quinta-feira, setembro 01, 2011

Limpeza e beleza nas cidades medievais


"De fato ao passo que as cidades medievais tinham perdido a solidez das estradas antigas e tinham se tornado simplesmente "o lugar por onde se passa", as cidades, a partir do século XII, se preocuparam com a limpeza, foram cada vez mais pavimentadas, regulamentaram a eliminação do lixo e das águas usadas, ornaram-se de monumentos que não tinham apenas a finalidade de impor a imagem do poder dos poderosos, mas que obedeciam também a objetivos de beleza. Na Idade Média, a cidade é um dos principais domínios onde se forjou a idéia de beleza, uma beleza moderna, diferente da beleza antiga que desaparecera maisou menos no declínio da estética. Umberto Eco mostrou bem essa emergência de uma beleza medieval incarnada nos monumentos e teorizada pela escolástica urbana."  (Le Goff, Jacques. As Raízes Medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2007)

"Os regulamentos de higiene e urbanismo multiplicam-se nas cidades a partir do século XII. (...) O senso crescente de ordem e de limpeza, visível no espaço urbano, estranho ao campo, faz progredir o urbanismo.(...) Creio que a conversão ao urbanismo se dá no século XII, não apenas para fazer desaparecer as contrariedades materiais (...) mas ainda sob a influência da arte gótica nascente e do pensamento escolástico em desenvolvimento. Na França, é no século XII, período em que o abade de Saint-Denis, Suger, administra o reino para Luís VI e Luís VII e consagra a arte gótica na construção da nova igreja da abadia de Saint-Denis. A inovação é notável e se propagará em uase toda rede de igrejas do campo. Do mesmo modo que na Itália, o campanário de Veneza é imitado ao longe, nos campos do Vêneto e da Lombardia. A arte gótica e a escolástica das novas escolas urbanas estabelecem, como norma de urbanismo, ordem e luz, matemática e razão, cor e verticalidade. Depois do urbanismo das praças principescas do Antigo Regime, a cidade neoclássica, depois a cidade haussmaniana e, hoje a arquitetura moderna das grandes obras retomarão, da cidade medieval, esta inspiração inovadora." (Le Goff, Jacques. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998)

"Em que sentido a cidade é sinônimo de sociabilidade, embora tenha se tornado hoje sinônimo de individualismo e de anonimato? A Idade Média opõe a cidade, lugar de civilização, ao campo, lugar de rusticidade. E, num mesmo movimento, afirma sua altivez num desejo de construir em direção ao céu, uma verticalidade expressa pelas torres medievais de San Gimignano, na Itália, como nas de Manhattan, hoje. A Idade Média criou a beleza artística urbana, dando origem a um novo urbanismo." (Le Goff, Jacques. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998)


Trechos transcritos por mim a partir de originais disponibilizados pelo blog Adversus Haereses.