quinta-feira, maio 23, 2013

Inferno: Uma Demanda da Bondade Divina

Por Atila Sinke Guimarães
Traduzido por Andrea Patrícia
  
 

Um anjo, à esquerda, tranca as almas condenadas na boca do Inferno. – Salmo de Henry de Blois, c. 1150


As recentes alocuções de Sua Santidade João Paulo II sobre o Inferno e o Purgatório reabriram a discussão sobre a existência desses lugares. Após o Concílio Vaticano II e as inovações que ele gerou, muitos progressistas têm questionado essas realidades. O Inferno não seria um lugar físico habitado pelos demônios estabelecido no centro da Terra, para onde as almas dos réprobos vão depois de seus julgamentos particulares para permanecer lá para todo o sempre. Seria um estado de espírito de sofrimento ao qual o homem estaria sujeito nesta vida. Uma posição semelhante é tomada sobre o Purgatório, o qual também não seria um lugar, mas uma fase de purificação aqui na terra.
Diante da evidência de frases do Antigo e do Novo Testamento que caracterizam o inferno como um lugar e o constante ensinamento católico sobre o assunto, alguns autores progressistas admitem sua existência. Mas eles afirmam que após a Redenção de Nosso Senhor, o inferno foi esvaziado. Vazio, pelo menos de almas condenadas, pois esses teóricos "esquecerem" de lidar com os demônios que estão presos ao Inferno. De acordo com esta noção, os demônios foram reduzidos às grandes fileiras dos "desempregados." Eu não sei como os progressistas resolvem esta questão. Parece-me que, a fim de acomodar a nova teoria, os demônios teriam de deixar de ser indivíduos e tornar-se forças cósmicas. Mas este não é o momento de mergulhar em mais detalhes sobre este assunto.
Seja a primeira tese - que o inferno não existe - ou a segunda - que o inferno existe, mas está vazio - a premissa básica progressista é a mesma. Costuma-se apelar para um sofisma dependendo da Bondade Divina, que vou resumir: "Deus não seria infinitamente bom se Ele desejasse o eterno sofrimento para inúmeras almas. Portanto, o sofrimento do Inferno não existe, ou, se existisse, teria sido esvaziado com a Redenção". Um raciocínio semelhante é empregado com o objetivo de eliminar o Purgatório.
Para responder a este sofisma, eu poderia argumentar a necessidade da justiça de Deus para equilibrar Sua bondade e mostrar que as duas características que existem substancialmente em Deus não podem ser contraditórias. A conclusão é que o Inferno, sendo uma exigência de justiça, está em harmonia com a Bondade Divina.
No entanto, no artigo de hoje, eu quero me situar apenas no âmbito da Bondade Divina e neste campo fazer a minha discussão com os progressistas.
Suponha que Deus eliminasse o Inferno. Qual seria a consequência sobre os homens que vivem nesta terra? Deixe-me distinguir entre os homens maus e os bons.
Uma vez que um castigo eterno não existiria mais, os homens maus se sentiriam com toda a liberdade para executar todos os crimes que eles gostariam de cometer em suas vidas pessoais, bem como na sociedade. Ou seja, os maus tenderiam a prejudicar-se, dando rédea solta às suas paixões e machucar os outros a fim de beneficiar a si mesmos e seus próprios interesses. Mesmo entre os próprios homens maus, a vida na Terra seria muito pior e mais infeliz.
Para os homens bons, o fim da existência do Inferno seria um forte desestímulo para praticar o bem, uma vez que "temor de Deus é o princípio da sabedoria." Após um dinamismo psicológico semelhante ao do mau, o bom tenderia a cuidar menos do combate à suas más tendências em suas vidas privadas. Além disso, eles teriam que permitir que o mal que eles veem ao seu redor ficasse impune. Pois, se o próprio Deus deixou de punir, então para imitá-lO se exigiria dar liberdade para o mal na vida em sociedade.
Agora, se o mal não fosse punido, então a luta iria desaparecer e, com ela, a coragem para enfrentar os adversários, a nobreza de espírito que subjaz a dedicação a grandes combates, a glória que vem do conceito de não fazer concessões ao inimigo, o sentido de se sacrificar por um irmão na luta, e a competição saudável no progresso da militância católica. Ou seja, o bom iria perder aquilo que o dignificava e o tornava respeitável: a sua capacidade de instilar o medo no inimigo. Ele viria a ser um bom sem fibra, um bom sem a capacidade de atrair. Se Deus abolisse o Inferno, a vida dos homens bons se tornaria extremamente pior.
Portanto, a consequência prática imediata da abolição do Inferno como um lugar real para a punição das almas após a sua existência terrena seria a de transformar a vida na Terra em um inferno tanto para o bom quanto para o mau. Não seria, na realidade, uma abolição do Inferno, mas a transferência de local e uma extensão: em lugar de estar situado no centro da terra, o inferno viria a existir em sua superfície, em lugar de punir apenas o mau, iria afligir indiscriminadamente o bom e o mau.

Para evitar todo esse sofrimento para os bons e os maus nesta terra, Deus criou e mantém o Inferno como um lugar destinado aos condenados. Mais do que um ato de justiça em relação ao mau que morre, é uma demanda da bondade divina no que diz respeito às boas e más pessoas que estão vivendo.

 
Original aqui.