quinta-feira, setembro 06, 2012

É correto falar de nossa herança "Judaico-Cristã"?

Por Pe. Peter Scott
Traduzido por Andrea Patrícia


O termo "Judaico-Cristã" não é uma invenção recente da era ecumênica, como parece de início. É um termo muito antigo, datando do início do Cristianismo. Os Judaico-Cristãos eram originalmente os adeptos do Judaísmo que se converteram à Fé, mas que ainda praticavam a circuncisão e observavam a lei mosaica, e tentaram impor isso aos convertidos dentre os gentios. Eles foram os primeiros condenados pelo Concílio de Jerusalém no ano 49, como dito no capítulo 15 dos Atos dos Apóstolos.
Posteriormente, dois grupos de Judeus-Cristãos surgiram. Havia aqueles que simplesmente mantinham a lei mosaica em si, mas que não tentavam impô-la aos outros Cristãos, e que não eram heréticos. Eles eram chamados de Nazarenos, e rapidamente desapareceram após a destruição de Jerusalém no ano 70. O outro grupo de Judeus-Cristãos eram também chamados de Ebionitas. Eles eram verdadeiramente heréticos, consideravam a lei mosaica obrigatória, e negavam a divindade de Cristo, o nascimento virginal, e os trabalhos e os escritos de São Paulo. Eles também deram origem a várias seitas gnósticas. É por esta razão que o título "Judaico-Cristã" é pejorativo, contra a ortodoxia doutrinária.
A tentativa de descrever a própria moralidade ou princípios como "Judaico-Cristãos" consequentemente não é tradicional de forma alguma. Poderia, teoricamente, ser usado para descrever o apego aos princípios morais da Bíblia, incluindo os Dez Mandamentos, como sendo os princípios de toda a vida moral, e que a Igreja recebeu dos israelitas. No entanto, existem alguns problemas. O primeiro é que os próprios judeus no tempo de Nosso Senhor, não guardavam os princípios morais da Lei antiga, como Nosso Senhor não cessou de reiterar. Como se poderia usar o título de "herança Judaico-Cristã" para expressar a ligação com estes princípios, quando os próprios judeus praticavam a poligamia e o divórcio; quando os judeus não hesitaram em prejudicar o primeiro e grande mandamento do amor a Deus e ao próximo, ensinando o exato oposto: "amarás o teu próximo e odiará o seu inimigo" (Mt. 5,43), ou "olho por olho e dente por dente" (Mt. 5,38)? Como poderíamos usar esse título quando a grande maioria dos judeus não tem nenhum problema com a eutanásia, aborto, controle de natalidade, homossexualidade, divórcio, e até mesmo a eliminação de Deus, e amor ao próximo da vida pública, política, educação e tribunais? O que poderia este título "herança Judaico-Cristã" consequentemente realmente significar?
Se ele é usado para indicar aqueles que observam os Dez Mandamentos e os mantêm como o alicerce de toda a moralidade, então que seja dito explicitamente: nossa herança é os Dez Mandamentos. Que não haja ambiguidade. No entanto, ela não é judia. É nossa herança Católica. A Igreja Católica de fato sucedeu a Israel do Antigo Testamento como sendo o verdadeiro povo de Deus. Hoje em dia os judeus não são uma parte deste patrimônio, nem são nossos irmãos mais velhos na fé, como o Papa tem, infelizmente, afirmado. Eles não têm a verdadeira Fé, a Fé da Igreja Católica, pois rejeitam explicitamente e se recusam a crer em Cristo, o Filho de Deus feito homem, apesar do fato de que Ele cumpriu todas as profecias do Antigo Testamento. Ao se recusar a crer na Santíssima Trindade, ao se recusar a acreditar em Deus como Ele se revelou. Eles, consequentemente, não têm a fé de Abraão, que acreditava em tudo o que Deus revelou a ele, já que Cristo revelou este mistério da Santíssima Trindade.
A existência na Igreja de um conceito moderno, liberal, ecumênico de uma herança Judaico-Cristã remonta ao documento do Vaticano II sobre a relação da Igreja com as religiões não Cristãs, Nostra Aetate. Esta declaração menciona duas vezes que "os cristãos e os judeus têm uma herança espiritual comum" (§ 4), sem explicar o que é. Se por isso se quer dizer que nós compartilhamos essa parte da Sagrada Escritura que chamamos de Antigo Testamento, é em parte correto (os judeus rejeitam sete livros inspirados do Antigo Testamento). Se, no entanto, por isto se entende que há algo de comum com respeito à nossa vida espiritual, Fé e princípios morais, então é totalmente errado, pois hoje em dia o Judaísmo se baseia na negação das verdades mais básicas da Fé Católica.
Por conseguinte, este termo politicamente correto "herança Judaico-Cristã" deve ser considerado vago, deliberadamente ambíguo, liberal, favorecendo o indiferentismo e o ecumenismo, e nada ortodoxo.

Original aqui.
O padre Peter Scott é da FSSPX