, debaixo das árvores floridas;
Eu bebo sozinho, nenhum amigo está por perto.
Levantando meu copo eu aceno para a lua brilhante,
Ela, com a minha sombra, fazem três homens.

A lua brilha agora através da minha janela escura, e eu levanto um copo de Mâcon Solutré - que tem a branca simplicidade engomada do luar em si – para a minha sombra no chão.


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*Tradução livre. O poema em inglês diz “He”, para a lua. Enquanto em língua portuguesa o substantivo lua é considerado feminino.