quinta-feira, dezembro 06, 2012

Fora do centro: Porque os Neocons Não Estão Certos

Por Peter Chojnowski

Traduzido por Andrea Patrícia

Pe. Richard John Neuhaus  


Na edição de Abril de 2003 do periódico Neoconservador First Things, o Pe. Richard John Neuhaus, ex-pastor luterano e ordenado padre católico, apresentou um "espectro" de "grupos" na Igreja Católica contemporânea. Nos extremos deste espectro, sem surpresa, você tem entre aqueles da direita, os dois mencionados sendo os "Lefebvristas" da Fraternidade de São Pio X e os Sedevacantistas, juntamente com os da esquerda, entre os quais Neuhaus inclui Gary Wills, Hans Kung, Karl Rahner, o Padre Richard McBrien, o ex-arcebispo de Milwaukee Rembert Weakland, e aqueles que poderiam cair no campo Nova Era, feminismo radical, e Teologia da Libertação. Além disso, sem surpresa, você tem o Padre Neuhaus posicionando-se no centro do espectro. Esse posicionamento, Neuhaus nos assegura, não identifica de forma alguma o centro com aqueles que não são "nem quentes nem frios", mas sim, destina-se a identificá-los como aqueles que "evitam" o extremo, aqueles cuja posição é "ponderada", "refletida" e" moderada" (1). Neuhaus diz: o "centro" é "quente", "convidativo", e, ainda, ao mesmo tempo,"legal, como em composto e sereno". Le centre c'est moi! (a), afirma Neuhaus, que, também, coloca nesta "área central" George Weigel, o Papa João Paulo II, o Vaticano II, John Courtney Murray, Henri de Lubac, Jacques Maritain, Yves Congar, Jean Daniélou, os juvenis que participam da Jornada Mundial da Juventude, e "crescentes e vibrantes redes de jovens profissionais entusiasmados com ser católico" (2). Estes são parte do "centro vital", que ele defende ao longo do artigo.

O próprio Pe. Neuhaus reconhece como é peculiar colocar essas posições teológicas, tendo em um espectro, obviamente, ideológico ou político. Ele também aponta que as pessoas que tomam uma posição geralmente gostam de afirmar que sua posição constitui o centro. Depois de ter tomado uma posição no centro, em seguida, define os "extremos" geralmente descritos em termos de esquerda e direita, liberal e conservador (3).

Quando ele, precisamente, descreve a história de sua própria posição, ele afirma:

“Sim, é verdade que na década de 1960 eu era visto como um liberal, mas eu era um liberal por razões conservadoras. Quando durante um longo período de tempo ficou claro para mim que minha posição era insustentável... Tornei-me um conservador, ou pelo menos aquilo que alguns persistem em chamar um Neoconservador” (4).

Como forma de esclarecer a sua própria posição, a do "centro", e para compensar os "extremos" de esquerda e direita, Neuhaus emprega outro neologismo, um pouco estranho "descontinuantes” (b). Os "descontinuantes", de esquerda e direita, são aqueles, ao contrário dos continuantes (b) do centro, que acreditam que as doutrinas do Concílio Vaticano II foram uma ruptura "radical com a tradição [do pré-Vaticano II] da Igreja, a diferença é que a direita lamenta e a esquerda comemora a quebra putativa" (5). De acordo com Neuhaus, estes dois "ramos" do "partido da descontinuidade" (6) estão em oposição ao centro, que entende haver uma "comunidade continuante", que é a Igreja Católica, "desde o Concílio de Jerusalém até o Concílio Vaticano II, de Pedro a João Paulo II" (7). Aqui encontramos, não só a reivindicação peculiar de Neuhaus de que só o "centro" reconhece que a Igreja Católica continuou a partir de São Pedro ao Papa João Paulo II, mas também lemos a sua identificação do centro com o Magistério. Quando se faz a leitura de sua crítica extensa a "bispos e superiores religiosos", que "voltaram-se para os popularizadores para implementar o Concílio, com os resultados mais tristes ainda conosco hoje em teologia, liturgia, catequese, e muito mais" (grifo meu) é bastante claro, que o "Magistério" com a qual ele pretende se identificar é o do Papa João Paulo II e a interpretação do Santo Padre do "infalível ensino" do Vaticano II (8).

A fim de lidar com este resumo bastante pedante e superficial das várias posições que foram tomadas em relação à situação da Igreja pós-Vaticano II, poderíamos primeiro enfatizar algo que o próprio Neuhaus afirma e, em seguida, passar por cima sem qualquer comentário:

“Era uma vez, antes do Concílio Vaticano II, havia "bons católicos" e "maus católicos", mas todos sabiam o que significava ser um católico. Agora parece que tudo está disponível para quem chegar primeiro”. (9)

Esta questão deve ser a primeira a ser apontada, embora eu acredite que Neuhaus perde a questão quando ele traz os rótulos "pré-Concílio Vaticano II" de católicos "bons" e "maus". Quando os homens ou as mulheres eram chamados de "bons" ou "maus" católicos no tempo em que não havia dúvida do que significava ser católico, os rotuladores estavam se referindo à possibilidade ou não dos membros individuais da Igreja Católica estarem cumprindo as normas e padrões de perfeição, que eram a parte prática de ser um crente batizado na Fé Católica. Você era "bom" se você cumprisse, ou pelo menos tentasse, e você era "mau" se você não cumprisse. O ponto importante, que é aparentemente perdido por Neuhaus, é que nenhum católico, "bom" ou "mau", falhava em entender o que significava ser católico. A razão é óbvia. A Fé e a moral eram ensinadas de forma clara e eram universalmente a mesma. "Bons" ou "maus", os fiéis sabiam que eles estavam associando-se com uma Igreja cuja doutrina não mudava. Sua fé nem sempre se traduzia em ação, mas eles tinham a Fé. A questão que o Padre Neuhaus nunca coloca para si mesmo é: "Por agora é tudo de quem chegar primeiro?" Por que esta agora é uma época em que podemos, mesmo aparentemente, dividir a Igreja em "esquerda", "direita" e "centro"?

A razão pela qual esta "divisão" da Igreja, teoricamente, pode até ser apresentada é por conta do fato de que Neuhaus nunca indica que há uma conexão necessária entre ter a Fé da Igreja, como a Fé sempre foi entendida e realizada e ser um membro da Igreja. Ao longo de sua discussão, "esquerda" e "direita" são separados, e o "centro" distinguido, não por causa de sua respectiva adesão ao ensino tradicional dogmático, moral e social do ensino magisterial da Igreja pré-Vaticano II, mas em vez disso, por causa de sua posição particular no "momento atual" na história da "comunidade contínua e identificável que é a Igreja Católica." (10) Por "momento atual", devemos entender, em nível eclesiástico, o atual pontificado, e no nível dogmático, devemos entender a interpretação do Papa atual do Concílio Vaticano II. Se você aderir à interpretação do Papa atual do Concílio Vaticano II, que, segundo Neuhaus, "estabeleceu um milênio de tradição" e que ele identifica com o "Magistério", você é um centrista. Se você acredita que esse ensino e a prática que procede dele, estão em desacordo com o que acontecia antes, você é um dos descontinuantes"... a diferença é que a direita deplora e a esquerda celebra a ruptura putativa. (11)

A dispensa dos descontinuantes de esquerda feita por Neuhaus só é interessante na medida em que antecipa a própria saliente adesão de Neuhaus à "Igreja de hoje", que, sustenta ele, não está, de qualquer forma, em desacordo com a Igreja de "ontem". Os esquerdistas, do tipo Rahner e Kung, são leais à "Igreja de amanhã." Por isso, Neuhaus quer dizer que eles não são leais e fiéis a este atual Papa e à sua interpretação do Concílio Vaticano II, mas sim, são leais ao "Papa Chelsea XII" e às inovações doutrinais e disciplinares que os esquerdistas acreditam que serão instituídas por um Papa, ao contrário do atual, que é "liberado pelo espírito do Concílio Vaticano II do passado e do presente" (12). De acordo com Neuhaus, "os descontinuantes de esquerda mantém-se rigorosamente responsabilizados por um futuro de seu próprio desejo." Aqui ele cita Karl Rahner:

“Você deve permanecer fiel ao papado na teologia e na prática, porque isso faz parte de sua herança em um grau especial, mas como a forma atual do papado permanece sujeita, também no futuro, a um processo histórico de mudança, sua teologia e lei eclesiástica tem, acima de tudo de servir o papado como será no futuro”. (13)

O problema com a esquerda, segundo Neuhaus, é que ela interpreta mal o Concílio Vaticano II. Se ela interpretasse o Concílio como o atual Santo Padre o interpreta, ela também estaria no "legal", "composto", "sereno", e não controverso centro católico.

Não há nada de incomum no ataque do "centro" a "esquerda", além das declarações sobre a necessidade temporária de "partilha do poder" com eles, junto com uma ameaça sutil que "seu tempo já veio e já foi", ou, como Neuhaus afirma que "a temporada tola (c) está quase no fim" (14). Esta é claramente uma declaração que indica que o Padre Neuhaus acredita que o "centro" deve ser o "partido do poder". O problema, que vem à mente ao ler sua crítica à "esquerda", é que nunca é mencionado que eles são, claramente, Neomodernistas. Na verdade, a palavra "modernismo" nunca é usada de forma alguma no ataque de Neuhaus aos "descontinuantes de esquerda". Sua crítica é que eles não estão de acordo com o "Momento católico" presente e, ao contrário, são fiéis a uma Igreja do futuro de sua própria imaginação.

O ataque de Neuhaus sobre a deslealdade e a "tolice" da esquerda, pelo menos, lida com questões concretas e doutrinas. Quando ele fala dos "descontinuantes de direita", ele só fala do Arcebispo Marcel Lefebvre rotulando o Vaticano II como "herético", "a Terra Lefebvre do cisma", "o lóbulo da orelha esquerda de Giovanni Battista Montini", "avistamentos Elvis" (quando se refere aos links em sites sedevacantistas), e "Lefebvristas", que "têm a sua sede americana em Kansas City." (15) No final do artigo, talvez em reconhecimento tácito de que ele nunca ofereceu nem sequer um argumento doutrinal, histórico ou textual provando a continuidade dos documentos do Concílio Vaticano II, e sua interpretação pelo Papa João Paulo II, com o ensinamento tradicional do Magistério pré-Vaticano II papal e conciliar, ele finalmente diz: "Pode alguém realmente acreditar que os gostos de Gary Wills ou da Fraternidade de São Pio X são o futuro da Igreja Católica?" (16).

Há uma tendência errada por parte dos católicos fiéis de que eles seriam leais ao dogma e religião tradicional da Igreja Católica ao pensar de acordo com o paradigma "espectro" que nos é apresentado pelo Padre Neuhaus e outros do "centro". De acordo com esta imagem incapacitante e ofuscante, Neuhaus e os jovens “rockers” entusiastas da Jornada Mundial da Juventude, juntamente com a Ignatius Press e locais de ensino superior como o Christendom College, podem ser identificados como católicos "conservadores" que frequentam as Missas "reverentes" e que são ligados, talvez um pouco perto demais, a um Papa conservador que está "tentando manter a linha".

Nunca foi o caso de que numa posição vis-à-vis de alguém a Igreja Católica fosse indicada pelos termos esquerda, direita e centro. A questão para os católicos sempre foi saber se uma pessoa ou grupo de pessoas concordam ou não com uma ou mais das doutrinas definidas e perenes da Igreja Católica. A questão era sobre doutrina. Será que se aderiu aos ensinamentos doutrinários da Igreja, em todos os elementos, ou havia, pelo menos, um desvio? Quando consideramos a posição assumida por Richard John Neuhaus, devemos afirmar que há uma divisão doutrinal profunda entre o que ele e outros do seu "centro" defendem e que foi defendido e acolhido sem reservas por aqueles que seguem a liderança do Arcebispo Marcel Lefebvre.

Ao considerar a natureza exata dessa discordância doutrinária, devemos nos referir a um texto, The Catholic Moment: The Paradox of the Church in the Postmodern World [O Momento católico: O Paradoxo da Igreja no mundo pós-moderno] (1987), em que Neuhaus afirma sua posição mais exatamente. É aqui que podemos encontrar a essência de sua noção de "centro". Neste texto, encontramos Neuhaus atacando o "monismo" que marcou tanto a "Cristandade antiga" e a mentalidade da Igreja Católica antes do, supostamente, não inovador Concílio Vaticano II. Por "monismo", Neuhaus está se referindo à visão de que as verdades da fé devem ser ao mesmo tempo manifestas e implementadas através de uma união entre a Igreja e o Estado. Para um homem que afirma que sua posição defende a ideia de que não há descontinuidade entre a doutrina e a prática da Igreja de dois milênios e da Igreja pós-conciliar, Neuhaus faz questão de enfatizar a grande conquista de John Courtney Murray, fortemente refletida na Declaração do Concílio sobre a Liberdade Religiosa [que] apresentou uma alternativa vigorosa aos hábitos de monismo (17).

Esses "hábitos do monismo" foram mais perfeitamente expressos na "Espanha de Franco" 1939-1975. Ficamos imaginando se Neuhaus pretende atacar mais do que o ensinamento tradicional da Igreja sobre o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando lemos: “Antes do Vaticano II, a Espanha de Franco era vista como o modelo, a "tese" da reta ordenação das relações Igreja-Estado. Outros modelos, especialmente o Americano, eram pensados como os desvios a serem tolerados até que a influência católico-romana pudesse colocá-los em linha com a tese Franquista. O Vaticano II repudiou a fórmula Franquista sobre as relações Igreja-Estado, e muito mais importante, a compreensão eclesiástica da Igreja sobre a qual ela foi baseada”. (Grifo meu) (18).

Então aqui temos o "continuante" e, portanto, "centrista" Neuhaus falando da nova compreensão da Igreja, que foi iniciada com o Concílio Vaticano II. Podemos discernir o contorno escuro do que ele entende por este "novo entendimento" quando lemos mais sobre a divergência entre a "mentalidade pluralista" do novo "centrista" católico e a "mentalidade monista" daqueles que aderem ao ensino e prática dos "maus velhos tempos" (como Neuhaus, muitas vezes refere-se ao período pré-Vaticano II). Neste sentido, diz ele, muitos cristãos têm dificuldade em entreter a possibilidade de que o pluralismo pode ser parte do propósito providencial. Certamente seria melhor, eles acham, que todo mundo no mundo inteiro concordasse com a verdade e a articulasse da mesma maneira, na mesma comunidade de fé, inclinando-se sobre o mesmo entendimento da reta ordenação do mundo. Mas isso não poderia ser melhor de forma alguma. Isso pode, na realidade, ser uma fórmula para o desastre do encerramento prematuro. (Grifo meu) (19).

O que o nosso Neoconservador católico Whig (d) está dizendo é que poderia não ser melhor se todos fossem católicos. Na sua rejeição do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, ele também está avançando a ideia de que há uma visão totalmente diferente da Igreja, da salvação, justificação, e até mesmo uma nova antropologia em ação na Igreja do "centro", a Igreja do Concílio Vaticano II e do Papa João Paulo II. Certamente, este "continuante", que despeja seu desprezo sobre os tais "descontinuantes de direita" por compreenderem que há uma oposição entre os novos ensinamentos do Concílio Vaticano II e o conteúdo doutrinário tradicional, entendem que não há um católico antes do Vaticano II que afirmaria que não seria melhor se todos no mundo fossem católicos, "concordassem com a verdade", "articulassem-na da mesma maneira", “concordassem sobre a ordem certa do mundo", e fossem parte da mesma "comunidade de Fé". Certamente, não haveria um. Certamente, até mesmo para a maioria dos Padres Conciliares no Concílio Vaticano II, a tese de Neuhaus teria sido irreconhecível. Com base nestas declarações deste porta-voz do “centro", é claro que o Padre Neuhaus não pode acreditar que é necessário ser um membro da Igreja, a fim de ser salvo.

É opinião do Padre Neuhaus que o "paradoxo" da vida cristã, que ele identifica como a vida Cristã "em um mundo que não é ainda o que é para ser [N.B.: “É" e “não é" são contradições e, portanto, podem ser parte de um paradoxo. Mas "é" e "não é ainda" não são contraditórios de forma alguma, portanto, não têm nenhum papel em um paradoxo], "resulta em nossa necessidade de viver como cidadãos "alienados no mundo", de ser um povo com experiência no paradoxo, por vezes doloroso de uma vida entre os tempos do 'agora' e do 'ainda não'”. De acordo com a Neuhaus, o "paradoxo" da vida do cristão é "o resultado do caráter pluralista da realidade em si". Citando sua inspiração, John Courtney Murray, ele afirma que: "’toda a língua [deve] confessar que Jesus Cristo é o Senhor’", mas o tempo não é esse ainda." (Grifo meu).  Se alguém devesse ser fraco o suficiente em espírito para buscar uma manifestação temporal do Reino de Jesus Cristo, como o Estado Católico, ou devesse acreditar que pertence à única igreja verdadeira, que, neste mundo é o Reino de Deus, se está a provocar um "fechamento prematuro", e, portanto, falsificando a experiência cristã apropriada. Neuhaus é mais do que um pouco condescendente e falsamente simpático quando afirma:

“Os cristãos tentam escapar do paradoxo e da sua dor, e o desejo de fazer isso é perfeitamente compreensível. Alguns escapam comprometendo-se à igreja dos verdadeiros crentes em que já não é necessário orar: "Venha o Vosso reino" porque a sua igreja (sic) é, dizem, o mesmo que o reino... A causa do discipulado é incansavelmente para sustentar o paradoxo, até que sejam liberados disso pelo próprio Deus”. (Grifo meu) (20)

Será que um católico, de esquerda, direita, ou centro, fala desta maneira? - "Sua Igreja"?

Em perfeita sintonia com o reposicionamento do Novo Calendário Litúrgico da Festa de Cristo Rei no final do Ano Litúrgico, durante o qual o Apocalipse é enfatizado, Neuhaus identificaria o "reino de Deus" - o único pelo qual os católicos têm o direito de esperar - com a Nova Jerusalém que virá depois que este mundo cansado for ultrapassado. Desejar qualquer tipo de "transformação do mundo em Cristo" – pode-se pensar no lema do Papa São Pio X: "Instaurare omnia in Christo" - é buscar um consolo e um "sustento" onde não deve haver um. Aparentemente, o Padre Neuhaus nem sequer permite-nos a consolação de nos considerarmos como parte da única Igreja verdadeira. Toda esta "espiritualidade" árida se encaixa muito bem com a natureza em geral "cerebralista" do movimento Neoconservador dentro da Igreja, cortando fora, assim, os "sustentos" normais da piedade e devoção católica tradicional. Mesmo antropologicamente falando, como podemos imaginar uma vida em que nós não nos esforçamos para realizar no mundo que atualmente habitamos os ideais que nos são dados pela Santa Madre Igreja e pela civilização viril que ela formou? Podemos, por mais tempo, olhar para os mártires que não fizeram nada a não ser dar suas vidas pelo que declararam publicamente que era a única Igreja verdadeira? Mesmo as encíclicas sociais papais fazem algum sentido para a mentalidade do "paradoxo"?

A única maneira que o Pe. Neuhaus e seus "legais" (e) centristas podem realmente afirmar que seu ponto de vista da doutrina e da vida Católica está de acordo (ou seja, continuante) com o que se praticava e acreditava universalmente na Igreja Católica antes do Vaticano II é ao adotar as ideias teológicas do Papa João Paulo II do "enriquecimento da fé" que o corpo inteiro do dogma católico sofreu como resultado do "ensinamento do Concílio" (isto é, o Concílio Vaticano II). O Santo Padre considerou que os ensinamentos aparentemente díspares da Igreja pré e pós-Vaticano II podem ser conciliados pelo recurso ao conceito teológico de "integração recíproca da fé". De acordo com o estudioso alemão Padre Johannes Dormann, este princípio, que é uma criação do ex-cardeal Wojtyla, sustenta que "uma relação de reciprocidade... existe entre o depósito da verdade revelada e a consciência conciliar da Igreja". No texto de Dormann recentemente traduzido e publicado, ele afirma que:

“O princípio da "integração recíproca de fé", portanto, tem dois polos: o ensino anterior da Igreja e o novo “ensino do Concílio". O ensinamento anterior não é abandonado. É e continua sendo "a verdade", mas a nova doutrina é "mais perfeita" ou a "plenitude da verdade". Ela contém o aspecto universal da Redenção. Isso significa que: A Redenção é para ser entendida não apenas objetivamente, mas também subjetivamente universal [isto é, todos os homens são salvos pelo simples fato de que eles são seres humanos]” (Grifo meu) (21).

A série de livros do Pe. Dormann [disponível na Editora Angelus] deve ser lida para que o aparentemente conservador "centro" seja teologicamente entendido. Nós "descontinuantes de direita" não estamos procurando por Elvis, mas se estivéssemos, pelo menos sabemos que ele saiu definitivamente do prédio!


________________________________________ 

1. Richard John Neuhaus, "The Catholic Center", First Things, abril de 2003, p. 78. 

2. Ibid., P. 83. 
3. Ibid., P. 78. 
4. Ibid. 
5. Ibid., P. 83. 
6. Ibid. 
7. Ibid. 
8. Ibid., Pp 79, 83. Ao falar sobre um colega Neoconservador, Neuhaus afirma: “Weigel se levanta firmemente com milênios de tradição, conforme estabelecido pelo Concílio e interpretado por um Papa a quem ele chama João Paulo, o Grande." 
9. Ibid., P. 78. 
10. Ibid., P. 83. 
11. Ibid. 
12. Ibid., P. 81. 
13. Ibid. 
14. Ibid., P. 83. 
15. Ibid., Pp 78,79. 
16. Ibid., P. 83. 
17. Richard John Neuhaus, The Catholic Moment: The Paradox of the Church in the Postmodern World (San Francisco: Harper & Row, 1987), p. 192. 
18. Ibid., P. 194. 
19. Ibid., P. 193. 
20. Ibid. 
21. Johannes Dormann, Pope John Paul II's Theological Journey to the Prayer Meeting of Religions in Assisi, Part II, Volume 3: The "Trinitarian Trilogy," tradução [para o inglês] Pe. Sebastian Wall (Kansas City, MO:. Angelus Press 2003), pp 31-34.


Original aqui.
______________________________
Notas da tradutora:

* Os grifos são do texto original.

(a) “O centro sou eu!”.
(b) No original respectivamente "discontinuants" e “continuantes”.
(c) Temporada tola: no original “silly season”.
(d) Whig: conforme o próprio Dr. Peter Chojnowski o termo Whig relacionado aos norte-americanos é usado para se referir aos liberais (na economia, política e religião). Informação extraída do artigo What is a Whig?, disponível aqui
(e) Sempre que aparece nessa tradução o termo “legal” ou “legais” refere-se ao original “cool”.
(f) "Cerebralista": no original cerebralist, referindo-se a cérebro.