quinta-feira, março 22, 2012

O Dom de Línguas

Por John Vennari
Traduzido por Andrea Patrícia


No 30º Aniversário da Conferência Carismática, encontrei-me ao lado de uma mulher que estava entrando na "oração de línguas", encorajada pelo Mestre de Cerimônias. Ela estava "rezando" com as mãos levantadas, juntamente com corpo mexendo suavemente. Seu estilo de "línguas" era um murmúrio indistinguível colocado numa melodia improvisada. Quando eu apontei minha mão para o gravador micro-cassete em sua direção, ela imediatamente intensificou o volume de sua "língua melódica" e avançou para mais perto do gravador. Esta mulher tinha adivinhado que eu estava procurando um show, e ela estava determinada a dar-me um.

Línguas na Escritura

A Sagrada Escritura parece contar duas classificações diferentes do dom de línguas. A primeira é aquele dom especial registrado nos Atos, no dia de Pentecostes, onde os Apóstolos pregavam em sua própria língua e as pessoas de muitas terras diferentes ouviam em seu discurso nativo. Seria como se o Cardeal Stickler na Assembléia Geral das Nações Unidas com todos os participantes de várias nações entendessem suas palavras sem o auxílio de um intérprete. Muito poucos santos foram favorecidos com esse dom, mais notadamente São Francisco Xavier e São Vicente Ferrer.

A outra manifestação de línguas parece ser o que está registrado na carta de São Paulo aos Coríntios. Para dar uma definição precisa, a fim de neutralizar o moderno Pentecostalismo, a Catholic Biblical Encyclopedia [Enciclopédia Bíblica Católica] emprega uma linguagem cuidadosa para definir esse dom:

"O dom de línguas é um carisma que consiste em um enunciado, um discurso inteligível (1 Cor.14, 9. 19) que pode ser interpretado com a ajuda de um outro dom especial (14,5. 13. 27F) ou pelo próprio locutor ou por outra pessoa na plateia" (1).  As "línguas" dos pentecostais de hoje não têm qualquer semelhança com qualquer um destes dois dons.

Entusiasmo

Mons. Ronald Knox foi um dos mais eminentes Clérigos Católicos na Inglaterra na primeira metade deste século, e era conhecido do Bispo Fulton Sheen e amigo do escritor Evelyn Waugh. Seu livro Enthusiam, que levou trinta anos para escrever, é incomparável em documentar a história do "ultra-sobrenaturalismo" na Igreja. Ele cobre peculiaridades tais como a Igreja de Corinto, a heresia Moroviana, John Wesley, os Quakers, Shakers e meu favorito pessoal, os convulsionários de Saint-Médard. A manifestação de "línguas", como é praticada hoje, é tratada em um dos capítulos finais, intitulado "As Excentricidades do Entusiasmo Moderno”.


No Capítulo Dois, no subtítulo intitulado "Cobiça Sobre os Dons do Espírito", Knox menciona que houve algumas manifestações de línguas no tempo de São Paulo em Corinto. Estas línguas teriam de ser de acordo com o que a Enciclopédia Bíblica Católica definiu acima.


Knox diz que São Paulo poderia tentar verificar tais atividades, pois ele escreveu que, "era o freio, e não o estímulo que era necessário no primeiro século em Corinto". Knox ainda comentou que "não foi até o século II que tais manifestações cresceram extraordinariamente, e eram vistas com desconfiança por aqueles que têm autoridade" (2). O desaparecimento do dom de línguas ocorreu no início da história da Igreja. Padre Rumble da Radio Replies [Respostas de Rádio] explica: "Sob o controle da autoridade eclesiástica a palha foi peneirada a partir do trigo, e logo se viu que o Espírito Santo não tinha intenção de continuar nos dons milagrosos da Igreja ordenados apenas para as necessidades prementes dos estágios iniciais, e tais fenômenos anormais rapidamente se tornaram uma coisa do passado, pelo menos, como uma característica regular do cristianismo. Tanto era assim que quando Montano afirmou estar restaurando-os no meio do segundo século, ele foi ao mesmo tempo marcado como um inovador, um impostor e um herege" (3). Por volta do século IV, podemos ter a certeza de que tais atividades desapareceram. Agostinho escreveu: "Quem em nossos dias espera que aqueles a quem fazem imposição das mãos para que eles possam receber o Espírito Santo deve adiante falar em línguas ... Estes eram sinais adaptados à época. Pois convinha que houvessem predições do Espírito em todas as línguas para mostrar que o Evangelho de Deus era para ser realizado através de todas as línguas sobre a terra. Mas aquele tipo de coisa foi feita para a profecia, e já passou" (4). No século XIII, quando Santo Tomás de Aquino escreveu sua magnífica Summa Theologica, o Doutor Angélico simplesmente tratou o dom de línguas como "o conhecimento divino de uma variedade de idiomas”.


Os apóstolos tinham esse dom e foram capazes de falar as línguas de todas as pessoas a quem foram enviados...falando em um idioma, eles eram compreendidos por todos" (5).  Santo Tomás, com seu vasto conhecimento sobre os Padres da Igreja teria mencionado uma outra manifestação de línguas se isso tivesse continuado na história da Igreja.

Glossolalia

A maioria dos escritores sustenta que a glossolalia (falar em línguas) parecia que voltava a aparecer na seita protestante fundada por Charles Parham em Topeka, Kansas, por volta de 1901. Mons. Ronald Knox, no entanto, fala de um ressurgimento anterior na congregação Presbiteriana de Edward Irving em 1830. Ele escreve: "a glossolalia começou na congregação de Irving, e em pouco tempo, para escândalo de muitos, mas para seu próprio deleite, seus sermões foram interrompidos por profetas que se levantaram e proferiam sua mensagem, por vezes, inteligível, por vezes com o uso de línguas"(6). Sobre esse fenômeno, Knox comenta: "EU NÃO NEGARIA A EXISTÊNCIA DA GLOSSOLALIA DURANTE TODO O PERÍODO DE DISPUTA. FALAR EM LÍNGUAS AS QUAIS VOCÊ NUNCA APRENDEU FOI, E É, UM SINTOMA RECONHECIDO EM CASO DE ALEGADA POSSESSÃO DIABÓLICA. O QUE NÃO APARECE É QUE ISSO JAMAIS FOI REIVINDICADO, PELO MENOS EM GRANDE ESCALA, COMO UM SINTOMA DE INSPIRAÇÃO DIVINA, ATÉ O FINAL DO SÉCULO XVII" (7).


Knox observa que essa glossolalia está "além do alcance de qualquer léxico", e ironicamente comenta: "temos de admitir que uma criança tagarela não menos convincentemente" (8). Knox também explica que tal glossolalia não possui nenhum uso. Ele escreve: "O dom de línguas, quando assim for entendido, perde seu valor probatório de mensagem; ninguém que esteja presente, num mero espírito inquiridor, vai ficar impressionado com a visão de uma A linguagem sem nexo e B dizendo que tal linguagem sem nexo significa isso e aquilo" (9). No entanto, essa "linguagem sem nexo" é precisamente a forma de "línguas" praticada pelos carismáticos atuais.

Em resumo:

1) O Pentecostalismo pratica "línguas" que não tem qualquer semelhança com o que aparece nos Atos dos Apóstolos.


2) O Pentecostalismo pratica "línguas" que não tem qualquer semelhança com o que a Enciclopédia Bíblica Católica cuidadosamente define como "um discurso articulado e inteligível...".


3) O Pentecostalismo pratica "línguas" descritas por Mons. Knox como "linguagem sem nexo".


4) Apesar de tudo isto, os pentecostais insistem que essas "línguas" são uma verdadeira manifestação do Espírito Santo, e ignoram completamente o lembrete gentil do Mons. Knox que "falar em línguas nunca aprendidas... é um sintoma reconhecido em alegados casos de possessão diabólica".

Que as mulheres estejam caladas?

Finalizando, deve-se notar que nesse 30º Aniversário da Conferência Carismática, não havia escassez de mulheres no microfone "profetizando", dando palestras, conduzindo as orações na Missa, liderando a congregação em uma erupção de indistinguíveis "línguas", levando a sessão de oração barulhenta no sábado. É óbvio que esses carismáticos, que constantemente justificam sua existência, citando a Epístola de São Paulo aos Coríntios, alegremente ignoram a passagem do mesmo livro de Coríntios que comanda: "Que as mulheres estejam caladas nas igrejas".


Original aqui

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Notas de rodapé:

1) Steinmueller e Sullivan, Catholic Biblical Encyclopedia,(Joseph Wagner, Inc., New York, 1949) p.635-636.
2) Ver Ronald A. Knox, Enthusiasm, (Oxford University Press, New York & Oxford) p 21-24.
3) Rev. Dr. L. Rumble, M.S.C. "Assemblies of God," and other "Pentecostal Churches" p. 25
4) Cf.. William J. Whalen, Minority Religions in America (Alba House, Staten Island, 1971) p.179
5) Citação tirada de Mons. Paul Glenn, A Tour of the Summa, p. 296. [Para a citação completa de Santo Tomás de Aquino, consulte Summa Theologica, IIa, IIae, Q.176 artigo 1]
6) Enthusiasm, p. 552
7) Ibid. p. 551
8) Ibid. p. 553
9) Ibid. p. 554
10) 1 Coríntios 14,34

Os artigos acima nesta página foram retirados de: Catholic Family News M.P.O. Box 743 Niagara Falls, NY 14302. Catholic Family News é publicado mensalmente - 12 edições por ano.