terça-feira, julho 19, 2011

São João da Cruz e Santa Teresa avisam sobre o perigo do "repouso no espírito"

São João da Cruz ensina:

“Ora, importa saber que, não obstante poderem ser obras de Deus os efeitos extraordinários que se produzem nos sentidos corporais, é necessário que as almas não queiram admitir nem ter segurança neles; antes é preciso fugir inteiramente de tais coisas, sem querer examinar se são boas ou más. Porque quanto mais exteriores e corporais, menos certo é que são de Deus. Com efeito, é mais próprio de Deus comunicar-se ao espírito, e nisto há para a alma mais segurança e lucro, do que ao sentido, fonte de freqüentes erros e numerosos perigos. O sentido corporal, nessas circunstâncias, faz-se juiz e apreciador das graças espirituais julgando-as tais como sente. No entanto, há tanta diferença entre a sensibilidade e a razão como entre o corpo e a alma, e na realidade, o sentido corporal é tão ignorante das coisas espirituais como um jumento o é das coisas racionais, e mais ainda.” (JOÃO DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 2. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 217)

Quem estima esses efeitos extraordinários erra muito, e corre grande perigo de ser enganado, ou, ao menos, terá em si total obstáculo para ir ao que é espiritual. Como já dissemos, os objetos corporais nenhuma proporção tem com os espirituais, por isso, deve-se sempre pensar que, nos primeiros, mais se encontra a ação do mau espírito em lugar da ação divina. O demônio, possuindo mais domínio sobre as coisas corporais e exteriores, pode com maior facilidade nos enganar neste ponto, do que nas interiores e espirituais.” (JOÃO DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 3. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 217)

As impressões sensíveis são de natureza a produzir erro, presunção e vaidade; porque sendo tão palpáveis e materiais, movem muito os sentidos. A alma levada por essas impressões sensíveis, dá-lhe grande importância, abandonando a luz da fé para seguir essa falsa luz que então parece a seus olhos o meio para levá-la ao objetivo de suas aspirações, isto é, a união divina; entretanto, quanto mais se interessar por estas coisas, mais se afastará do caminho e se privará do meio por excelência que é a fé. A alma, além disso, vendo-se favorecida por graças tão extraordinárias, muitas vezes concebe secretamente boa opinião de si, imaginando já valer, algo diante de Deus, o que é contrário à humildade. Por outro lado, o demônio sabe sugerir-lhe oculta satisfação de si mesma, por vezes bem manifesta. Com este fim propõe-lhe frequentemente objetos sobrenaturais aos sentidos, oferecendo à vista imagens e maravilhosos resplendores; aos ouvidos, palavras misteriosas; ao olfato, perfumes muito suaves; ao paladar, delicadas doçuras, e ao tato sensações deleitosas, para que atraída a alma com estes gostos, possa ele causar-lhe muitos males.” (JOÃO DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 4-5. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 218)

“Tudo o que se experimenta, sensivelmente, muito prejudica a fé, a qual ultrapassa todo o sentido.” (JOÃO DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 7. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 219)

Querendo admitir esses favores de Deus, a alma abre porta ao demônio para enganá-la como outros semelhantes, pois, como disse o Apóstolo, pode o inimigo transformar-se em anjo de luz (2Cor 11,14) e sabe muito bem dissimular e disfarçar as suas sugestões com aparências de boas.” (JOÃO DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 7. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 220)

“Assim tem acontecido a muitas pessoas incautas e ignorantes: julgavam-se tão seguras nessas comunicações, que grandemente lhes custou a volta a Deus na pureza da fé.” (JOÃO DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 7. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 220)

“Torno a dizer: a alma presa às graças sensíveis permanece ignorante e grosseira na vida da fé.” (JOÃO DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro II, capítulo XI, 7. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 223)

“A virtude não consiste nas apreensões e sentimentos de Deus, por sublimes que sejam, nem em nada de semelhante que se possa experimentar interiormente. Ao contrário, a virtude está no que não se sente, isto é, em humildade profunda e grande desprezo de si mesmo.” (JOÃO DA CRUZ. Subida ao Monte Carmelo. Livro III, capítulo IX, 3. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 345)



Santa Teresa ensina:

"É evidente que a absoluta perfeição não consiste nas alegrias interiores, nem nos grandes êxtases, visões, nem no espírito da profecia. Consiste em tornar nossa vontade de tal modo conforme a de Deus, que abracemos dels todo o coração o que cremos querido por ele e que aceitemos com a mesma alegria o que é amargo e o que é doce, desde que compreendamos que Sua Majestade o quer" (TERESA DE JESUS. Fundações, cap. 5, n.10)

“alma nada tem a ganhar com estes desfalecimentos do corpo...Aconselho, pois, às prioresas, que condenem esses longos desmaios” (Les Études Carméllitaines, p. 38, Ed. Desclée de Brouwer, Paris)