quinta-feira, junho 21, 2012

Televisão: A Alma em Risco - parte I

Por Isabelle Doré
Traduzido por Andrea Patricia


Este é o primeiro artigo de uma série sobre a televisão*. Foi publicado originalmente como livro pela editora francesa Clovis. O prefácio e a introdução abaixo são da versão original.

Há poucos anos atrás o superior de uma congregação religiosa encontrou-se com muitos padres do instituto, todos envolvidos com educação de garotos. Tendo observado um invariável declínio no calibre moral e intelectual da juventude, ele pediu a cada um dos padres presentes no encontro para fazer investigações para que pudessem responder confidencialmente às questões seguintes: Qual a principal coisa com a qual os garotos estão sofrendo? E qual é a causa? Depois de uma investigação diligentemente e seriamente conduzida, os padres estavam prontos para dar a resposta. Eles estavam tão surpresos quanto o seu superior ao descobrir que chegaram perfeitamente às mesmas conclusões. Eles responderam unanimemente: os garotos sofrem de fraqueza do intelecto e da vontade; a principal causa dessa deficiência é a frequencia da mídia audiovisual na vida dos garotos. Com a internet e os videogames, a televisão está no centro de um sistema que os prende fortemente, anos após ano. É salutar expor um mal e Isabele Doré intenciona fazer isso.

Entre outras qualidades seu livro possui três qualidades particulares que vale a pena mencionar. Ele examina a ameaça feita pela televisão, a partir do ângulo psicológico mais instrutivo, dos perigos infligidos a nossas faculdades espirituais através da tela. O livro coloca uma abundância de exemplos, quase nunca emprestados de outros autores. Por ultimo, ele alia breve e com simplicidade que a Sra. Doré é mãe de uma grande família. Alguns leitores, talvez perplexos pelos julgamentos categóricos da autora, podem pensar: na casa da autora existe televisão? Se sim, como ela aconselha os outros a não ter uma? Se não, como ela pode conjurar uma realidade tão distante da sua experiência cotidiana? Seus filhos se tornaram talvez estranhos e marginalizados no seu mundo? Deixe-me responder, acalmá-lo e encorajá-lo. Em resposta a essas perguntas antecipadas, nós podemos garantir ao leitor que Isabelle Doré não tem uma TV em casa. No entanto, por uma série de circunstâncias que nós devemos deixar de lado, ela está na posição de saber como as coisas estão com a realidade da televisão. A propósito, os filhos da autora são – tanto quanto posso dizer - sadios de corpo e mente, e, devo acrescentar, amigáveis, cheios de alegria, e, bem educados. Como com todas as crianças, é claro, elas tem suas faltas. Tantas palavras para responder e acalmar.

Como encorajamento, e para ser breve, nós convidamos o leitor a ler esse artigo com o mínimo de preconceito possível. Que você possa examinar, refletir sobre isso, e apreciar isso com a liberdade que uma investigação sincera dá para saber o que deve ser feito ou não deve ser feito. Mais tarde, que você possa tirar as conclusões aplicáveis para você e para os outros. Que você não tenha medo: pegar a estrada alta é também bom para você. Se isso vem como um sacrifício, é apenas para abrir mão de uma sombra por algo que é real. Obrigada Senhora. Possa o bom Deus abençoa-la e dar aos seus leitores luz e força.

–Abade Philippe Toulza

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A Presença da Televisão
Os telespectadores da televisão francesa gastam 3 horas e 26 minutos por dia em frente a TV. O instituto que conduziu o estudo não explicou como esse resultado foi obtido. Há uma média derivada dos espectadores habituais, dos espectadores ocasionais, e dos que não assistem? Se sim, o tempo real gasto pelos espectadores habituais é muito maior. Além disso, estudos a partir de pesquisas mostram que os espectadores de TV subestimam a quantidade de tempo passado em frente à tela. Quando pesquisadores tomam o tempo para adicionar as horas realmente gastas em frente à TV, baseados na duração dos programas ou filmes assistidos, o número de horas é bem maior do que os espectadores estimam.
Duas explicações são possíveis: ou os espectadores de TV não contam o tempo corretamente ou eles têm um pouco de vergonha em admitir a quantidade de tempo que eles realmente gastam e preferem esconder isso.
De acordo com o Mediametrie (1), a quantidade de tempo gasta assistindo TV aumenta anualmente, mesmo pensando que os videogames parecem ter destronado a televisão entre os adolescentes e jovens adultos. De acordo com a estatística de Quebec, a televisão é a atividade principal da família. A expressão é paradoxal, pois isso não envolve uma atividade e o efeito na vida da família é essencialmente nocivo.
Infelizmente é verdade que a televisão regula a vida da maioria das famílias ocidentais: eles acordam, comem, jantam numa mesinha tipo bandeja vendida numa promoção de uma grande loja, põem as crianças para dormir, ou fazem planos dependendo da programação dos programas da TV.
A televisão também impõe seu ritmo às organizações, cidades e igrejas: as pessoas não vão a um evento se um programa sendo televisionado é mais atrativo. Quando o horário da Missa é modificado, as pessoas reclamam porque elas vão perder o futebol de domingo ou outro programa qualquer. Outras estatísticas contam que o guia da televisão é a única publicação lida pela maioria das famílias.
Em qualquer tipo de conversa sobre qualquer assunto tornou-se lugar comum fazer algum tipo de referência ao audiovisual ou ao que alguém viu na televisão. Se você dá lições de canto às suas crianças, é porque elaes viram certo filme; se seus filhos praticam esportes, é porque eles assistiram a isso na TV.
Acontece com frequência em paróquias que os sermões da Missa Nova começam com um resumo das noticias. [Nesse contexto] fazer uma prece universal consiste em pegar algum evento espetacular da atualidade e adicionar algumas invocações a isso. Costumava haver uma prece universal nas Igrejas Católicas Orientais (e nos ritos Galicanos e Ambrosianos), mas o texto estava fixo no missal e a prece universal era dita no altar, enquanto o padre e os fiéis se voltavam para o Senhor. Como o Mons. Klaus Gamber notou: “Em nossa época estamos testemunhando as mais rudes digressões na livre elaboração dessa prece. Até mesmo as fórmulas apresentadas aos fiéis em coleções ad hoc são escassamente usáveis” (2).
Como os espectadores habituais avaliam a televisão? Algumas vezes positivamente, tanto que em algumas conversas você vai ouvir algumas vezes comentários favoráveis: é uma tremenda ferramenta cultural, é uma abertura para o “mundo real”, você pode aprender bastante, você pode ficar ciente da miséria espalhada pelo mundo, ajuda a passar o tempo, é relaxante após um longo dia de trabalho, ou me ajuda a sonhar acordado.
O Pe. Marcel Jousse, o bardo da civilização oral, imitação e memorização, disse: “Uma civilização baseada nas coisas, mimodramática de amanhã será acordada pelo uso educativo e universal da televisão” (3).  Já passou o tempo de admitir o óbvio: a TV não ajudou a acordar uma civilização “baseada nas coisas” e mimodramática. Ela a tem destruído.
Por outro lado, os espectadores de TV expressam algumas criticas sobre a televisão: Eu fico abobalhado em frente à televisão após o trabalho, você se torna passivo, as crianças pensam apenas em TV – nada mais as interessa, não há mais vida em família, as crianças fazem seu trabalho sem cuidado, não há nada belo, ou você vê muita violência.
Cedo ou tarde, todos nós temos que fazer escolhas: televisão em casa ou não? Uso moderado ou não? Tolerância relutante ou oposição com todas as forças? A melhor coisa é fazer uma escolha que considere todos os aspectos da televisão e da mídia audiovisual em geral. Filmes, vídeos, e DVDs possuem pontos em comum bem como diferenças com relação a TV. As diferenças basicamente residem na quantidade, e algumas vezes, no conteúdo.
Muitos espectadores de televisão justificam seu uso por razões educacionais: “é para saber o que está se passando no mundo, para ficar informado, para estar ciente do que está acontecendo, para que as crianças possam participar de debates na escola”.
Na realidade, na prática diária, a televisão se torna rapidamente outra coisa do que um meio para se estar informado. Dessa consideração procedem as duas questões principais examinadas nesse estudo: 1) Como a televisão afeta a capacidade do intelecto para apreender a verdade? 2) Como a televisão afeta a capacidade de amar aquilo que é bom?

Traduzido de La Télévision, ou le péril de l’esprit (copyright Clovis, 2009)

Notas:
(1)   Uma organização independente francesa especializada em fazer medições sobre a audiência da mídia de massa. Essa organização atende a produtores que desejam avaliar o desempenho de seus programas.
(2)   La réforme liturgique en question (Ed. Sainte-Madeleine, 1992).
(3)   Marcel Jousse (1886-1961) foi o Filho único de uma mãe iletrada que sabia o Evangelho de domingo de cor e ensinava a ele através do canto. Ele sempre admirou a rústica sociedade iletrada da sua infância na qual os homens recebiam a transmitiam seu conhecimento através da observação, imitação, e memorização.
(4)   Tentando provar a autenticidade dos Evangelhos explicando aquilo, nas sociedades orais, os homens costumavam memorizar literalmente o que eles tinham ouvido. Isso pressupunha certas condições: um certo formalismo da parte do orador e uma atividade da parte do ouvinte – uma comunhão da palavra.

Original aqui.

Veja todas as partes:
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Notas da tradutora:
{a) Mimodramatic no texto em inglês. Vem de “mimodrama” que significa um drama apresentado por meio de mímica.
*Esta série de artigos foi publicada na revista Angelus, mas apenas seis partes estão disponíveis gratuitamente online. Infelizmente não consegui a sétima parte, mas ainda assim vale muito a pena acompanhar a série!