quinta-feira, abril 04, 2013

Sua função será manter a Fé

Entrevista com D. Williamson*
Traduzido por Andrea Patrícia

 


Monsenhor Williamson esclarece a realidade das consagrações de 1988, "triunfo da objetividade", mediante as reflexões que Monsenhor Lefebvre brindou aos quatro futuros bispos durante o retiro preparatório, especialmente sobre a real possibilidade de acordos com Roma e sobre sanções canônicas.


Monsenhor, a dez anos de distância, que recordação o senhor guarda daquele dia inesquecível das consagrações episcopais de 30 de junho de 1988?
Se deve-se resumir em uma palavra, eu diria que as consagrações de junho de 1988 deixaram uma memória de objetividade.
Mas o que o senhor entende por objetividade?
Para mim constitui verdadeiramente a essência mesma do espírito e do combate de Monsenhor Lefebvre. Para um mundo que se afoga no subjetivismo, é a Tradição que prevalece sobre o magistério subjetivo. Há um Deus. Há uma verdade. Há um Salvador. Hoje se Lhes trai. A nós cabe fazer tudo ao nosso alcance para não traí-Los. Isso é tudo.Monsenhor Lefebvre falou que chegaram, apesar de tudo, a um acordo com Roma?
Pelo contrário, ele nos mostrou que não havia acordo possível com essa Roma: "Acabou", - ele nos disse, durante o retiro preparatório – já não há negociações entre Roma e nós. Quanto mais se reflete, mais se percebe de que suas intenções não são boas. Vejam o que aconteceu com Dom Agostinho, o padre de Blignières. Eles querem que o Concílio tenha domínio sobre tudo, mas deixando para nós um pouco de Tradição.

"Monsenhor de Saventhem me disse que ainda podemos concordar. Mas eu respondo que não se trata de minúcias. Eles permanecem sendo o que são. Não se pode colocar nas mãos de tais indivíduos. É uma ilusão. Nós não queremos deixar-nos devorar. Seja Fontgombault ou Port-Marly, Roma sempre dá razão ao bispo conciliar, e acaba com a Tradição.
"Dom Gérard nos disse que um acordo com Roma nos daria um campo imenso de apostolado. Sim, mas num mundo muito enganoso, ambíguo, o que acabaria por nos apodrecer. Ele insiste: "Se você estivesse com Roma, teria mais vocações". Mas estas vocações, se se disser qualquer coisa contra Roma, iria corromper nossos seminários! E se eu pudesse concordar com Roma, de alguma forma, os bispos nos diriam: 'Bem venha com a gente ", e confusão se estabeleceria pouco a pouco".

Monsenhor Lefebvre evocou as consequências previsíveis, internas ou externas, de tais consagrações para a Fraternidade São Pio X?
Sim, eis aqui o que ele nos disse: "Se alguns nos abandonam como resultado das consagrações episcopais, não será mais grave do que em 1977, quando vários professores e seminaristas nos deixaram de repente. Todos estes acabaram por submeter-se e agora estão espalhados.
"Uma excomunhão eventual não vale nada uma vez que eles (Roma) não defendem o bem da Igreja e querem acabar com a Tradição, mas excomungar-nos vai incomodá-los. Andam um pouco como um loucos procurando por todos os meios fazer-me duvidar: Monsenhor de Saventhem, um bispo tcheco, etc., pretendem colocar-me obstáculos. Eles queriam enviar para Madre Teresa de Calcutá, mas não vale a pena recebê-los. Nós não vamos tratar este assunto indefinidamente.
"Basta ler a carta daquele sacerdote, antigo seminarista de Ecône, trânsfuga a Roma (Seminário Mater Ecclesiae), que quis influenciar nossos seminaristas, afastando-os de nós, mas a quem as artimanhas da dita Roma cansou e desiludiu depois. Ele admite na carta que eles são tratados como párias, eles são forçados a tirar suas batinas, que eles não são recebidos. Ele descobriu o que é essa Roma.
"E então, quem nos garante que eles manteriam sua palavra conosco? Essa Roma que quer fazer-nos retroceder. Foi Deus quem nos protegeu ao fazer o protocolo de 5 de maio permanecer parado. Monsenhor de Saventhem me objeta: "São pequenos detalhes e nada mais!" Respondo dizendo que sobre tais detalhes gravita um peso enorme. Desejam conduzir nossas obras até o espírito conciliar. Com o protocolo de 5 de maio haveríamos morrido logo, não teríamos durado um ano.
"Atualmente estamos unidos, mas se, pelo contrário, tivesse coalhado o protocolo em questão, andaríamos agora necessitados de contatos, reinaria a divisão dentro da Fraternidade, tudo nos dividiria. Talvez novas vocações tivessem afluido a nós, porque estaríamos “com Roma", mas estas não suportariam qualquer distanciamento com a Santa Sé: seria a divisão. Atualmente, as vocações se expurgam por si mesmas.
"Monsenhor Decourtray oferece a um dos nossos sacerdotes, Pe. Laffargue, uma paróquia tradicional, com a condição de que ele deixe a Fraternidade. Nos tiram nossos fiéis nos levam cautelosamente ao Concílio. Assim, por nossa parte, salvomos a Tradição e Fraternidade distanciando-nos prudentemente. Nós demos uma prova leal para ver se poderíamos continuar a Tradição, mantendo-a em um lugar seguro; mas foi impossível: eles mudaram, mas para pior. Por exemplo, a visita do Monsenhor Casaroli a Moscou".

Monsenhor lhes falou também algumas palavras com relação a seu papel de bispos?
Sim, o nosso papel é pregar a fé. A nossa situação não tem nada de cismática, e o que está em jogo é a preservação da fé na Igreja, apesar de uma autoridade que já não professa esta fé.
“Serão vocês bispos para a Igreja, a serviço da Fraternidade, como se apontava no protocolo de 05 de maio. Somente a Fraternidade é interlocutora válida com Roma. Ao Superior Geral caberá reatar o contato com Roma eventualmente, no momento oportuno. Roma só tratou comigo por causa da Fraternidade. É um órgão válido.
"O seu papel consistirá em administrar os sacramentos da ordem e da crisma, preservar a fé com as confirmações e proteger o rebanho. Vocês serão um grande apoio para a Fraternidade. Guardem entre si uma grandíssima união para dar força à Tradição. Será preciso que reine uma grande harmonia entre vocês, sem muitas iniciativas pessoais, por exemplo, no caso de pedidos de ordenação. Não ordenem indivíduos isolados, e se se trata de uma comunidade, examinem-la bem.
"Será preciso viajar todos os anos, a cada dois anos, para as crismas. Quanto as ordenações, celebro atualmente de 20 a 25 cerimônias por ano, mas a partir de 30 de junho ficarei aqui! Pois haverei terminado o meu trabalho ao dar a Fraternidade a moldura que precisa. E então, como eu disse para o Papa, quando a Tradição voltar a Roma, já não haverá problemas.
"E se vocês são bispos sem a aprovação do Papa, isso em si não é cismático, porque o antigo Código de Direito Canônico não considera isso um ato cismático. Só foi cismático a partir de Pio XII e da Igreja popular chinesa. Nós não criamos nenhuma Igreja paralela.
"Em Roma eles tem AIDS espiritual; já não tem sistema de defesa. Não creio que se possa dizer que Roma não perdeu a fé. Com relação a possíveis sanções, os aborrecimentos diminuem com o tempo. As pessoas comuns vão entender, será o clero que vai reagir. As testemunhas da fé, os mártires, sempre tiveram de escolher entre a fé e a autoridade. Nós vivemos o processo de Joana d'Arc. Somente que a nós não dão um único golpe duro, mas a perseguição dura vinte anos!".

Agora dura já trinta anos. Houve alguma mudança?

Essencialmente nenhuma. Monsenhor Lefebvre foi capaz de discernir e traçar com visão e coragem as linhas principais de nosso combate. Cabe a nós seguir! Cabe a nós resistir!


*Bispo Richard Williamson, revista
Tradición Católica, nº 138. 
Original aqui.