quinta-feira, junho 13, 2013

Quando a negação israelense da existência dos palestinos se torna genocida

Por Ilan Pappe
Traduzido por Andrea Patrícia


Os primeiros sionistas negaram a existência dos palestinos em 1882, quando eles chegaram; é ainda mais chocante descobrir que negam a sua existência - além de esporádicas comunidades guetos - em 2013.



Em uma suntuosa entrevista dada em abril para a imprensa israelense, na véspera "Dia da Independência" do estado, Shimon Peres, atual presidente de Israel, disse o seguinte:
"Eu me lembro como tudo começou. Todo o estado de Israel é um milímetro de todo o Oriente Médio. Um erro estatístico, terra árida e decepcionante, pântanos no norte, deserto no sul, dois lagos, um morto e um rio superestimado. Sem recursos naturais além da malária. Não havia nada aqui. E agora temos a melhor agricultura do mundo? Isto é um milagre: uma terra construída por pessoas "(Maariv, 14 de abril de 2013).
Esta narrativa inventada, manifesta pelo cidadão número um e porta-voz de Israel, destaca o quanto a narrativa histórica é parte da realidade presente. Esta impunidade presidencial resume a realidade na véspera da 65ª comemoração da Nakba, a limpeza étnica da Palestina histórica[1]. O fato perturbador da vida, 65 anos em diante, não é que a cabeça figurativa do chamado Estado judeu, e sobre esse assunto quase todos no recém-eleito governo israelense e parlamento, concorde com tais pontos de vista. A realidade preocupante e desafiadora é a imunidade global, dada a tal impunidade.
A negação dos palestinos nativos por parte de Peres e sua revenda em 2013 da mitologia das pessoas sem terra expõe a dissonância cognitiva na qual ele habita: ele nega a existência de cerca de doze milhões de palestinos que vivem dentro e perto da terra a qual eles pertencem. A história mostra que as consequências humanas são terríveis e catastróficas quando pessoas poderosas, dirigindo equipamentos poderosos, como um Estado moderno, negam a existência de um povo que é muito presente e tem estado presente durante séculos.
Esta negação estava lá no início do Sionismo e levou à limpeza étnica em 1948. E isso existe hoje, o que pode levar a desastres semelhantes no futuro - a menos que seja parado imediatamente.

Dissonância cognitiva
Os autores da limpeza étnica de 1948 eram os colonos sionistas que chegaram à Palestina antes da Segunda Guerra Mundial, como o nascido polonês Shimon Peres. Eles negaram a existência dos povos nativos que encontraram, que tinham vivido lá há centenas de anos, se não mais. Os sionistas não possuem o poder no momento de resolver a dissonância cognitiva que experimentaram: a sua convicção de que a terra era despovoada apesar da presença de tantos palestinos nativos vivendo ali.
Eles quase resolveram a dissonância quando expulsaram tantos palestinos quanto podiam, em 1948 - e ficaram com apenas uma minoria dos palestinos dentro "do Estado judeu”.
Mas a ganância sionista pelo território e ideológica convicção de que muito mais da Palestina tinha que ser anexado a fim de ter um Estado judeu viável, levou a constante conspiração, e as operações militares, eventualmente, para ampliar o estado.
Com a criação do "Grande Israel", após a conquista da Cisjordânia e de Gaza em 1967, a dissonância retornou. A solução, contudo, não poderia facilmente ser resolvida desta vez pela força de limpeza étnica. O número de palestinos nos territórios era maior, sua assertividade e movimento de libertação eram fortemente presentes no terreno, e até mesmo os mais cínicos e tradicionais atores pró-Israel no cenário internacional reconheceram a sua existência.
A dissonância foi resolvida de uma maneira diferente. A terra sem povo era qualquer parte do "grande Israel" ("Eretz Israel"), que o estado estava determinado a judaizar nas fronteiras anteriores a 1967, ou anexar a partir dos territórios ocupados em 1967. A terra com povo é na Faixa de Gaza e alguns enclaves na Cisjordânia, bem como no interior de Israel. O mito da terra sem povo está destinado a se expandir de forma incremental no futuro, fazendo com que o número de pessoas encolha como uma consequência direta dessa invasão.
Esta limpeza étnica incremental é difícil perceber a menos que se contextualize como um processo histórico. A tentativa nobre pelos indivíduos mais conscientes e grupos no Ocidente e em Israel para se concentrar no aqui e agora - quando se trata de políticas de Israel - está condenada a ser enfraquecida pela contextualização contemporânea, não a histórica.
Comparar a Palestina a outros lugares sempre foi um problema. Mas, com as guerras assassinas na Síria, no Iraque e em outros lugares, torna-se um desafio ainda mais sério. O último fechamento israelense, prisão política, ou o assassinato de um jovem palestino são crimes horríveis, mas no reino da contextualização contemporânea, eles empalidecem em comparação com campos de extermínio próximos ou distantes e áreas de atrocidades colossais.


Narrativa Criminal
A comparação é muito diferente quando ela é vista historicamente, no entanto, e é neste contexto que devemos compreender a criminalidade de narrativa de Peres que é tão horrível como a ocupação - e, potencialmente, muito pior. Para o presidente de Israel, um Prêmio Nobel da Paz, nunca houve palestinos antes que ele tenha iniciado em 1993 o processo de Oslo - e quando o fez, eles eram apenas aqueles vivendo em uma pequena parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
Em seu discurso, o presidente israelense já eliminou a maioria dos palestinos. Se você não existia quando Peres veio para a Palestina, você definitivamente não existe enquanto ele é o presidente em 2013. Essa eliminação é o ponto onde a limpeza étnica se torna genocida. Quando você está eliminado dos livros de história e dos discursos dos principais líderes israelenses e laureados Nobel, há sempre a possibilidade de sua eliminação física. Pessoas invisíveis são muito mais fáceis de matar.
Isso aconteceu antes. Os primeiros sionistas, incluindo o atual presidente, falaram sobre a transferência dos palestinos muito tempo antes de que eles realmente tivessem extrudados muitos deles em 1948. A visão israelense de uma Palestina des-Arabizada apareceu em todos os jornais, revistas e conversas internas sionistas desde o início do século XX. Se alguém fala sobre o nada em um lugar onde há abundância, pode ser um caso de ignorância voluntária. Mas se alguém fala sobre o nada como uma realidade inegável, é só uma questão de poder e oportunidade antes da visão tornar-se realidade.


A negação continua
A entrevista de Peres na véspera da 65ª comemoração do Nakba é arrepiante não porque tolera qualquer ato violento contra os palestinos, mas porque os palestinos tenham desaparecido completamente de sua admiração auto-congratulatória pela realização sionista na Palestina.
É desconcertante saber que os primeiros sionistas negaram a existência dos palestinos em 1882, quando eles chegaram; é ainda mais chocante descobrir que negam a sua existência - além de esporádicas comunidades guetos - em 2013.
No passado, essa negação precedeu a limpeza étnica dos palestinos - um crime que foi apenas parcialmente bem sucedido, mas pelo qual os autores nunca foram levados à justiça. Isto é provavelmente porque a negação continua. Mas, desta vez, não é a existência de centenas de milhares de palestinos que está em jogo, mas que de quase seis milhões que vivem no interior da Palestina histórica e outros cinco milhões e meio vivendo fora da Palestina.
Alguém poderia pensar que só um louco poderia ignorar milhões e milhões de pessoas, muitas delas sob seu domínio militar ou apartheid, enquanto ele ativamente e sem piedade não permite o retorno do resto para sua terra natal. Mas quando o louco recebe as melhores armas dos EUA, Prêmios Nobel da Paz de Oslo e um tratamento preferencial por parte da União Europeia, deve-se perguntar: o quão seriamente devemos tomar as referências ocidentais aos líderes do Irã e da Coréia do Norte como perigosos e lunáticos?
Ser lunático hoje em dia está associado, ao que parece, com a posse de armas nucleares em mãos coreanas e iranianas. Bem, mesmo a esse respeito, Israel, o maluco local no Oriente Médio passa no teste. Quem sabe, talvez em 2014 não seria a dissonância cognitiva de Israel que estaria resolvida, mas a do Ocidente: como conciliar uma posição universal dos direitos humanos e civis com a posição privilegiada que Israel em geral, e Shimon Peres, em particular recebem no Ocidente?
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Ilan Pappe é professor de História da Universidade de Exeter, na Inglaterra, e é autor do livro  The Ethnic Cleansing of Palestine.
Original aqui.
Nota da tradutora:
[1] Poucos sabem que na Palestina não viviam apenas muçulmanos, mas também cristãos, católicos, que tiveram suas igrejas e casas destruídas, seus corpos massacrados, suas vidas tiradas muitas vezes na flor da juventude, pelo governo de Israel e sua política sionista. É assombroso ver católicos defendendo tal regime, defendendo esse estado e essa política que persegue cristãos. Que os católicos se informem sobre a verdade e lutem por ela. Deus é testemunha, lembre-se disso. Ele está vendo tudo.