quinta-feira, agosto 02, 2012

Um "Expert" Recomendável em Matéria de Satanismo? – Parte I

Por Si Si No No
Traduzido por Andrea Patrícia



 
Um artigo assinado or Maximo Introvigne, intitulado “Harry Potter não tem nada de demoníaco”, foi publicado no nº 17/2006 da revista Famiglia Cristiana.
Ele ostenta um título bastante expressivo, mas antes de fazer qualquer comentário sintetizaremos os argumentos que desenvolve o seu autor (que, aliás, querem nos vender como um perito em teologia, pois é apresentado dentro de uma seção chamada “O teólogo”).

A) Um Silogismo Incorreto
Introvigne começa fazendo uma distinção de posições, que ele atribui ao Papa Bento XVI (embora ele não cite nenhum texto dele), em resposta a uma carta de uma leitora que perguntou, em suma, como julgar a posição daqueles que sustentam que algumas obras (livros ou filmes) "não devem ser vistos ou lidos, porque estão ligados ao satanismo e conduzem ao diabólico de uma forma ou de outra"
1) a posição laicista (separação total entre cultura e fé);
2) a posição fundamentalista (para a qual "é ilegítima e demoníaca toda cultura que não se infira diretamente da fé");
3) a posição do laicismo saudável ("que aceita a distinção entre fé e cultura e a autonomia das realidades temporais, mas defende o direito da fé em expressar sua opinião em todos os campos").
Como veremos, esta distinção inicial é particularmente importante porque é em certo sentido, a premissa maior do silogismo aparente que Introvigne está prestes a desenvolver. De fato, em vista da maneira como o autor formula suas premissas, até uma criança poderia entender onde ele vai parar com isso: para ele, a única posição correta é, obviamente, a do “laicismo saudável", daí que ele rotule como "fundamentalista" qualquer católico que tenta julgar ou condenar elementos culturais profanos à luz da fé ou de princípios dedutíveis da doutrina católica, o que ele desqualifica e nimba com uma aura de indignidade moral.
Agora, quem conhece a ampla tradição filosófica dedicada ao estudo do silogismo e suas condições de validade - a partir de Aristóteles, que o descobriu - sabe que, em geral, a validade de um silogismo (deixando de lado aqui os aspectos técnicos relacionados com o termo médio na premissa maior e do menor, etc.) deriva de suas premissas: de premissas e verdadeiras se seguem proposições válidas e convincentes; de premissas errôneas ou inadequadas dimanam conclusões absolutamente inválidas e erradas. No caso em apreço, o de Introvigne, o erro é que ele acha que suas três caixas classificatórias são completas e que, portanto, não pode haver lugar à margem das mesmas, no que comete o erro imperdoável de confundir a filiação abstrata a uma família sociológica determinada com a verdade ou falsidade de um juízo referido a matéria de fato. Sem rodeios: Introvigne construiu primeiro suas categorias classificatórias (mais do que questionáveis, como se verá), e, em seguida, inferiu a partir da adesão desta ou daquela categoria da pessoa que faz um julgamento se a sentença é válida ou não: se uma instrução é mantida por um "malandro fundamentalista", por exemplo, nosso autor considera que a sua posição dificilmente merece ser levada em conta.
A mente do nosso sociólogo sofre de uma miopia singular, o que poderíamos qualificar como "profissional": acostumado a classificar, tudo o que importa para ele não é o que é dito, mas quem diz; não importa os fatos e juízo objetivo sobre eles, mas apenas quem profere tal juízo. Isso cria na mente de nosso autor (e naqueles que, certamente de boa fé, prestam atenção aos seus inúmeros artigos), sob a aparência de uma cientificidade fria e impessoal, uma fantástica realidade paralela onde quimeras sociológicas cada vez mais numerosas e reconfortantes suplantam a realidade, chegando a alterá-la ou cancelá-la por completo, ou até mesmo dar uma volta completa e torná-la seu oposto. Como mostrar a incrível debilidade e miopia intelectual de tal enfoque? Vamos tentar fazê-lo servindo-nos de uma analogia: se um "fundamentalista" protestante americano escreve um livro contra o aborto, citando uma série de razões teológicas, jurídicas e morais, nenhum abortista que não seja de má fé absoluta jamais refutaria o livro enfatizando, acima de tudo, que é um texto escrito por um fundamentalista, muito menos fazendo notar, exclusivamente, a filiação de seu autor a essa categoria. Claramente, se o livro é baseado em argumentos, vou tentar refutar a sua validade se eu sou pró-aborto, e vice-versa, se eu sou católico, o fato de que o livro é escrito por um protestante "fundamentalista" não me impede de apreciá-lo se os argumentos desenvolvidos são válidos e corretos no âmbito doutrinal e se não são encontrados perigosos pontos heterodoxos. Raciocinar de outro modo significa mover-se dentro de um quadro que não só não tem nada de científico, quanto se caracteriza no fundo – óbvio – por uma desaforada, embora latente, violência intelectual.

B) A "CIRCITERISMO" SUSPEITO

Nós encontramos a seguinte frase, bastante enigmática, no segundo parágrafo do texto de Introvigne:
"Alguns elementos dos fundamentalistas protestantes espalharam-se em certos ambientes católicos, a partir da década de noventa, a julgar a cultura popular" (grifo nosso).
Esse "certos" que o autor deixa cair aí com descuido aparente causa um efeito do tipo vagamente intimidatório (esperemos que não de propósito): o autor sugere que ele poderia definir precisamente estes "ambientes” católicos e fundamentalistas e expô-los assim a vergonha pública, mas se abstém de fazê-lo; além disso, ao mergulhar tudo na indefinição também tem o efeito de culpar categorias mais amplas do que aquelas em que o autor poderia estar pensando (note que o autor nem sequer fala de grupos, somente menciona ambientes: uma etiqueta sociológica entre o ecológico e o topográfico, que lembram expressões como "ambientes de vida irada"; a pessoa que por acaso faça parte deles perdeu toda a dignidade, não merece respeito, especialmente porque você não pode escolher pertencer a um ambiente: se está em um ambiente por acaso, ou, se o ambiente tem conotações negativas, por causa de alguma falha pessoal ou uma mancha de história familiar). Imagine a ansiedade de um pai de família frente ao "certos" de Introvigne, que haja desencorajado ou proibido seu filho de ler um livro ou assistir a um filme, ou o editor de uma paróquia que escreveu um artigo contra "Harry Potter"! Um autor famoso e célebre sentenciou que quem é contra uma determinada parte da cultura popular pertence a "certos círculos católicos", semelhante aos protestantes fundamentalistas: sente que lhe colocaram uma mácula infame. Tampouco o modo excessivamente sutil em que Introvigne usa a linguagem é próprio de um pesquisador desinteressado.
Além disso, fora as outras observações que fizemos acima, nos perguntamos por que o escritor não diz claramente quais são os "ambientes católicos" dos quais fala; uma vez que ele quer instruir os leitores, um pouco de clareza certamente não faria mal, mas, pelo contrário, ajudaria aos bem intencionados a defender-se melhor de "ambientes" tão indignos, de tão execráveis grupos de fanáticos. Na verdade, não há nenhuma razão prática ou metodológica que justifique o silêncio de Introvigne. Por que, então, não nomeá-los? A resposta que eu adianto é muito simples e altamente provável: se ele tivesse citado os famosos "ambientes" por seus nomes e sobrenomes, o autor do artigo não teria escolha a não ser citar também artigos e ensaios precisos sobre a questão controversa; ou, em vez disso os grupos incriminados poderiam convida-lo a fazê-lo. Mas, nesse caso teria encontrado razões, argumentos e críticas muito concretas e compartilháveis, assim não poderia fazer suas reivindicações na solidão perfeita, sem ter que examinar as razões dos outros, mas teria que se dar ao trabalho de encarar os fatos, a realidade, em outras palavras, teria que fazer o que Hegel chamou de "trabalho conceitual".
Naturalmente, não podemos assumir ou pensar que Introvigne diga os nomes dos "ambientes católicos" que tem em mente, porque, dada a sua qualidade como escritor e jornalista de sucesso, correria o risco de ser malquisto por boa parte dos movimentos católicos mais próximos a uma sensibilidade protestante pentecostal ou carismática; por isso, nós o convidamos a especificar os nomes dos grupos ou ambientes a que se refere de uma forma tão superficial, de preferência citando, com seu bem conhecido rigor filológico, artigos e ensaios dos mesmos.
C) OUTRAS DEFICIÊNCIAS ARGUMENTATIVAS
Prossigamos com a leitura do artigo, que atingirá o seu ápice no plano demonstrativo:
"A cultura popular tem, em grande parte, ao longo dos últimos séculos, dispensado a Igreja e a comunidade cristã, pois é uma cultura que não está orientada para a formação, mas para o consumo. Rejeitar a priori qualquer cultura popular moderna enquanto seus modos de produção não são religiosos é uma conclusão que o fundamentalismo não pode evitar. Mas é uma atitude que envolve o crente fundamentalista em um gueto cultural. "
Aqui há muitos erros, mas todos têm uma única raiz: Introvigne parece querer nos fazer crer que não há outras opções senão "rejeitar a priori qualquer cultura popular moderna", enquanto cultura de matriz anticristã, ou a aceitá-la em sua totalidade, em suma: ou se é um fundamentalista ou bem se mostra tolerante e aberto em sentido laicista, ainda que se seja cristão, a toda a cultura moderna. Pena que ao sociólogo escape uma constatação banalíssima, ou seja, que há uma posição intermediária entre as duas sustentadas: sem ser fundamentalista, mas apenas um católico honesto, você pode (ou melhor, deve) julgar com prudência e cuidado os produtos da cultura popular, assim como discernir, à luz da fé também (se não principalmente) o que pode ser aceito desses produtos e o que não, o que conta e o que não conta. Na verdade, nem todos os produtos da cultura secular são equivalentes, nem expressam mensagens idênticas, nem é o mesmo valorar um produto para um público adulto e consciente e outro para crianças e adolescentes. Nesta terceira opção, que é a única correta, se pode muito bem condenar os livros de Harry Potter e aceitar (ou pelo menos não atacar com a mesma dureza) um desenho animado do Pato Donald, condenar a série Charmed ou os programas, pornográficos de fato da competição Big Brother e considerar aceitável, mesmo para uma família católica, Volta a Casa, Lassie ou o romance The Yearling. Todo pai católico tem o dever gravíssimo de avaliar o que a cultura secular propõe e excluir com a severidade e firmeza o que constitui um perigo para a sua fé e a de seus filhos, ou a quantidade de conteúdo direta ou indiretamente contrário à moral cristã; e isso sem ser fundamentalista, mas simplesmente uma pessoa de bom senso.
As observações feitas agora são suficientes em si mesmas, ao que parece, para mostrar a completa falta de substância e a superficialidade da tentativa de Introvigne de esmagar toda a crítica feita a Harry Potter a partir de posições fundamentalistas. O outro ponto importante é outro agora: estimar especificamente se o conteúdo de um livro, de um filme, ou de qualquer outro produto enquadra-se bem ou não a um cristão que quer permanecer assim, especialmente se for uma criança ou adolescente, isto é, eles são adequados para ele ou não. Este firme discernimento, esta capacidade de ir contra a corrente (que postula, convém dizer, a falta de televisão em famílias cristãs ou um controle muito atento dela por parte dos pais, dado que não é incomum topar, inclusive durante o dia, com conteúdos televisivos decididamente imorais e inadequados para crianças), não apenas não encerra em nenhum gueto cultural, como também permite aos jovens precisamente o oposto, isto é, a se abrir para o que é cultura autêntica e uma vida espiritual mais profunda.
Além disso, Introvigne evidencia, ao pretender impedir tanto os pais quanto qualquer instituição (incluindo a própria Igreja, pelo menos implicitamente) que tomem partido com firmeza contra um produto literário e o condenem resolutamente, que ignora sobremaneira a história da Igreja, a qual instituiu depois do Concílio de Trento, para parar a propagação da heresia protestante, o índice de Livros Proibidos, que, com seu elenco atualizado constantemente, defendeu gloriosamente durante cinco séculos a ortodoxia dos países católicos. O Índice de Livros Proibidos é a demonstração histórica e teológica mais evidente - mas não a única, obviamente - de que a Igreja tem todo o direito de proibir certas leituras (sob pena de pecado mortal, entre outras coisas: era necessária a dispensa do bispo e fortes justificativas para ter acesso aos textos dos integrantes do índice), e, por analogia, também faz parte dos direitos de toda a autoridade, incluindo os pais, ao que se move o desejo Católico de uma realeza social plena de Nosso Senhor Jesus Cristo (a menos que Introvigne pense que a Igreja estava errada por cinco séculos, ou ainda pior, a menos que pense que se fechou em um gueto cultural ao fazer assim; se pensar uma de ambas as coisas, então nós seríamos obrigados a dizer, com Santo Tomás: principia negantibus non est disputandum, ou seja, não há que se discutir com quem nega os princípios).

CONCLUSÕES ABSURDAS
Se é que se querem mais provas, de tipo exclusivamente lógico, da debilidade do raciocínio do advogado Introvigne, destaquemos conclusões absurdas que seguem de seus princípios. Reduzindo o seu pensamento a esquema, o que ele diz é isto: eu não posso proibir um produto que carece de inspiração cristã; caso contrário, eu me fecho em um gueto cultural. Devo limitar-me a ajudar meus filhos a fazer uma interpretação crítica do produto em questão. Vejamos algumas objeções fundamentais.

PRIMEIRA OBJEÇÃO
a) Assumindo que vetar certas leituras ou produtos da indústria do entretenimento "feche em um gueto cultural", o caso é que o fim de um cristão não deve ser evitar os guetos culturais, mas sim salvar a alma.
b) Se a leitura pode atentar contra a minha fé ou contra a dos pequenos que estão confiados a mim e colocam em perigo, portanto, a minha salvação eterna ou a deles, é preferível evitá-la e ficar em um gueto cultural.
c) A magia, o satanismo, a feitiçaria, mesmo em forma de romance, põem em perigo a fé certamente, não importa a magnitude estatística desse risco, pois está escrito: "Não tentarás o Senhor teu Deus" - daí que deve ser considerado preferível o gueto cultural à adoção voluntária do risco, por menor que seja, deve ser condenado eternamente.
SEGUNDA OBJEÇÃO
a) Supondo que proibir certas leituras ou produtos da indústria do entretenimento "feche em um gueto cultural", surge o problema de definir os limites dentro dos quais é preferível, para si ou para seus filhos, enfrentar todos os tipos de riscos incluindo o extremo de perder a fé, a ter o destino de fechar-se em um gueto cultural.
b) Supondo o esquema de Introvigne é fácil ver que suas premissas o restringem a não aumentar limite algum. De fato, devido às suas palavras mostrarem que o pior mal é ficar preso a um gueto cultural, é claro que é muito difícil, se não impossível,  estabelecer limites que não se hão de ultrapassar.
c) Um exemplo tornará isso mais claro: toda a cultura popular de hoje (música, filmes, novelas, programas de televisão, revistas, etc.) está imbuída de erotismo em graus variados, segundo uma gradação que atinge até a pornografia mais pesada. Muitos intelectuais têm defendido o erotismo e a pornografia, e tem reputado como um sinal imperdoável de isolamento e atraso a recusa a se abrir a ditas manifestações de arte pós-moderna. Se seguirmos o esquema de Introvigne, também neste campo um pai não poderia estabelecer limites ou fronteiras, não deveria proibir o seu filho ou filha adolescente, por exemplo, de ler um romance puramente pornográfico como Petrolio, de Pasolini, ou alguns textos de Moravia, mas deveria limitar-se a sugerir uma leitura crítica dos mesmos.

TERCEIRA OBJEÇÃO
a) A teologia moral ensina que o momento central da luta contra o pecado é evitar as ocasiões próximas deste, isto é, evitar todo contato, buscado conscientemente com situações, pessoas, leituras, imagens, pensamentos, etc., que podem favorecer a queda no pecado seja venial, seja mortal (a promessa de evitar as ocasiões próximas de pecado não aparece por acaso no ato de contrição que é recitado durante a confissão).
b) É verdade que, praticar magia, feitiçaria, adivinhação satanismo, etc., é pecado, assim como é verdade que ler (ou ver) assiduamente obras de conteúdo mágico-satanista pode favorecer uma adesão formal às práticas descritas, ou se habituar-se de alguma maneira a uma curiosidade culpável sobre elas.
c) Portanto, é lícito e obrigatório proibir o consumo de tais produtos às pessoas pelas quais somos responsáveis ​​(Deus, com efeito, pedirá contas aos pais daquilo que eles permitiram que seus filhos vissem ou lessem se tais experiências resultaram em danos para suas almas).
d) Dita proibição é uma obrigação, porque seja qual for a ajuda que deem aos seus filhos para que eles façam uma leitura crítica de "Harry Potter" nunca será suficiente para garantir que a leitura não resulte ela própria em dano moral ou espiritual para o adolescente ou a criança (perante a sedução que milhares de páginas terão sobre ele, que lerá sozinho por dezenas de horas, mergulhado nos ambientes mais escuros e cativantes, mais evocativos e assustadores, qual impacto emocional e intelectual poderá ter sobre uma criança de oito ou nove anos de idade o sermão de meia hora em que seu pai explica que "Harry Potter" deve ser lido com cuidado? Introvigne, tente responder-nos sobre este ponto específico). Na ausência de certeza que não haverá dano material (certeza de que nenhum homem pode ter em absoluto), o princípio da prudência deve orientar os pais tanto quanto a qualquer outra autoridade, sugere a necessidade da proibição.
QUARTA OBJEÇÃO
a) O fim do homem é glorificar a Deus e, portanto, qualquer ação sua deve tender, pelo menos implicitamente, para a glória Dele.
b) Obviamente, a teologia moral inclui a positividade e a necessidade da recriação das nossas forças físicas e psicológicas através do jogo ou da diversão, ou, no caso que nos interessa, através da leitura ou da visualização de obras literárias e artísticas.
c) A recreação, no entanto, não deve ter para conteúdo fenômenos culturais ou práticas diametralmente opostas à fé cristã, como é o caso de textos que convidam à magia ou a práticas satânicas – ainda que seja sob a máscara da ficção. Na verdade, a natureza recreativa do ato ("Eu li Harry Potter só para matar o tempo") não elimina em tal caso o risco de contrair uma culpa até mesmo grave, pelas mesmas razões observadas nos pontos acima.
(continua)

Publicado na revista Si Si No No em fevereiro de 2007.


Nota da tradutora: Esta é a primeira parte de um artigo dividido em dois. Publicarei a seguinte na próxima semana.

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Original aqui.