quinta-feira, julho 12, 2012

Televisão: A Alma em Risco - parte IV

Por Isabelle Doré
Traduzido por Andrea Patrícia


Os efeitos da televisão sobre a Mente
I. Viver com mentiras
Na maioria das vezes, as mentiras são aceitas: o poder das imagens, o prestígio da mídia, e a autoridade de rostos familiares na tela, habilmente dispostos, dão mais poder às mentiras do que a própria realidade ou uma autoridade local tem. Por exemplo, um pároco pregou sobre a existência do diabo após uma transmissão amplamente vista na qual um teólogo explicou que o diabo não existe. Algumas pessoas lhe agradeceram [ao padre] por reafirmar a verdade, mas, no geral, seus paroquianos o denunciaram ao seu superior e sobrecarregaram-no com censuras.
Achamos que é muito difícil lutar contra a desinformação sobre o Sudário de Turim, sobre o Papa Pio XII, e outros temas caros ao coração dos Católicos, mas isso é especialmente verdadeiro quando se trata de pessoas que recebem a maioria de suas informações a partir dos meios de comunicação. Entre um bom livro sobre Pio XII e um relatório depreciativo da estação de TV local, é o programa de TV que gruda na mente das pessoas.
"Viver não por mentiras" era o lema de Solzhenitsyn. Para evitar respirar o clima de mentiras, é melhor viver longe da mídia, caso contrário é quase uma certeza deixar-se seduzir. Em seu livro The Hidden Persuaders, o sociólogo americano Vance Packard explica que, incontestavelmente, é a televisão que desempenha o papel preponderante na manipulação das mentes.
Novas técnicas de persuasão aparecem, algumas são baseadas em pesquisa psico-fisiológica. Como podemos ter certeza de escapar da influência dessas técnicas ocultas de persuasão? Nós temos uma propensão a acreditar no que queremos, e todos nós podemos nos deixar ser arrastados para uma mentira reconfortante e sedutora. A televisão não é o único meio em questão. O perigo também existe em outros lugares, mas a televisão é o meio mais ativo de persuasão.
II. A confusão entre real e irreal
De tempos em tempos, os jornais referem exemplos dramáticos de telespectadores que desejaram imitar os seus heróis favoritos. Um adolescente matou horrivelmente sua namorada depois de assistir O Massacre da Serra Elétrica. Crianças se deitam na estrada, imaginando que os carros vão passar por elas sem feri-las. Outros pulam de janelas como o Super-Homem ou Batman. Depois de assistir Imensidão Azul, adolescentes se afogaram em suas banheiras depois de tentar experimentar prender a respiração como os mergulhadores do filme.
Um educador envolvido com crianças assassinas explicou que sua principal tarefa era ensiná-las a viver no mundo real, estabelecer a relação de causa e efeito entre ações e suas consequências. As crianças já não vivem no mundo real: elas acham que é bom matar, bater, e se livrar de pessoas como nos filmes, fazer desaparecer as pessoas é a mesma coisa que desligar a TV (cf. Marie Winn, The Plug-in Drug).
Certamente, esses casos dramáticos envolvem crianças vulneráveis, neuróticas, mas a confusão entre o real e o irreal pode afetar pessoas normais, equilibradas - menos espetacularmente, talvez -, mas talvez não de forma menos dramática.
Para avaliar a confusão entre o possível real e irreal de ver as fontes audiovisuais, o Massachusetts Institute of Technology mostrou aos visitantes clipes de filme e pediu-lhes para indicar o que eles pensaram que estavam vendo, cenas dramatizadas ou eventos reais. Eles mostraram cenas de homens realmente morrendo na guerra ou acidentes, e outras cenas ficcionais de atores representando pessoas morrendo. Os visitantes entenderam sistematicamente tudo errado: as mortes reais, pouco espetaculares, pareciam ficção para eles, e as mortes fictícias, tão bem encenadas, pareciam reais.
Os óculos coloridos da TV
Assim, podemos concluir que os telespectadores não necessariamente distinguem entre o mundo real e a ficção na tela. Mas será que a dependência desta, esta intrusão da tela na vida diária, também não perturba a sua percepção da realidade? É uma teoria difícil de verificar: não se presta a experiências de laboratório. Pesquisadores às vezes tentam fazer estudos sobre populações diversas; uma coisa que temos observado é que o que é necessário é reeducar as pessoas afetadas na realidade envolvente. Os psicólogos da criança lidam com crianças que têm problemas para se conectar com o mundo real e da aprendizagem; elas não sabem como agir sobre as coisas, como usar seus cinco sentidos, lidar com a linguagem, ser atenciosas com os outros. Elas não sabem muitas das palavras comuns da vida diária: cortar, colar, equilibrar, deslizar...
Não é fácil avaliar os efeitos do audiovisual na nossa percepção da realidade, mas na ausência de uma avaliação sistemática, pode-se muitas vezes fazer suposições ou observações. Quando um espectador de televisão pendura um pôster de seu herói favorito em seu quarto, o que significa isso? Isso significa que ele confunde o ator com o herói de uma história real ou fictícia.
Na década de 1990, a mania do Tamagochi foi um furor entre as famílias "plugadas". Os Tamagochis são animais virtuais configurados em uma tela de cristal líquido, pequena e portátil. O proprietário do aparelho tem de pressionar os botões várias vezes ao dia, quando convocado por um sinal para "alimentar" e "andar" o animal, virtualmente, é claro. Em caso de esquecimento ou negligência, o dispositivo se autodestrói. Esta moda parece ter diminuído por agora. A paixão com os Tamagochis revelou não só um esnobismo absurdo, mas também uma perda notável do senso de realidade, que é provavelmente causada pela frequentação assídua dos mundos do audiovisual e do virtual.
Alguns filmes causam pesadelos e ansiedade aguda (O Planeta dos Macacos, por exemplo), mesmo que a história seja absurda e inacreditável. Por que então nós os vemos? "Gosto dos efeitos especiais" ou "Eu gosto de filmes que me fazem fantasiar", admitem alguns espectadores, mostrando a sua compreensão limitada da realidade. Essas fantasias são sempre inocentes ou inofensivas? Será que, em vez disso, elas não constituem uma recusa da realidade? Será que elas não poderiam ser perigosas para nós e para nosso próximo?
Expectativas distorcidas
Nós todos conhecemos pais e mães que parecem projetar em seus filhos um sonho de conquista, glória, sucesso social ou riqueza. Tal ambição sempre existiu, é claro (ler um livro pode inspirar os mesmos sonhos de sucesso), mas hoje o sonho é sobre coisas não Cristãs: glória, vaidade, riquezas e orgulho. Isso está longe de ser o legítimo desejo de colocar os talentos a serviço do bem. O que é particularmente surpreendente é que o sonho é impossível, mas os pais ou a própria pessoa não parecem perceber isso.
Assim, em nossa região, um número de meninos, incentivados por seus pais, queria um programa especial de estudos de esportes para que eles pudessem se tornar jogadores profissionais de futebol (desde que uma equipe local transferiu-se para uma liga profissional). O sonho rapidamente se desintegrou porque os postulantes não tinham as aptidões necessárias. É bastante sério que os pais fossem incapazes de avaliar verdadeiramente os talentos ou a óbvia falta de talento de seus filhos.
Outra família tem sacrificado dinheiro e honra nos últimos dez anos e tem perigosamente hipotecado o futuro do seu filho na esperança de que ele poderia se tornar um ator famoso, mesmo que esse filho não tenha o talento, o físico, ou as conexões que permitem não apenas atingir a glória, mas mesmo uma vida modesta no campo. Quer se tratem de esportes, de música, cinema, ou escolas de esporte profissional, essas famílias que "fantasiam" (1) tomam a sua inspiração da televisão e parecem incapazes de avaliar a realidade, moralidade, utilidade e possibilidade de seu projeto. Ainda mais surpreendente: essas famílias não hesitam em cometer atos irreparáveis, arruinar ou desonrar-se em busca de uma ilusão.
A influência da televisão parece determinante em todos esses casos que vemos acontecer em nossa vizinhança. Os livros, claro, também podem levar a viver em um mundo imaginário. Dom Quixote é a história de um homem que tinha lido muitos livros sobre cavalaria, mas Dom Quixote estava mentalmente doente. Há também o efeito Werther (2): A epidemia de suicídios que eclodiu na Alemanha após a publicação de Werther foi o resultado de um trabalho literário, o audiovisual não tinha nada a ver com isso. Talvez fosse uma questão de pessoas muito frágeis. De acordo com Goethe (cuja indiferença e crueldade devem ser notadas de passagem): "Certamente você não espera que eu esteja preocupado com meia dúzia de tolos e desprezíveis que eu expurguei da terra". O que é novo sobre a televisão é que todos são afetados por ela, não só os fracos de espírito, bobos e "desprezíveis". Felizmente, a maioria das circunstâncias providenciais de tempo obrigam os pais a renunciar ao seu sonho ou transformá-lo.
Voo da Vida
Considere ainda outro efeito da realidade audiovisual e virtual, igualmente dramática para os espectadores ou o seu ambiente: americanos "sem vida" e os japoneses "hikikomori" ("aqueles que ficam fechados no seu quarto") tornaram-se um fenômeno social: estes são adolescentes ou jovens adultos que abandonam o mundo real para viver em uma realidade virtual, eles dispõem de televisores, consoles de jogos e computadores em seu quarto, se comunicam com o exterior pela Internet, e não trabalham. Eles são, talvez, mais ligados ao computador que à televisão. Sem dúvida, outros fatores contribuem para o seu comportamento viciante: rivalidade social, pressão dos pais para o sucesso acadêmico, insucesso escolar, etc. Pode-se pensar, no entanto, que a televisão abriu o caminho para esses jovens, deficientes na vida, a fugir do real. Como é o caso da violência, a televisão e os computadores podem ser simultaneamente uma causa e efeito da patologia.
Nos Estados Unidos, estes adolescentes e jovens adultos recebem aulas especiais para ensiná-los a se comportar normalmente na vida real com pessoas reais, ensinando-os a olhar as pessoas nos olhos, falar com elas, e se interessar por elas. O mesmo fenômeno parece estar acontecendo na França, afetando tanto a civilidade e as boas maneiras no sentido estrito, mas também no sentido mais amplo.
Famílias podem escapar de pelo menos alguns dos efeitos negativos da televisão, se os adultos se derem ao trabalho de conhecer e criticar o que foi visto. Mas, de acordo com as crianças entrevistadas, isso raramente acontece. A televisão não é uma ocasião para a comunicação entre pais e filhos, nem entre adultos. De fato, pudemos observar que a nossa própria aparição na televisão ocasionou muito poucos reflexos ou conversas com nossos amigos e conhecidos. Foi muitas vezes limitado a "vimos você na televisão". O único resultado verdadeiramente positivo de nossa aparição na transmissão de TV sobre homeschooling, que deveria ser educativa, foi o de ser conferida a nós uma espécie de respeitabilidade no nosso círculo.
(continua)

Traduzido de La Télévision, ou le péril de l’esprit (copyright Clovis, 2009)
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Notas:
1 Etimologicamente, a palavra significa fantasiar, imaginar.
2 Um romance escrito por Goethe.

Original aqui.