quinta-feira, julho 26, 2012

Televisão: A Alma em Risco - parte VI

Por Isabelle Doré
Traduzido por Andrea Patrícia

Em alguns casos, o espectador de TV é tão dependente da televisão que ele fica reduzido a um estado de zumbi: sua vontade, sua capacidade de amar o bem, é aniquilada, como a do milionário americano Howard Hughes (ou seu duplo), falecido em 1974, que passou os últimos quinze anos de sua vida... assistindo televisão! Instalado em suítes de hotel de luxo, rodeado por uma escolta de guardas Mórmons e empregados domésticos que o isolaram do mundo exterior, Hughes passava os dias sozinho em um quarto com as cortinas fechadas, estendido em sua cama o dia todo. Diante dele: uma televisão ligada quinze horas por dia. Ele consumia rapidamente sanduíches ou alimentos enlatados sem tirar os olhos da tela. Ele ainda se recusou a cortar as unhas ou ter seu cabelo cortado. Solitário, meio louco, assim morreu Howard Hughes, consumido pela televisão.
Nem todo telespectador sob a influência da televisão chegou a esse ponto; mesmo se a vontade é bloqueada ou afastada do que é bom, não é completamente assim. Assim como a televisão é um obstáculo entre o real e nós na ordem do conhecimento, é também um obstáculo entre o real e nós, entre o nosso vizinho e nós, entre nós e Deus, na ordem da caridade. O real, Deus, nosso vizinho, são midiatizados. O audiovisual pode incitar ao mal pelo seu conteúdo irreverente ou imoral, como os espetáculos do Renascimento ou no tempo do Império Romano (e denunciados como escândalos por São João Crisóstomo e Bossuet). Mas antes que incite ao pecado ou mal, a televisão paralisa a vontade. Não sabemos se Howard Hughes assistia a espetáculos perniciosos: ele não estava prejudicando a vida de seu próximo, ele não estava cometendo adultério, ele contentou-se em não fazer nada.
O audiovisual é perigoso em primeiro lugar, porque desvia-nos do nosso próximo real em favor de alguma abstração remota. Ele também nos afasta de uma atividade alternativa que pode nos aproximar do bem e do nosso próximo. Definir uma habilidade para alguma coisa, a Igreja recorda-nos, é o primeiro grau da contemplação. Nosso Senhor começou por ser um carpinteiro.

Televisão e a virtude da religião
Por vezes, se ouve uma declaração surpreendente quando os Católicos falam sobre sua fé: "Creio que há algo". Como pode o nosso Deus vivo e verdadeiro, ser reduzido a "algo"? Este é certamente um efeito da televisão, onde Deus, o próximo, o real, perdem a sua consistência para um espectador habitual. Como alguém pode ser devoto - como São Francisco de Sales define - quando se está "viciado" na televisão? São Francisco definiu a devoção como "rapidez e diligência na observância dos mandamentos e da realização de boas obras inspiradas ou aconselhadas".
Pode a inspiração para realizar boas obras vir através da televisão? Não existe uma contradição entre a rapidez e a diligência na observância dos mandamentos e o hábito de relaxar em uma poltrona e seguir programas destinados a nos manter na frente do aparelho? Como um Cristão pode aplicar-se a Deus, enquanto sua alma está sobrecarregada com escândalos, fantasmas, e loucura?
Um missionário para a Índia há alguns anos relatou:
Nos lugares aonde a televisão ainda não chegou, as crianças preservam a pureza de suas almas até a idade de dezoito ou vinte anos. Nas aldeias onde a televisão se espalhou, as almas das crianças são manchadas aos sete ou oito anos de idade. Nas cidades, a publicidade implacável exorta as pessoas a comprar um aparelho para cada quarto para que elas não tenham que depender de ninguém na escolha de seus programas.
No entanto são os puros de coração que verão a Deus.
O que vem a ser fé e prática religiosa entre os telespectadores habituais? Observamos que a fé (como a prática religiosa) é um pouco inconsistente e vaga. A proclamação "eu acredito em algo" como um Credo de alguém é um indicador de falta de fé.
Em um boletim da paróquia diocesana, alguns jovens crismandos foram entrevistados sobre a recepção do sacramento: em nenhum momento eles falaram de Deus, do Espírito Santo, ou dos Seus dons. Eles falavam de encontros e discussões sobre o amor e filmes. Eles contaram sobre os grandes momentos de sua preparação: o encontro com o bispo, o dia da cerimônia, os amigos, os parentes que vieram, eles falam sobre si mesmos e seu orgulho, suas emoções, sua alegria, o banquete após a cerimônia... Eles deixaram completamente de fora Deus, a vida Cristã, o apostolado, e sua vocação de apóstolos.

A Parábola do Semeador
A vida Cristã e a prática religiosa reduzem-se a pouco, pela confissão de Católicos praticantes e de seus sacerdotes. O padre responsável pela nossa área designa Católicos praticantes como "os indivíduos visíveis em nossa comunidade humana e eclesial". Isso significa que a prática religiosa consiste apenas em estar visível na comunidade humana e na igreja.
Tibieza e falsa devoção sempre existiram, mas o que deve ser raro e anormal torna-se comum e normal. Será que a televisão não desempenha um papel nesta recusa da vida Cristã, na dificuldade de estar pronto e diligente na observância dos mandamentos e na realização de boas obras orientadas ou inspiradas? A parábola do Semeador pode nos dar algumas chaves se realmente nos permitirmos; apesar das novidades lançadas desde o Concílio Vaticano II, a Boa Nova ainda está sendo semeada, em certa medida na Igreja de hoje desde que as passagens do Antigo e do Novo Testamento são lidas nas igrejas.
"[A semente] foi pisada e as aves do céu comeram". A Igreja nos ensina que isso designa almas superficiais ou os corações endurecidos que não vai se abrir para o ensino ou a graça. A televisão certamente desempenha um papel de liderança na fabricação de almas superficiais e corações endurecidos, com a sua taxa de programas bobos e cenas horríveis. As pessoas que passam muito tempo na frente do televisor e que raramente vão à igreja (para ocasiões familiares) assemelham-se as almas superficiais e aos corações endurecidos da parábola: elas recebem a semente, mas em vão: o ruído do mundo impede que as boas novas se enraízem.
"E outra caiu sobre a rocha. E logo que brotou, secou": A Igreja nos ensina que esta passagem designa almas apaixonadas, entusiasmadas, generosas que vivem na animação e agitação de sentimentos e emoções. Estas almas podem ser tocadas pela graça, pois elas podem ter sido movidas, elas podem ser atraídas por alguém, mas isso não dura. Elas deixam de ter a vida Cristã, quando chegam a desolação, as provações ou renúncias.
A televisão sustenta essa excitação dos sentimentos e emoções. Ainda encontramos muitos desses Cristãos na Igreja, como os crismandos jovens que falam de suas emoções, seus sentimentos, mas não falam nada sobre o sacramento que faz apóstolos. Nós encontramos, especialmente nos círculos carismáticos, muitos Cristãos que estão à procura de experiências intensas. Mas a vida Cristã não consiste apenas em ter experiências, e todos os autores espirituais concordam que para o avanço na vida espiritual, os momentos de provação e desolação são mais frutíferos. Este grupo de Cristãos vê televisão menos avidamente que o primeiro: seus corações não estão endurecidos, porque não ligam para o espetáculo da violência e do mal, mas a semente brota escassamente.
"E outra caiu entre espinhos. E os espinhos cresceram por cima dela, sufocaram-na": A Igreja nos ensina que os espinhos representam o mundo exterior sufocante: orgulho, vaidade dinheiro. A semente começa a crescer, mas finalmente ela fica sufocada pelo mundo. Estas são as pessoas que têm talentos, mas o mundo vem até elas através da televisão, e seus talentos são desperdiçados. Nós reconhecemos na Igreja tais pessoas entre os "Católicos praticantes envolvidos", os membros de equipes de liderança da paróquia, os "metidos a vigário" (1) que gostam de tomar o lugar do padre, as senhoras que aproveitam todas as oportunidades (leituras, anúncios, músicas) para fazer uma exposição de si mesmas.
Enquanto nossos antepassados ​​costumavam assistir Missa voltados para o Senhor, fazendo suas essas palavras do hino: "Vamos todos apagar-nos aqui, para que Jesus sobre o altar apareça", em muitas igrejas, temos a impressão oposta. Aqueles que assistem à Missa Nova estão voltados para as senhoras que, por sua conduta, pelo menos, parecem quase a proclamar: "Deixe que o Senhor apague-se enquanto nós no altar aparecemos".
Aqui também, uma ligação com a televisão pode ser estabelecida: estes "shows" litúrgicos, como o Cardeal Ratzinger chamou (antes de ser eleito papa), são inspirados por espetáculos televisivos e shows de variedades. O talento desses Cristãos consiste em primeiro lugar na modelagem da Igreja ao mundo e, em seguida, em colocar a Igreja a serviço de suas ambições sociais.
Os clérigos responsáveis ​​pelas paróquias continuamente fazem uso do vocabulário do mundo do entretenimento: eles falam da equipe de liderança da paróquia ou da equipe de liderança litúrgica. Para muitos Cristãos, assistir à Missa significa prestar atenção aos extras. Em outra recente edição de nosso boletim diocesano, o padre convidou os líderes da equipe local para tornar a Missa animada de modo que as crianças frequentem mais de boa vontade.
Pode-se perguntar de que forma estes Cristãos poderão um dia ser orientados para a Missa Tridentina!
Católicos ativos costumam designar-se como "atores": "Eu pertenço à equipe de liderança litúrgica, porque eu quero ser um ator na Igreja", muitas vezes se lê em seus depoimentos. Outro diz que os não-atores são espectadores. Além disso, esses Católicos ativos estão sofrendo, como os sacerdotes, de uma crise de identidade. Eles não gostam, talvez com mais frequência do que expressam confusamente, de serem confundidos com os espectadores passivos pelos "atores". Nos boletins paroquiais, agradecimentos e felicitações são invariavelmente dirigidos aos "atores" da equipe de liderança litúrgica, que animam a Missa e que fazem da paróquia andar.
Aplausos agora são comuns entre o pessoal oficial da paróquia, ainda que São Pio X tenha proibido: "Não se deve aplaudir o servo na casa do Mestre". Mas não há mais servos, apenas atores!
Um padre da diocese explicou que tinha de ordenar o silêncio durante o Ofertório, porque os paroquianos tomavam o Ofertório como um intervalo e começavam a conversar.
Claro, a parábola do Semeador foi ensinada bem antes da existência da televisão. As almas que apresentam esses defeitos sempre existiram na Igreja, e podemos nos reconhecer em cada uma dessas descrições, mas pelos seus efeitos a televisão contribui para a transformação das almas em um terreno que é pouco apto para fazer uma colheita frutífera, e a cristandade agora se assemelha a um terreno no qual a boa semente não cresce muito frequentemente. Pode se encontrar muitas almas duras, rasas, muitas almas que buscam experiências intensas, muitos atores e atrizes e líderes, mas poucos Cristãos. A boa palavra semeada durante a Missa é, infelizmente, muitas vezes despida de seu significado, e parece que a mídia não é alheia a esta apropriação indébita.
Em alguns boletins paroquiais encontra-se uma inversão das etapas do método inaciano: Compreensão, Memória, Vontade. Memória: sistematicamente se escolhe algo que não é sobrenatural. Compreensão: em vez de esclarecer o mistério ou parábola à luz da fé, só se obscurece com considerações de questões contemporâneas. Vontade ou a resolução: o ato da vontade é sempre voltado para o mundo, para outros, não para o próximo, mas no sentido de um objeto, vago e distante.
Por exemplo, num boletim da paróquia, o pároco apresenta a Sagrada Família: o pai, a mãe, a criança (memória); ele explica que há novos modelos de famílias... (compreensão); ele nos convida a acolher estes novos modelos e estar atentos aos outros (vontade). Agora, nesta paróquia, os Católicos praticantes são ainda, em termos globais, famílias normais. De onde, então, que o sacerdote-editor deste boletim tira a sua inspiração?
Outro exemplo: Jesus envia os apóstolos dois a dois, sem ouro, prata, sandálias, bolsa ou pessoal (Mt. 10,10) (memória). Atualmente, dispomos de um número de meios de comunicação modernos como a Internet (compreensão). Deixe-nos saber como fazer uso destes novos meios de comunicação (vontade).
Por trás de todas estas considerações se supõe a influência deletéria da mídia, uma recusa da realidade natural e sobrenatural, um desejo de moldar-se ao mundo, uma total submissão ao mundo como ele é mostrado, transformado, e formado pela mídia. Em vez de transmitir as coisas de Deus, nossos pregadores tem transmitido a mídia, especialmente a televisão, o principal vetor de persuasão oculta: eles fizeram um deus de sua TV.

Traduzido de La Télévision, ou le péril de l’esprit (copyright Clovis, 2009).

Esta é a penúltima parte de uma série de artigos publicados na revista Angelus, mas é a última que está disponível gratuitamente online. Infelizmente não consegui a sétima parte.

Original aqui.
Veja todas as partes:
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Nota da tradutora:
(1)    No texto em inglês “vicaresses”. Não encontrei tradução para a língua portuguesa. “Vicar” significa vigário, pároco.