quinta-feira, julho 04, 2013

Sendo Polido Com Deus



Por Padre Bernard-Marie de Chivre, O.P. 
Traduzido por Andrea Patrícia



Polidez ou delicadeza pode ser definida como a atitude da pessoa que faz um esforço para adotar o ponto de vista do outro para criar uma empatia ou assegurar que o que ele pensa é compreensível. Esse tipo de polidez é o que faz ou rompe uma amizade: saber que alguém o escuta prova que ele o compreende, e que o aprecia e o ama. A delicadeza também determina o sucesso e o valor último de um encontro entre duas pessoas. Tudo o que acontece num encontro entre duas pessoas – a visita em si, a conversa e as confidências - espera por uma certa cortesia como um toque final antes que possam cumprir o seu papel à perfeição.
Se nós desejamos ser delicados em uma conversa, quando alguém procura nosso conselho ou consolo, nós temos que aceitar o que o nosso interlocutor requer, sem colocar condições. Ele procura a permissão para confiar, o que requer um certo respeito da nossa parte como ouvinte,  junto com apenas o tempo que estamos dando. Ele procura a impressão de que estamos ouvindo, o que requer que nós mostremos uma atenção gentil. Ele procura ser compreendido, o que significa que nós temos que dar respostas que mantenham a conversa coesa num espírito de confidência mútua. Ele espera ser aconselhado e apoiado, o que requer que demos respostas dignas de justiça e verdade.

Agir com delicadeza faz ressoar uma corda comum com as melhores qualidades do outro; o que faz com que ele entenda que é uma honra para você ter sido escolhido para receber sua confidência; portanto, também significa a aceitação voluntária de completo esquecimento de si próprio, deixando seus próprios cuidados pessoais desaparecerem em favor da caridade para com aquele que fala – caridade que somente pode ser provada fazendo ao esquecer de si mesmo daquela maneira.
Esse tipo de delicadeza não é uma polidez vazia; ela expressa força de alma. Era uma das qualidades de Jesus Cristo... Jesus quando está na presença da mulher adúltera não evoca imediatamente a ofensa que ela cometeu contra Ele, Deus, mas tem o cuidado de perguntar a ela se alguém seria cruel o bastante para condená-la... Jesus com a mulher samaritana não a castiga por ter tido cinco maridos. Ele tira proveito de seu conhecimento para atraí-la para Ele.
Considere a delicadeza da graça a nosso respeito e nossa própria delicadeza com relação a graça. O modo como aceitamos as solicitações da graça determina seus efeitos em nossas almas. Delicadeza significa saber o quanto ouvir a graça, que é a confidência de Deus para nós. Quando Deus confia, é algo intenso e absoluto. "Timete Deum transeuntem– Tema Deus que está passando." Se você não pedir ajuda Dele, não há garantia de que Ele irá passar uma segunda vez. A delicadeza é capital naquilo que faz com que a outra pessoa sinta que é inteiramente compreendida e apreciada; que ela é livre para dizer tudo, que ela é livre para tomar o tempo do outro, e pode esperar sua aprovação e consentimento. Deus não gosta de ser interrompido quando Ele vem até as nossas almas.
A delicadeza é a completa permissão dada ao outro para prender a nossa atenção e o nosso tempo.
Quantas graças nunca dão frutos em nós porque elas não conseguem prender a nossa atenção ou o nosso coração; nós não sabemos como apreciá-las, então não é surpresa que nós não nos beneficiemos delas.
A coisa mais importante que nós podemos fazer pela vida espiritual é estimar a graça em seu verdadeiro valor; a luz chega a nós discretamente e oferece a si mesma, e nós precisamos honrá-la. Quando a graça chega, dê preferência a ela acima de qualquer outra coisa. Deixe aberto todo o espaço que ela possa precisar. Receba-a de braços abertos, banindo o pensamento de que você está pressionado pelo tempo. Acredite que Deus quando vem não é com a intenção de estragar em nossos planos, mas purificá-los de seu naturalismo.
Nós precisamos dar à graça a honra que ela merece deixando-a tomar a iniciativa de abordar o assunto de nossa vida de acordo com seu ponto de vista. Nós não podemos deixar que nossa teimosia tome conta da conversação e imponha os tópicos que nos preocupam. "Ecce ancilla– Eis aqui a serva," aqui estou eu, à Vossa disposição, pronto para ouvir aquilo que eu não tinha pensado antes ou o que eu tinha medo de imaginar. Com toda confiança, eu estou ouvindo para que eu possa melhor concordar minha vontade com a Vossa para ter uma melhor compreensão. Há sempre algo inesperado quando Deus confidencia, algo extraído do inesgotável conhecimento que Ele tem de nossas almas.
Deixe que Ele tome seu tempo. Deixe que a graça siga sua própria linha de raciocínio, sem ficar olhando no relógio pensando que você pode perder o trem. Acredite que Deus nunca o afasta de seus deveres. O erro está conosco: ou nós batizamos algo como urgente quando na realidade não é, ou nós corremos para cuidar do que é urgente sem habitar Nele, que quer nos acompanhar em nossas emergências.
Nós precisamos viver no tempo de Deus: Tempus Domini– o tempo do Senhor... de acordo com o minuto de Deus, arranjar o nosso tempo em favor do Mestre da hora.
Nada acontece conosco sem o comando Dele ou sem Sua permissão.
Se a graça toma o nosso tempo é porque ela quer obter a nossa aprovação. Aprovar significa ratificar a chegada e a explosão da graça. Daí por diante significa oferecer todos os nossos poderes de atenção, ansioso para expressar nossos agradecimentos e nos entregar. Isso significa dar o sinal de que ela possa oferecer-se a nós, abrindo a nossa própria agenda e deixando a graça remarcar tudo ou tornar tudo mais preciso.
Conceder a Ele nossa aprovação significa sair de nossa superficialidade – ao menos de nossa superficialidade instintiva – repousar perto Dele e deixar que ele fique em nós o tempo que Ele desejar. "Ela escolheu a melhor parte, e esta não será tirada dela..." porque ela afetuosamente escolheu se apegar a Ele, preferindo Ele a todas as coisas.

O autor:
Pe. Bernard-Marie de Chivre, O.P. foi ordenado Dominicano em 1930, foi um ardente Tomista, estudioso das Escrituras, consumado pregador e mestre de retiro, e amigo do Arcebispo Lefebvre. Em 1960 ele abriu uma casa de retiro na Normandia, França, Our Lady of the Granite, que se tornou um lugar de encontro para católicos receberem direção espiritual, absolvição, e conferências (de onde saem meditações como esta que temos aqui). Em 1972, ele sofreu um derrame que o deixou sem poder falar, mas ele se recuperou e voltou a pregar. Publicado originalmente como "La delicatesse spirituelle" in Camets spirituels: Predications du R.P. de Chivré, No. 2, Choisir (Bulle: Controverses, 1995), p. 21-23.

Original aqui.