sexta-feira, novembro 02, 2012

FSSPX: Voltando ao assunto da expulsão


Por Jerome Bourbon
Traduzido por Andrea Patrícia




Em 24 de outubro a direção da FSSPX anunciava em um comunicado a expulsão de Monsenhor Williamson da obra fundada por Monsenhor Lefebvre. Aos 72 anos e meio, ele que era o decano dos quatro bispos da FSSPX está a caminho de ser expulso do priorado de Wimbledon, onde viveu até ser posto na rua, sem seguro social ou dinheiro. Por anos, as relações entre Monsenhor Fellay e Monsenhor Williamson foram execráveis, entre o Monsenhor mais jovem e prelado mais velho dos quatro ordenados em 30 de junho de 1988 pelo fundador de Econe. Em 2003, o Superior Geral retirou o prelado britânico da direção do Seminário dos Estados Unidos, e em 2009, após suas declarações sobre as câmaras de gás e o número de judeus assassinados durante a guerra, a Casa Geral da FSSPX o despojou da direção do seminário de La Reja, na Argentina e o confinou, como ele disse, em um "sótão" em Londres, proibindo-o de qualquer ministério e de falar publicamente, a fim de transformá-lo em um morto-vivo.

Em 4 de outubro, em uma última carta, Monsenhor Fellay ordenava a seu confrade que fechasse, dentro de "10 dias úteis", seu blog Dinoscopus, suprimisse os seus Comentários Eleison semanais, apresentasse um pedido público de desculpas ao Superior Geral pelo mal que ele teria feito à Fraternidade, e reparasse seus erros. Em suma, Monsenhor Fellay pedia uma rendição incondicional que, evidentemente, não obteve. Na carta que publicamos na nossa última edição, Monsenhor Williamson acusa o Superior Geral de trair o legado de Monsenhor Lefebvre abrindo-se a uma adesão gradual à Roma modernista. E o prelado britânico apontou que a política da FSSPX vem mudando desde 2000 e com o início de discussões com os ocupantes do Vaticano. No final de sua carta, convida o Superior Geral a demitir-se pela - escreve ele - maior glória de Deus, pela salvação das almas e sua salvação eterna. Em outras palavras, se Monsenhor Fellay continua com suas intrigas atuais, está atando a um caminho de perdição àqueles que o seguem. Isto é o que há que se compreender. Significa que essa querela não é secundária.

Monsenhor Fellay repreendeu Monsenhor Williamson por desobedecer à autoridade legal. Mas o prelado britânico, para atender ao seu dever, teve que desobedecer, já que a fé estava em jogo. Além do mais, a Fraternidade não é conhecida por sua desobediência a uma autoridade que ela julgava legítima, mas que sentia que colocava a fé em perigo?

A CENTRALIDADE DA QUESTÃO JUDAICA

Além das diferenças certamente essenciais sobre a possibilidade ou não de haver um acordo com a Roma modernista, ou seja, colocar-se sob a sua dependência, a expulsão de Monsenhor Williamson se explica em grande parte por suas declarações revisionistas realizadas em 2009 e pelas quais nunca se retratou, apesar do grande desgosto de seu superior, que multiplicou as pressões para que ele reconhecesse a realidade da Shoah. Tudo leva a crer que a expulsão do mais agitado dos quatro bispos da Fraternidade tem sido uma moeda de troca entre o Vaticano e Monsenhor Fellay, ou seja, de alguma forma, os 30 denários de Judas. O Vaticano submetido ao sionismo internacional não poderia aceitar "normalizar canonicamente" uma Fraternidade que contava, e entre os seus líderes, com um revisionista notório. De fato, para os ocupantes do Vaticano é melhor um padre pedófilo (o que não falta na Igreja Conciliar) que um prelado revisionista. Por outro lado, desde sua expulsão, o Congresso Mundial Judaico se tem "felicitado" com a notícia, assinalando somente que ela chega "muito tarde", convidando a Fraternidade a se livrar de todos os vestígios de antissemitismo em seu meio. Que o Congresso Mundial Judaico fique seguro de uma coisa: Monsenhor Fellay vai assegurar-se disso pessoalmente. Como nos tem assegurado sacerdotes da neo-FSSPX: não se pode alimentar simpatias revisionistas ou "fascistas" na neo-FSSPX. É melhor ter inclinações modernistas. Portanto, a questão do revisionismo histórico não é secundária, até mesmo do ponto de vista teológico. Já não é mais o sacrifício e morte de Cristo no Gólgota o elemento central e a cúspide da história, mas o "Holocausto". Os imbecis e covardes não medem até que ponto a anti-religião da Shoah é uma máquina de guerra contra a religião católica, uma arma de destruição em massa da fé cristã da qual imita os rituais.

Apenas três dias após o anúncio da expulsão definitiva de Monsenhor Williamson, a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei publicou um comunicado, num tom muito conciliador, dizendo que ela concedia um prazo maior à Fraternidade para responder à declaração doutrinária de 13 de junho e à proposta de regularização canônica. Tal como indica o historiador religioso do Le Figaro, Jean-Marie Guénois "então está claro que este comunicado, inédito por seu tom tranquilizador, é a resposta do Vaticano à expulsão de Monsenhor Williamson". No dia da expulsão, o Vaticano fez conhecido, de acordo com o La Croix e o Le Figaro, que a expulsão do bispo revisionista foi recebida em Roma como "uma boa notícia".

Este caso mostra uma vez mais o caráter central da questão judaica e do revisionismo. Temo-lo visto no partido da Frente Nacional, onde Marine Le Pen, para ganhar aceitação por parte dos meios de comunicação, excluiu do partido qualquer pessoa que fosse mais ou menos revisionista ou nacionalista.

Vemos isso hoje em dia na Fraternidade, onde Monsenhor Fellay, que obviamente está disposto a fazer qualquer coisa para conseguir a sua prelazia pessoal, persegue abertamente Monsenhor Williamson. É preciso dizer que os métodos do Superior Geral da Fraternidade São Pio X são acima de tudo ágeis: Em 2003, expulsou por meio de um simples fax o padre Paul Aulagnier, que foi durante 18 anos o Superior do Distrito Francês da FSSPX e quase cofundador da Fraternidade, e em 2004, através do distrito da França, enviou os guardas e cães para o padre Laguerie no priorado de Bruges, excluindo-o do benefício que permitiria uma cobertura social. Já estamos anos-luz à frente do comportamento tradicional da Igreja Católica. Em uma diocese onde um padre se secularizava, o bispo velava para que não ficasse na rua, dando-lhe diretamente, inclusive, um pouco de dinheiro para que ele não se tornasse um vagabundo. Devemos crer que a caridade se esfriou em nossa época. Homo homini lupus; mulier mulieri lupior; sacerdos sacerdoti lupissimus (O homem é lobo do homem, a mulher é mais loba da mulher, o sacerdote é o maior lobo do sacerdote). Este ditado nunca foi tão verdadeiro como é hoje.

DEPOIS DA FRENTE NACIONAL, A FSSPX

Hoje a Fraternidade passa pelo que vimos acontecer alguns anos atrás na Frente Nacional: os dirigentes sedentos de reconhecimento, de normalização, de honorabilidade, de respeitabilidade, não suportando serem demonizados e marginalizados, traem os "fundamentais", mostram-se afáveis e débeis com os inimigos, mas mostram-se sem piedade com aqueles que se recusam ao aggiornamiento. Por causa das declarações mais que ambíguas de Monsenhor Fellay sobre o Vaticano II, entusiastas com Bento XVI não tem faltado nos últimos meses. O padre Chazal, que fundou com outros quatro sacerdotes nos Estados Unidos uma FSSPX de estrita observância para se opor a esse processo de adesão, produziu um texto: "Yo Excuso al Concilio", onde estão compiladas as mais desconcertantes declarações de Monsenhor Fellay nestes últimos tempos.

Sacerdotes da Fraternidade, refratários ao atual processo de adesão, nos confiaram que o ambiente está execrável em numerosos priorados por causa de divergências entre os "acordistas" e "antiacordistas"; sacerdotes que discretamente mudaram seu endereço eletrônico do priorado por medo de serem espionados por seus confrades perto de Menzingen. Um sacerdote francês recebeu recentemente uma admoestação canônica por ter enviado confiadamente um texto antiacordo a alguns confrades, um dos quais o denunciou à Menzingen, sede da Casa Geral.

FOGO NO EXPULSO!

Como nos processos estalinistas, Monsenhor Williamson não teve o direito de fazer valer a sua defesa, não tem tampouco o direito de recurso e de pedir aos superiores distritais para que digam tudo de ruim que pensem sobre o bispo expulso. Por uma questão de zelo, para manter tudo sob controle, certos superiores tomam eles mesmos a iniciativa. Mal a expulsão tornou-se oficial, o distrito sênior da Itália, o padre Don Pierpaolo Maria Petrucci e, temos a certeza, "todos os sacerdotes do distrito da Itália da FSSPX" (nenhum faltou ao chamado), fizeram um comunicado no qual se diz: "Com a dolorosa expulsão de Monsenhor Williamson da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o distrito italiano confirma que esta é justificada por razões puramente disciplinares que se prolongaram por alguns anos” (sic! Os inferiores devem confirmar o quão bem fundamentadas são as decisões de seu Superior?). “Querer ligar esse triste acontecimento com uma vontade de ruptura doutrinal frente à “Igreja conciliar" é puramente arbitrário, calunioso e injustificado em relação à última declaração do Capítulo Geral e dos acontecimentos recentes, o que o futuro vai mostrar de forma inequívoca". Má sorte: três dias depois, a Comissão Ecclesia Dei emitiu um comunicado muito confiante na perspectiva de um acordo. Será que eles mentiram? Acho que não!

O superior do distrito da Alemanha, o padre Franz Schmidberger, grande amigo de Josef Ratzinger diante do Senhor, passou a cuspir em Monsenhor Williamson acusando-o de ser um rebelde. Mas o Arcebispo Lefebvre não foi igualmente julgado como rebelde por muitos? Notemos a anedota que é a carta de expulsão de Monsenhor Williamson enviada por Monsenhor Fellay em 22 de outubro de Platte City e não de Menzingen. Portanto foi durante uma viagem que o Superior Geral escreveu este decreto como um homem de negócios que desdenhosamente rejeita um lacaio entre dois vôos. Digamos claramente, com o risco de fazer inimigos (já temos o hábito!), que essa desumanidade, essa secura de coração nos inspira repulsa e indignação. Não é suficiente falar com o ar inspirado de espiritualidade e santidade para ser estimável. Há muitos mais falsos devotos do que autênticos místicos, muito mais hipócritas mitrados do que verdadeiros servos de Deus. Sem dúvida existe ciúme nesta decisão. Monsenhor Williamson foi professor de teologia do jovem Bernard Fellay em Econe, é formado em literatura na Universidade de Cambridge, é um brilhante intelectual, engraçado, de mente afiada. Isso não é perdoado em certos círculos eclesiásticos, como Monsenhor Fellay que foi tesoureiro da Fraternidade durante 12 anos, que se expressa arduamente e que não brilha por sua erudição nem por sua fineza de espírito, mesmo sendo ele um manipulador fora de série ao ponto de ter posto a Mãe de Deus em sua política de adesão-apostasia à Roma modernista. Desde 2006, multiplicou as "Cruzadas do Rosário", onde ele apresentou como "milagres" da Santíssima Virgem o Motu Proprio de julho de 2007, que reduziu a Missa Tridentina a uma "forma extraordinária do rito romano" e ao levantamento (não a declaração de nulidade do decreto de 1 de Julho de 1988) das excomunhões em 21 de janeiro de 2009, levantamento que não foi aplicado nem a Monsenhor Lefebvre nem a Monsenhor de Castro Mayer, os dois consagrantes ainda considerados excomungados.

O FERROLHO QUE FALTAVA SALTAR

Após a entrevista de 13 de junho entre Monsenhor Fellay e os líderes da Congregação para a Doutrina da Fé, a Fraternidade fez saber que o preâmbulo doutrinal retocado pelo Vaticano era "inaceitável" (circular Thouvenot 25 de junho). Monsenhor Fellay havia dito, após as ordenações em Econe, que as relações entre Roma e a FSSPX estavam em "ponto morto", e ao finalizar um retiro para sacerdotes em 7 de setembro voltou a dizer que o texto não convinha, que se enganou e que o haviam enganado, enfim, que tudo havia terminado. Mas eis que nós nos inteiramos pelo comunicado de 27 de outubro da Comissão Ecclesia Dei de que Monsenhor Fellay não rejeitou o Preâmbulo Doutrinal, ao contrário do que ele disse, senão que em uma carta datada de 06 de setembro pedia por um período de estudo e reflexão adicional antes de responder. Tudo nos leva a crer que a expulsão de Monsenhor Williamson era o ferrolho que estava faltando saltar para levar a termo sua política de adesão à Roma modernista usando sem cessar uma linguagem dupla, multiplicando as ambiguidades à maneira dos modernistas e dos liberais, a fim de neutralizar qualquer oposição interna. Isso também permitiu dividir os três bispos que se mostraram unidos contra a política de adesão do Superior Geral em sua carta de 7 de abril. Com efeito, após o Capítulo Geral, Monsenhor de Galarreta mudou de lado, e agora defende a política de Menzingen. Em seu discurso de encerramento da peregrinação anual a Lourdes em 28 de outubro, ele não deu uma palavra de compaixão ou simpatia por seu confrade no episcopado, dizendo somente de maneira alusiva que a sua "partida" (sic!) não é uma tragédia! Quanto a Monsenhor Tissier de Mallerais, depois de denunciar na primavera toda forma de adesão a Bento XVI, fechou-se em silêncio desde o Capítulo. Entretanto aconselhou ao padre Chazal que, ainda que ele estivesse de acordo com a sua análise, deveria submeter-se a Monsenhor Fellay, e sabemos de uma fonte muito segura que também exortou Monsenhor Williamson a encontrar uma solução amistosa com Menzingen. Em poucos meses tudo mudou: de três bispos contra Monsenhor Fellay, não restou mais que um. O Superior Geral já não tem mais preocupações: ele poderá realizar o acordo com Bento XVI.

Hoje acontece na Fraternidade o que aconteceu na Igreja depois do Concílio Vaticano II: o autoritarismo não usou de misericórdia para dissuadir os recalcitrantes de se expressar ou agir. Em nome da obediência se pede aos sacerdotes que apóiem a política de aproximação com o modernismo. Mas essa política é suicida: cada vez que foi provada no passado, debilitou o campo da resistência tradicionalista ao Vaticano II. As discussões entre Monsenhor Lefebvre e o Cardeal Ratzinger em 1987-1988 certamente fracassaram, mas elas deram lugar à criação da Fraternidade de São Pedro, à divisão de Le Barroux. As discussões entre a FSSPX e o Cardeal Castrillon Hoyos levou à adesão de Campos e do padre Aulagnier.

Hoje, essas discussões levam à expulsão do decano dos quatro bispos, o que não é pouco, já que a Fraternidade tinha afirmado frequentemente que uma das provas de seu caráter providencial era precisamente a união perfeita entre os quatro bispos. Um argumento já extinto.

O QUE MONSENHOR WILLIAMSON FARÁ?

Falta saber o que fará agora Monsenhor Williamson. Em seu último Comentário Eleison intitulado "Grave Decisão", ele previne que "não está pensando em se aposentar". Mas sua situação não é fácil. Por agora não dispõe de nenhum meio real que lhe permita construir um seminário, capelas, priorados, escolas. Além disso, ele tem 72 anos. Certamente Monsenhor Lefebvre não era mais jovem na época da fundação de Econe. Mas em quatro décadas as coisas mudaram radicalmente. Cada vez há menos católicos. Na época dos trinta gloriosos, havia muitas famílias de bem, o que não acontece agora. Além disso, o preço dos imóveis disparou e são necessárias somas colossais para comprar qualquer lugar nas metrópoles ocidentais. Além disso, mesmo no campo dos católicos hostis ao acordo, seja pela personalidade ou por certas opiniões do prelado britânico, não há unanimidade. Alguns o reprocham por ter sido consagrado sem permissão, outros de ser lefebvrista, outros por crer em Garabandal e Maria Valtorta, outros por reconhecer a autoridade de Bento XVI opondo-se a ele, outros mais (ou os mesmos) por haver aprovado o Motu Proprio e o levantamento das excomunhões. Isto significa que o seu êxito parece aleatório. Enquanto isso se constata um grande cansaço entre os católicos da tradição. Poucos ainda têm o fogo sagrado dos que valentemente se opuseram contra as reformas conciliares de 1970. O conforto (mas também as preocupações) da vida moderna, a preguiça intelectual, a ausência ou a falta de vida de oração, a descristianização geral em diferentes graus, alcançaram os homens do nosso tempo, os estragos do liberalismo e do relativismo bastam para explicar toda essa tibieza. 
[NOTA DO BLOG NON POSSUMUS: Faço notar que a visão do Sr. Bourbon nos parece um pouco exagerada com relação às perspectivas futuras de Monsenhor Williamson. Temos a convicção de que Deus está do seu lado e que Ele proverá o que é necessário para que aos católicos restantes não lhes faltem os Sacramentos. Deus não abandona quando nós não o abandonamos.]

A VISIBILIDADE DA IGREJA SE REDUZ A SER DOMÉSTICA

A expulsão brutal de Monsenhor Williamson mostra de maneira evidente que nestes dias todas as resistências, reais ou aparentes, cedem, traem, se apagam ou se diluem. Isso é verdade na política, na religião e em todos os domínios. Nós não podemos ter confiança em qualquer estrutura, em nenhum chefe. A visibilidade da Igreja se reduz hoje ao doméstico. Mais do que nunca vivemos o Sábado Santo da Igreja militante. E, portanto, nas trevas espessas que nos rodeiam, neste mundo satânico e apocalíptico, de alguma maneira temos que sobreviver. Guardando a fé e a esperança. Mantendo os pés no chão e olhos erguidos para o Céu.

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Traduzido do blog Non Possumus

Original em francês: Tradinews