quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Nem uma coisa nem outra

Por Robert Wyer

Traduzido por Andrea Patrícia





Cristo não representa uma ameaça para a felicidade humana. Ao contrário dos escribas e fariseus, a Sua Igreja não aumenta os encargos do homem. Apesar das reivindicações de muitos cientistas, professores, e simples pessoas comuns, a Fé Católica abraça a vida em toda a sua riqueza. A natureza humana, ferida pelo pecado e privada da amizade de Deus, não é depravada ou maligna. Deixado sozinho, porém, em um estado de pecado, o homem não pode brincar de selvagem inocente e nobre. Ele é, como diz o texto da Missa, maravilhosamente criado e mais maravilhosamente recriado.

A história da heresia, de acordo com os mestres de teologia, gira em torno de três principais mistérios da religião Católica: a Trindade, a Encarnação e a Redenção. A tendência a negar uma das duas naturezas, divina e humana, na pessoa de Jesus Cristo, distorce a verdadeira doutrina necessária para a salvação humana. Às vezes os erros podem parecer tergiversações, mas eles são profundos e resultam em uma fabricação humana falsa e impotente incapaz de permitir que o homem caído participe, pela graça, da vida de Deus. O Arianismo, por exemplo, ensinava que o Filho era de substância semelhante ao Pai, mas não a mesma substância. A menos que Jesus Cristo seja Deus, Ele não pode satisfazer a dívida infinita devida pelo pecado do homem contra o Deus infinito. Da mesma forma, a menos que Ele seja homem, Ele não pode pagar a dívida que o homem tem. Boécio, enquanto aguardava sua execução, demonstrou que a felicidade só pode ser encontrada em Deus, seja Nele mesmo por natureza ou por partilhar Sua natureza através da adoção. Todas as outras religiões são vazias. São João da Cruz diz que Deus falou apenas uma palavra - a Palavra, e esta Palavra contém tudo o que Deus escolheu revelar. O início do Evangelho de São João, lido no final da Missa, resume e nos lembra dessas realidades.

Sem querer minimizar a incrível qualidade dessas verdades sobrenaturais, podemos ver uma semelhança em outros aspectos da realidade. Virtudes adquiridas, naturais, exigem um equilíbrio entre defeitos e extremos. A Temperança está entre a abstinência e a embriaguez; a coragem, entre a covardia e a temeridade; a liberalidade, entre ser um avarento e um perdulário. Os seres humanos são animais racionais, o que significa que eles têm corpos e almas. Nós não somos nem animais nem anjos. É fácil reconhecer humanos agindo como animais, como Circe transformando os homens de Odisseu em porcos. Por outro lado, o que o antiquado doutor da alma do romancista Walker Percy, Tom More, chama de "angelismo" pode ser pouco mais do que falsa piedade, uma recusa puritana a reconhecer e legitimamente desfrutar dos bens materiais que Deus criou. Negar qualquer um dos aspectos da natureza humana, em última análise, resulta em uma caricatura.

A Encarnação continua, fundindo o humano e o divino, usando a matéria para levar as almas humanas a Deus. Os sacramentos usam água, pão, vinho e azeite. O penitente fala, e o confessor ouve. O padre fala as palavras de absolvição, e o penitente ouve que Deus perdoou seus pecados. Nós clamamos por esta expressão audível de misericórdia. A liturgia segue os ritmos das estações do ano, faz uso de cores, cânticos, sinos e incenso. Deus santifica as áreas da vida humana, fazendo com que o ato do casamento produza prole, os candidatos para o reino dos céus, ao mesmo tempo em que a união física deixa marido e mulher mais próximos. Só a Igreja Católica tem consideração tão alta por cada aspecto da vida que temos aqui e agora. Nossa sanidade e nossa santidade, a nossa felicidade aqui e agora, e na próxima vida, tudo encontra seu lugar certo na existência ordenada.

Como indivíduos, nós existimos como parte de algo maior que nós mesmos. Nós encontramos nossa pessoal razão de ser apenas reconhecendo e nos juntando ao corpo maior. O individualismo radical, operando politicamente e filosoficamente no libertarianismo, corta a pessoa de sua comunidade. Ninguém perguntou a qualquer um de nós se queríamos viver; outras pessoas - os nossos pais - tomaram a decisão mais fundamental da nossa existência para nós. Ninguém pode vir a ser sem pelo menos outros dois: mãe e pai. A família é uma realidade fundamental. Ela toca cada um de nós, e percorre um longo caminho para tornar cada um de nós o que somos, para o bem ou para o mal. Não poderia haver estado ou nação ou cidade ou bairro ou escola ou paróquia sem indivíduos, mas o fato de que formamos parte de uma comunidade maior não nos faz simplesmente engrenagens na grande roda, os átomos subsumidos, forjadores de um bem comum à custa de nossos bens privados. Nós não somos nem marxistas nem libertários porque todos dois falham em apreciar a fusão do indivíduo e da comunidade, corpo e alma, humano e divino.

Ficar irritados, e até mesmo exasperados, com um governo inchado, intrusivo e positivamente mau em algumas de suas políticas, não significa que somos revolucionários. Toda autoridade vem de Deus, e não podemos recusar essa ordem mais do que podemos ignorá-Lo.

O homem moderno pensa que ele não pode ser ele mesmo, a menos que ele exerça autonomia. "Eu preciso ser feliz, preciso do meu próprio espaço, eu vejo as coisas de forma diferente". Ele procura criar seu próprio universo, e ninguém – incluindo Deus Todo-Poderoso – pode dizer a ele o que fazer. Ao jogar fora o jugo suave de Cristo, ele se atrapalha desesperadamente com o que ele acha que vai fazê-lo feliz: uma mulher mais jovem, um carro mais rápido, um uísque mais velho. Se ele é rico, ele pode distrair-se por mais tempo, ampliar sua busca em mercados estrangeiros e exóticos. Nenhuma quantidade de bens finitos jamais poderá satisfazer um desejo infinito; nós fomos feitos para desejar Deus, e só Ele pode satisfazer nossos ilimitados limites, porque só Ele é sem limite.

Em Ortodoxia, Chesterton compara a Igreja a um veículo, correndo entre duas partidas possíveis do seu caminho. Chegar ao final de nossa jornada significa continuar vertical, um animal que se põe em suas patas traseiras enquanto vira para o alto para considerar as estrelas acima, as estrelas que Deus nomeou - cada uma brilhando em seu lugar nos céus.

Original aqui.