quinta-feira, novembro 01, 2012

Filmando o olho da mente: a falácia do entretenimento passivo

Por Andrew Childs
Traduzido por Andrea Patrícia



Através da nossa percepção sensorial, nós interagimos com estímulos intelectuais e emocionais (1). Santo Tomás tratando sobre a virtude intelectual descreve a ação da vontade em dirigir o uso de tais estímulos, e, mais importante lembra-nos que a bondade ou a maldade desses processos mentais depende das nossas intenções e em escolher livremente a natureza das nossas reações (2). Nossas boas respostas resultam de nossa capacidade em organizar estímulos baseados no conhecimento e em nossa capacidade de identificar princípios morais pertinentes e regular nossas reações de acordo com eles. A recepção passiva de estímulos artísticos torna a presente regra improvável, se não impossível. O espectador ou ouvinte desengajado deixa-se abrir à manipulação: a recepção passiva de estímulos embota a capacidade receptiva, e substitui a imaginação com imagens embaladas e respostas emocionais – no fim das contas intelectuais - pré-determinadas. Propriamente falando, não existe nenhum entretenimento verdadeiramente casual, somente uma falha por parte do destinatário para ocupar a mente durante o processo de recepção, e uma falha em reconhecer que o entretenimento não possui substância para um impacto intelectual apreciável, no entanto deixa uma impressão emocional .

Filmando o Olho da Mente, ou, Por Que o Livro é Melhor
Apesar de não serem estúpidas, as versões cinematográficas de obras literárias fornecem um exemplo útil. Os melhores exemplos destes filmes (o de Kenneth Branagh, Henrique V, produzido pela BBC em 1989; a produção da PBS de Orgulho e Preconceito em 1995, etc.) ainda estão aquém do alimento intelectual do original na medida em que eles substituem a vital capacidade intelectual da imaginação por imagens num cenário. Não importa o quão magistral seja a fotografia, essas representações empacotadas vão estimular principalmente as emoções, e não a imaginação como alguns defendem: a prova disso reside no fato de que muitos desenvolveram uma recordação cinematográfica dos acontecimentos históricos, personalidades e conceitos relacionados mais especificamente a filmes do que um sentido objetivo do contexto histórico sustentado por princípios (3). Quanto a precisão supostamente superior dos filmes "historicamente informados", devemos lembrar que alguns relatos históricos objetivos jamais existiram realmente, mais importante, nós sabemos pela nossa Fé que o entendimento transcende a experiência.
A imaginação baseia-se na realidade e, embora nunca tenhamos experimentado diretamente as imagens e sons de uma terra estrangeira ou época distante, através de nossa compreensão de estímulos relacionados podemos reproduzir imagens realistas e mentais das cenas que lemos. Isso se relaciona com nossa faculdade de abstração, onde a mente reconhece fundamentos universais, e faz conexões com base em nossas experiências particulares. A criança entende, por exemplo, que o beagle é um cão de família. Através da abstração, pode-se deduzir que o grande dinamarquês do vizinho é também um cão, assim como o poodle da sua avó. A criança reconhece as essências universais de "cão" em todos os animais um animal de - quatro - patas que late e arfa - mesmo que as características particulares variem muito. Mais importante, a abstração de uma criança como uma faculdade pode se desenvolver, e deve, de fato, se é para ter alguma esperança de apreender conceitos de natureza abstrata ou teórica (muitas vezes durante sua vida a criança precisará desta habilidade, tanto na esfera das idéias quanto das interações, muitos lobos famintos fariam crer que são apenas cães amigáveis...). Este desenvolvimento, no entanto, não acontece simplesmente como uma questão de maturidade física ou experiência acumulada, mas requer uma aplicação coerente. Assim como uma criança aprende conceitos adultos - responsabilidade, justiça, partilha -através do jogo, os adultos podem aprimorar os poderes de abstração através da recreação – lendo, ouvindo, criando -, mas apenas através da recreação que envolve ativamente a imaginação. Entretenimentos visuais passivos embotam este poder de abstração, embora possa deslumbrar os olhos e dominar as emoções (com a ajuda da trilha sonora bem escolhida, projetada para adicionar profundidade emocional, convencendo os espectadores que participam de uma experiência muito mais profunda do que o que eles realmente participam) (4).
Música de fundo
A música manipula em um nível emocional. No seu melhor, a música inspira uma confluência de sensibilidade cognitiva e emocional que se aproxima do sobrenatural. De todas as artes, a música "que devido à natureza emocional de seu modo de comunicação fornece uma ligação entre os reinos físico e o metafísico - sofreu o rebaixamento mais grave e dinâmico nos tempos modernos, tanto em termos de processo quanto de propósito. O inimigo tem muito a ganhar com esta manipulação – convencendo as pessoas de que elas pensam o que na realidade elas apenas sentem - e ainda mais a ganhar com a nossa incapacidade de reconhecer tal manipulação, melhor facilitada por empurrar a música cada vez mais para o fundo de nossa consciência. A sociedade passou a considerar a música como algo inteiramente eletivo, e completamente inato. Ao contrário do desenvolvimento de qualquer habilidade real (então a opinião continua), todo homem pode apreciar a música apenas se ele escolher isso, e ao escolher não nutrir um apreço pela música, ele simplesmente decide usar todo seu tempo livre em alguma outra busca tecnicamente desnecessária (ou talvez mais viril). A perda da capacidade de apreciar uma forma de arte insignificante, secreta, pouco importa para tal homem, especialmente à luz de sua iluminação tecnológica superior e relativo progresso geral com relação às sociedades antigas; além disso, a maioria das pessoas já tem muito pouco tempo... " 5
Duas mentalidades particularmente perigosas desenvolvem-se a partir desta linha de pensamento:
Primeira - aquela música séria é tanto vocacional, ou pior, recreação específica de gênero – o reino das buscas femininas. Os homens podem se identificar com a música vernacular de danças folclóricas, quadrilhas, ou música popular, já que esses estilos familiares fazem poucas exigências aos ouvidos masculinos e proporcionam muitos benefícios: a música vernacular conecta um homem às suas raízes, confirma-lo em sua masculinidade, e ainda dá voz para o seu patriotismo. Embora insuficiente, também cumpre alguma exigência de cultura. Na ocasião, no entanto, os homens tiveram que se submeter à penitência da arte elevada, todavia com certos entendimentos: assim como uma mulher "fez seu dever, arrastando seu marido a um concerto ou ópera, seu marido manteve a sua masculinidade, protestando por todo o caminho, e adormecendo durante a execução da música" (6).
Segunda – o elitismo reverso prova ser muito mais perigoso. A música country, tanto nova quanto a antiga, caracteriza esta atitude mais proeminente: se as velhas formas simples adequavam-se aos meus antepassados, então são adequadas a mim também. A tentativa de introduzir idéias de fora ou buscas (a força invasora cultural é sempre estigmatizada como externa ou estrangeira) não representa uma oportunidade para o enriquecimento, mas sim uma espécie de guerra, uma traição da educação [recebida]. Família e comunidade podem exercer pressões tremendas, acusando o novo [homem] culto de "empinar o nariz", de adotar uma atitude de superioridade. O reconhecimento da óbvia insegurança e o medo do desconhecido - bem como a conveniência do familiar - que motiva essas acusações pouco faz para amenizar o impacto do exílio cultural. Um apelo à lealdade da família e à nobreza da vida simples silencia qualquer argumento em nome da cultura. No entanto, aqui reside uma armadilha perigosa, uma probabilidade de pegar aqueles cuja apatia intelectual diminuiu seu poder de abstração: um homem simples, não é um simplório. A diferença não reside apenas na profundidade de seu caráter, mas na clareza do seu pensamento. O Diabo se esforça incansavelmente para derrubar a ordem de Deus em todos os domínios. Em termos de cultura, ele teria homens e mulheres se comportando como crianças - ou como animais irracionais. De acordo com ele, a recreação musical nunca deve ameaçar, desafiar, ou nos impor qualquer contemplação imaginativa; ela deve sempre permanecer acessível e confortavelmente reconhecível.
A atmosfera criada pela música que soa familiar cria uma sensação de tranqüilidade psicológica; defesas intelectuais relaxam em um reconhecível ambiente sonoro emocional. Em tal estado, o ouvinte permanece predisposto a permitir a entrada de quaisquer sentimentos transportados pelo material musical que se tornou de fato um companheiro emocional. E ainda, como uma espécie de traição, a música que em uma ocasião foi cantada para fazer as crianças dormirem, na outra vai sussurrar em seus ouvidos as mentiras e os escândalos mais venenosos; e, acompanhada por um amigo da família melódico ou harmônico, dá ao mesmo tempo a impressão de que essas novas idéias ostentam a marca de aprovação. Ler letras de músicas populares de qualquer é chocante, tanto em termos da quase total falta de graça poética, quanto a mensagem temática: despojada da música feita para mascarar a mensagem literal, poucos dos mais endurecidos libertinos iriam conceder a esses sentimentos acesso aos seus filhos. E ainda estruturalmente, harmonicamente, melodicamente e ritmicamente, a música de ocasião próxima se assemelha quase exatamente àquela de nosso folclore moderno e heróis populares.
A música, se quiserem, envolve uma imaginação emocional; em vez de desencadear a recordação e associação de imagens específicas, pessoas ou eventos, a interação criativa com a música induz a liberação de todas as imagens e cenários relacionados com um estado emocional: canções de Natal, o coral da Paixão, a música tocada em um casamento, a música favorita de um parente falecido. Na maioria dos casos, o viajante emocional não se importa com o seu destino, falhando em levar em conta o modo de transporte.
Cultura ativa: apreciando a beleza gratuita
A participação ativa ocorre na mente. Nós interagimos com a arte através da imaginação e da compreensão que a arte inspira. Cultura activa, no entanto, não inclui necessariamente participação real. Embora muitas vezes essa participação possa fornecer um maravilhoso canal social e intelectual benéfico para a formação adequada, o talento individual limita a extensão em que o nosso envolvimento direto pode inspirar a imaginação. Vamos inevitavelmente arriscar [a participação] em termos de conteúdo ao assumir apenas os projetos dentro das nossas capacidades, ou, em termos de qualidade através da realização de obras além de nossas habilidades. Ao fazer o último, podemos roubar as obras de sua verdadeira capacidade inspiradora. Uma associação pública pode fornecer os meios mais eficientes de cultura ativa para a maioria das pessoas, pois ouvintes, telespectadores e leitores (talvez o público mais exclusivo, já que o autor fala ao leitor somente) devem perceber a sua responsabilidade de interagir com a forma de arte, e devem optar por exporem-se a obras de reconhecida qualidade, e não simplesmente a tipos de obras que acham familiar ou confortável... ou simplesmente relaxante. Embora a arte possa acalmar e confortar, muitos tem em conta as atividades culturais como puramente recreativas ou escapistas. Embora a Escritura nos exorte a "ser como as criancinhas" (7) nós muitas vezes confundimos infantil com imaturo a este respeito. Como mencionado acima, para a criança, a brincadeira é trabalho, quantos adultos conservam um senso de imaginação industriosa em sua recreação? As crianças mostram sua atração inata a conceitos universais na criação de suas "fantasias": os cenários que elas desenvolvem e continuamente revisitam podem revelar a falta de experiência - e armazenamento limitado de elementos - , mas não uma fuga da realidade. Por outro lado, um homem que se contenta em ficar permanentemente dentro dos mesmos parâmetros culturais de sua infância arrisca-se a desenvolvimer uma capacidade diminuída para distinguir os universais, e uma visão cada vez mais estreita da realidade.
Nossa criação de realidades alternativas para refletir nossas fantasias representa um subjetivismo perigoso e uma inversão de ordem; ainda, qual é a nossa capacidade de fazer fantástica a realidade? O artista - assumindo uma participação ativa beneficiária - emprega livremente uma beleza maravilhosamente impraticável, se não gratuita, a fim de estimular e encantar a imaginação. Ao amanhecer, na cena de abertura de Hamlet, Shakespeare poderia ter feito com que Horacio descrevesse o nascer do sol em termos muito mais simples do que estes "Mas veja, o amanhecer vestido com um manto castanho-avermelhado caminha sobre o orvalho além da alta colina ao leste" -, mas nossa mente se deleita com o fato de que ele não o fez. No prelúdio de Das Rheingold, nós nos sentamos paralisados enquanto Richard Wagner gasta cinco minutos - e usa cem músicos orquestrais - para explorar o potencial sonoro caleidoscópio de um único acorde. Quando um homem se apaixona por uma mulher, sua aparência familiar torna-se uma de suas principais fontes de simples alegria contínua e estabilidade psicológica. Ao longo de sua vida como esposa e mãe, ela certamente irá possuir a beleza física dotada a ela pela natureza, e ainda que ela mantenha esta beleza através das atividades de sua vida, ela irá provar seu amor ao aceitar e realizar as funções de seu dever de estado. No entanto, no dia de seu casamento, a beleza torna-se, com efeito, seu dever de estado; neste dia, ela vai usar a beleza para mostrar a extensão de seu amor por seu marido. O retrato de casamento, embora muitas vezes trazendo pouca semelhança com a aparição diária de uma mulher, torna-se um artefato que representa o seu uso intencional de beleza gratuita para simbolizar este amor.
A interação ativa com estímulos culturais nos prepara para construir tais dons da imaginação para os outros. Devemos reconhecer a necessidade de desenvolver as nossas faculdades mentais, para que possamos apreciar e dirigir a nossa imaginação para o sobrenatural através de meios intelectuais e emocionais; através da oração, nós direcionamos essas faculdades através de meios espirituais também. Longe de um processo eletivo - apenas um pouco menos eletivo do que a oração - eu diria que a cultura ativa nos fornece as ferramentas para cumprir o mandamento de amar uns aos outros nas mais maravilhosas das formas. Prepara-nos para dar e receber presentes de compreensão emocional e intelectual de tal forma que todas as pessoas, independentemente de lugar, tempo ou de status, reconhecem a beleza, muitas vezes gratuita da arte - e da extrema generosidade de Deus em prover fontes ilimitadas de inspiração artística - a unidade que Ele deseja ter conosco.

_____________________________
O autor:
Dr. Andrew Childs é professor de música na St. Mary's Academy and College, em St. Marys, Kansas, onde vive com sua esposa e filha, e dois gatos de circunferência lendária e de boa natureza. Ele também é Assistente do Diretor de Educação do Distrito dos EUA da Fraternidade de São Pio X. Ele ensinou na Universidade de Yale, na Universidade da Califórnia em Irvine, na Universidade Estadual do Missouri, e na Faculdade de Connecticut. Um intérprete profissional ativo, cantou em mais de cem apresentações de cerca de trinta papéis em óperas.
__________________________
Notas:

1 Platão faz as seguintes distinções: a imaginação envolve 1) percepção de objetos e julgamentos baseados em sua aparência - a questão da percepção vs realidade, 2) a capacidade mental de produzir imagens de coisas que não estão presentes, e 3) a representação física de objetos com base em imagens trazidas pela mente - criação artística.
2 Santo Tomás de Aquino, Summa Theologica, I-II, QQ. 55-59.
3 Outra prova: ainda que seja uma obra surpreendente e admirável,  A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, fornece muitas de suas imagens para a meditação sobre a Paixão. A este respeito, Gibson tem prestado um grande serviço, embora a pessoa que medite sobre as imagens do filme perca uma dimensão contemplativa, por causa da natureza fixa das imagens do filme, a contemplação torna-se estereotipada. Embora úteis e necessárias em muitas maneiras, sabemos que a oração através de fórmulas - neste caso, contemplação através de fórmulas - não tem a espontaneidade imaginativa e a edificação potencial da oração mental.
4 Uma nota importante sobre o desempenho do palco. Apesar da dramaturgia e dos cenários criarem alguns efeitos realistas, atores e público precisam entender a natureza puramente representativa deste realismo. O pleno efeito dramático requer contemplação, conseqüentemente, muitas pessoas acostumadas com a hiper-realidade do cinema veem as peças de teatro apenas bidimensionais. Elas não conseguem perceber o seu papel participativo.
5 Com o avanço da sociedade moderna industrializada, a cultura (individual ou coletiva) tornou-se cada vez mais receptiva ao invés de ser um processo interativo; para que não insistamos que as nossas atuais formas de cultura interativas rivalizam com as normas pré-industriais essenciais, considere que as canções de Franz Schubert - agora domínio quase exclusivo de artistas profissionais - eram consideradas canções de salão, ideais para a família cantar e tocar.
6 Frank Rossiter, Charles Ives and His America, 27-28. Rossiter escreve sobre o pós-guerra entre a era dos Estados.
7 Mt. 18,3.

Original aqui.