sábado, julho 28, 2012

Uma entrevista com o Prof. Ricardo da Costa

vida
Acabei de ler uma interessantíssima entrevista com o Prof. Ricardo da Costa, e recomendo a leitura.
Leia um trecho:
2) A partir do humanismo renascentista, e, sobretudo com o Iluminismo francês, criou-se uma historiografia ideológica com conseqüências extremamente negativas para a religião cristã e a Igreja Católica quanto ao seu papel cultural na Idade Média. Daí o epíteto “Idade das Trevas” como referência histórica para esse período. Como você vê essa questão?
Ricardo da Costa – Impossível de ser resolvida. Além de já ter sido construída uma vasta bibliografia tremendamente parcial, há várias “frentes de ataque”. Em primeiro lugar, os próprios medievalistas: há muitos que sequer lidam com fontes primárias. No Brasil especialmente. São reprodutores de afirmações de terceiros. Sequer se dão ao trabalho de conferir as informações criticamente.
Deixe-me explicar melhor o que entendo por “conferir as informações criticamente”. Sabemos que os textos primários, em sua maior parte, são cópias, escritas em diferentes períodos. Normalmente, os historiadores mais ciosos de seu ofício costumam consultar edições princeps, ou seja, textos elaborados por filólogos que tiveram o trabalho de confrontar os diferentes manuscritos da obra, para chegar ao provável texto original. Pois bem. MUITOS historiadores não lêem fontes primárias. Outros, quando lêem, consultam edições terríveis, sem o devido preparo erudito. Como eu lido diretamente com fontes primárias em meu ofício, em minha área de estudo – desde os textos de Ramon Llull (1232-1316) até hoje, com os clássicos da Coroa de Aragão (sécs. XIV-XVI)[1][2] – conheço todo o processo de produção de uma edição crítica. Assim, por não conhecerem o processo – sequer se interessam por ele – os historiadores que lêem essas edições mal feitas não fazem uma boa leitura (interpretação). Aceitam acriticamente a informação, não confrontam com outras fontes, e não se dão ao trabalho de conferir as expressões utilizadas pelo tradutor (nem comparam diferentes traduções).
Há muitos níveis em todo o processo até o resultado final – quando o historiador lê a fonte. O mais comum é o historiador ler uma obra contemporânea e acatar as conclusões e interpretações do historiador. Isso ocorre porque normalmente durante o curso de graduação além de não haver o hábito de se estudar com fontes, os próprios professores que lecionam determinam qual a interpretação é a “melhor”, um pouco ditatorialmente, sem aceitar questionamentos nem debates. Pior: há muitos estudantes que se formam hoje sem terem lido um livro inteiro. Isso sem contar o modismo acadêmico atual que “não existe verdade” e “todas as interpretações são igualmente válidas”, uma porcaria que está estragando gerações de alunos.
Em nosso caso específico, a Idade Média, a situação piora ainda mais porque, para ler uma fonte medieval é necessário um preparo erudito, um costume de leitura que é diferente de uma fonte do século XIX, ou XX. A atual geração de estudantes de História tem um interesse muito restrito: o mundo do passado antes da Revolução Francesa não desperta interesse. Pior: a preferência é pelos estudos a partir do final do século XIX.
Por fim, o preconceito em relação a TUDO o que diz respeito à Igreja Católica – inclusive por parte de muitos medievalistas, que só estudam a Idade Média na perspectiva das relações de poder – poder material, diga-se de passagem. Um ponto de vista completamente anacrônico para se tratar do Antigo Regime, da sociedade de ordens. O que vejo de bobagens por aí...
Portanto, não creio que a situação melhore, pelo contrário.



[1][2] Projeto internacional IVITRA (Site: www.ivitra.ua.es) do qual sou membro.