quinta-feira, junho 06, 2013

Olhos da Alma

Por Abigael Quain
Traduzido por Andrea Patrícia


Se o objeto de arte não é mais elevação espiritual através da apresentação do belo, a que finalidade ela pode servir?
A arte hoje parece ter sido degradada pelo homem para ser utilizada como um meio de autoexpressão individualista ou para propaganda. E quando vemos uma obra desta "arte", costumamos contemplar o mundano, o medíocre, o sentimental, o pervertido, ou algo tão pessoal para o artista que se torna incompreensível e completamente desprovido de qualquer interesse para qualquer um de nós parar e pensar, e depois de alguns minutos de cérebro soçobrando, nós podemos apenas nos perguntar: por quê?

Então, por que os homens fazem a arte? E por que deveriam?
Na faculdade, descobri que a maioria dos estudantes de arte foi doutrinada para acreditar verdadeiramente que a arte é tudo sobre si, tudo sobre o indivíduo. Expressar-se é a única regra quando se trata de fazer arte moderna, e as regras mais técnicas só são supostamente aprendidas com o objetivo de quebrá-las.
Na verdade, a arte significa um meio de expressão para o artista, em que, como somos criaturas de Deus, sugerindo a criação, a arte é a forma privilegiada para o artista imitar o Divino Criador: 1) no próprio ato de criar, e 2) pelo fato de que "a arte imita a natureza". A natureza, sendo criada por Deus, é definida como um ideal de imitação do homem, pois cumpre em si todos os requisitos que a arte, para ser bela, deve possuir: integridade, ou a ordem certa de todos os seus componentes para si como um todo (unidade); proporção certa, ou a proporção adequada de cada parte correspondendo à outra, e, finalmente, brilho e esplendor da forma que ela deve possuir.
A Arte é para expressar, ela deve ser capaz de lhe dizer algo sobre os próprios artistas, o que eles têm como verdade, como eles percebem a beleza e o quão bem eles podem mostrar essa a verdade e beleza.
Como o modo de ação segue a disposição do agente, o jeito que o homem é, é o jeito que são suas obras. Através da força da Arte presente neles, eles são de algum modo a sua obra, antes de fazê-la; eles são conformados a ela, de modo que eles possam formá-la. (Jacques Maritain)
Mas isso não é o "porquê" da arte, ou, pelo menos, não deveria ser.
O banal, o medíocre, o hediondo francamente é muitas vezes apresentado para nós, para nossa veneração agora, e qualquer crítica ou resistência faz com que a pessoa seja tachada de chauvinista [modernismo, liberalismo, irreligião] ou algum outro rótulo socialmente letal. (Ed Faust)

Qual é a finalidade da Arte?
"Ad Maioram Dei Gloriam": devemos fazer tudo "para a maior glória de Deus". Depois dessa razão mais óbvia, a arte deve, como tudo, aproximar-nos de Deus através de nossa contemplação do belo. Precisamos primeiro pensar sobre a beleza que desejamos criar, e então usar todos os esforços para formar essa beleza. Mas como podemos formar qualquer coisa bela que não seja um reflexo e derivação da Beleza Divina? O grande pintor e escultor renascentista Michelangelo disse:
“Toda beleza que é vista aqui embaixo por pessoas de percepção assemelha-se mais do que qualquer coisa a fonte celeste a partir da qual todos nós viemos”.
Então, não podemos evitar ser levados à contemplação Daquele Que É A Beleza Em Si quando fazemos uma bela obra de arte.
A Arte é para ser bela. É bela para que possa facilitar a compreensão do homem das belezas de Deus e ensinar-nos a Verdade. "A beleza do mundo visível é um reflexo de sua beleza invisível" (Hugo de São Victor).
Então a finalidade da arte é: 1) glorificar a Deus, 2) nos atrair para Ele através da contemplação do belo, 3) mostra-lO para nós e nos ensinar de uma forma mais humana. O objeto da Arte é a elevação espiritual através da apresentação do belo. Portanto, a verdadeira questão é: o que é a beleza?
São Tomás de Aquino define a beleza como "id quod visum placet – aquilo que, quando visto, agrada". Esta resposta parece dar-nos uma perspectiva bastante subjetiva, relativo ao "a beleza está nos olhos de quem vê". E sim, a beleza é relativa; relativa ao que você acredita como verdade, relativa ao que você vê, e ao que você, por sua educação, estado espiritual, e influências semelhantes, está predisposto a ver.
O que nós vemos?
A beleza é uma qualidade das coisas que só podem ser percebidas por uma mente. É, portanto, uma realidade de ordem intelectual e espiritual”. (Dr. Peter Chojnowski)
Assim, para encontrar a beleza real - que, se é a verdadeira beleza, em última análise, nos leva de volta a Deus - temos que pensar. "O poder-chefe do saber [do homem] é a sua razão ou o seu intelecto" (Pe. Pegues, OP), e isso faz sentido para nós criaturas racionais. A arte deve ser bela, e isso é para que possamos conhecer melhor a Deus como Ele é. Para saber, não temos escolha a não ser usar os nossos intelectos. Logo, segue-se que para percebemos a beleza, temos que ver com as nossas mentes, e não necessariamente com as nossas emoções ou sentimentos, como muitos católicos bem-intencionados, mas equivocados de hoje pensam.
Este uso de nossas mentes para contemplar a beleza na arte e saber parece apontar para uma relação definitiva entre a beleza e a verdade. "Mas, é claro!" nós exclamamos: "Deus é ambos!". E, de fato, a tríade de Bondade, Verdade e Beleza é tão relacionada entre si que faz com que seja chamada de "Trindade Transcendental", e por Hilaire Belloc como "inseparável". Então, a arte significa transmitir a Verdade?
O artista católico esforça-se para ter um vislumbre do mundo como é conhecido pelo Verbo Eterno em toda a sua potencialidade, tanto na ordem natural quanto na sobrenatural. (Ed Faust)
"Conhecer a verdade é conhecer as coisas como elas são" (Pe. Pegues, OP). O que é mais "como as coisas são" do que a forma como Deus as vê? Mas como nós, de compreensão imperfeita e finita, podemos retratar o pensamento do Infinito?
Desde o início, nós usamos símbolos para ajudar a mente humana a compreender "as insondáveis ​​riquezas de Deus". Dr. David Fontana, em sua obra A Linguagem dos Símbolos, descreve um símbolo como representando "alguma sabedoria profunda e intuitiva que escapa da expressão direta", e mais tarde como uma "expressão de um poder profundo, interior, do qual temos consciência, mas não podemos encapsular completamente em palavras". A arte cristã primitiva usa o triângulo simples para explicar melhor a unidade e igualdade das três pessoas em uma, um mistério, sim, mas com a ajuda de tais imagens simbólicas, temos muito mais para pensar.
O ouro é uma cor simbólica universal que representa a vida divina de Deus. Por quê? É o mais precioso dos metais, o mais luminoso, imaculável e durável. Há muito para meditar nisso.
Cores simples, esquemas de linhas, e representações realistas verdadeiras como estas, conhecidas como símbolos, direcionam a mente para a contemplação das coisas maiores e mais profundas, verdades ocultas, que meros realismos podem deixar de fazer. No entanto, as imagens que utilizam estes símbolos devem ser entendidas com a mente, como fundamentado acima. E estes, sendo os ícones os melhores e mais óbvios exemplos do bom, belo e verdadeiro, e consequentemente uma linda arte simbólica, podem ser bastante desagradáveis para as sensibilidades de certas pessoas. Mas quando isso acontece, nós temos que perguntar se realmente estamos vendo com o instrumento certo. É a sua mente ou seus sentidos que não gosta dessas firmes verdades?
Algo deve ser compreendido. A verdade é bela, mas não necessariamente "bonita". Quando você vê um ícone de Nossa Senhora de Vladimir, ela pode não ser a sua ideia de bonita ou atraente. Mas, no entanto, ela é linda, porque ela é verdade, e essa verdade é representada em seu ícone. Se você viu uma imagem do martírio de Edmund Campion e outros que morreram na defesa corajosa da verdade durante a Reforma Protestante, eu lhe asseguro, se a imagem fosse verdade, não seria algo "bonito", seria grotesco. Seus corpos quebrados, assolados, sendo desentranhados e cortados em pedaços seriam algo muito distante de fazer você se sentir bem. Mas seria uma cena gloriosamente bela precisamente por causa da verdade retratada. A verdade nem sempre é bonita, e o bonito nem sempre é verdade!
Disney nos ensina a "olhar com os nossos corações" e deixá-los decidir. Mas, por favor, olhe com sua alma!

Fontes:
Dr. Peter Chojnowski. "The Splendor of Form: Catholic Aesthetics", The Angelus, Julho, 1996.
Edwin Faust. "Losing Our Marbles."
David Fontana, Ph.D. The Secret Language of Symbols: A Visual Key to Symbols and Their Meaning. San Francisco: Chronicle Books, 1994.
Jacques Maritain. Art and Scholasticism, 3rd edition. Charles Scribner's Sons, 1935.
Pe. John Oesterle, T.O.P. "Art and the Moral Order."
Pe. Thomas Pègues, O.P. Catechism of the "Summa Theologica" of Thomas Aquinas. Burns, Oats, & Washbourne, 1931.

Original aqui.