quinta-feira, setembro 05, 2013

O Amigo dos Livros



Por Elaine Jordan
Traduzido por Andrea Patricia
 


O brasão de Oxford - Dominus Illuminatio mea (Deus é minha luz)


Richard de Bury estudou na Universidade de Oxford no século XIII, e mais tarde tornou-se tutor do príncipe Edward Windsor, depois Edward III. Devido à ascensão de seu pupilo, ele ocupou vários cargos importantes, incluindo o de embaixador do Papa, que o nomeou Bispo de Durham.
O bispo era um grande amante dos bons livros, e completou seu tratado sobre livros, intitulado O Philobilon [O Amigo dos Livros], em seu 58º aniversário, o ano em que ele morreu. Ele tinha uma biblioteca separada em cada uma de suas residências, e onde ele residia, tantos livros ficavam pelo seu quarto que era quase impossível de se mover sem pisar em cima deles. Todos os dias durante suas refeições, ele tinha um livro lido para ele, e depois se envolvia numa discussão com seus convidados sobre o tema da leitura.

Que ruim para os críticos que fingem que ninguém era alfabetizado ou lia livros na chamada "Idade das Trevas" – que na verdade foi a Idade da Luz, pois o aprendizado era elucidado pela Fé.

No capítulo I do Philobilon, Richard de Bury explica os tesouros da sabedoria contidos em bons livros, que são depositários de inteligência e ciência:

“O tesouro desejável da sabedoria e da ciência, que todos os homens desejam por um instinto da natureza, ultrapassa largamente todas as riquezas do mundo. Em relação a isso, as pedras preciosas são inúteis; prata é como argila e ouro puro é como um pouco de areia. Em comparação com o seu esplendor, o sol e a lua são escuros de se olhar, e ao lado de sua maravilhosa doçura, o mel e o maná são amargos ao paladar. O valor da sabedoria que não desaparece com o tempo, propicia a virtude de sempre florescer, e purifica o seu possuidor de todo veneno!”.

O que faz com que bons livros sejam tão valiosos? Ele explica: "Nos livros eu encontro os mortos como se estivessem vivos. Eu prevejo as coisas que virão. Nos livros os assuntos bélicos estão definidos, e deles brotam as leis da paz. (...) Toda a glória do mundo seria sepultada no esquecimento se Deus não tivesse provido os mortais com o remédio dos livros”.



O selo do Bispo de Bury, abaixo sua catedral de Durham fundada no século XI




No capítulo II, de Bury explica a apropriada admiração devida aos livros. Uma vez que nem as riquezas, nem os prazeres devem ser preferidos à sabedoria, e a sabedoria é encontrada nos livros, seu valor é inestimável. 

Ele escreve: "Uma vez que o grau de estima que uma coisa merece depende do grau do seu valor e o capítulo anterior mostra que o valor dos bons livros é indescritível, é muito claro para o leitor qual é a conclusão provável a partir disso. (...)

“Agora a verdade é principalmente mantida e contida nos livros sagrados - por que neles está escrita a própria verdade. (...) Portanto as riquezas valem menos do que os livros, especialmente visto que a mais preciosa de todas as riquezas são os amigos, como Boécio testemunha no segundo livro da Consolação. E, mesmo em relação aos amigos, a verdade deve ser preferida, de acordo com Aristóteles. Além disso, sabemos que a riqueza sustenta o corpo somente, enquanto a virtude dos livros ajuda a aperfeiçoar a razão, na qual, propriamente falando, a felicidade do homem reside. Portanto, para o homem que usa a sua razão, os livros são mais caros do que todas as riquezas.

“Além disso, aquele pelo qual a fé é mais facilmente defendida, mais amplamente difundida, mais claramente pregada, deveria ser mais desejável para os fiéis. E esta é a verdade escrita nos livros, que o nosso Salvador mostrou claramente quando estava prestes a lutar bravamente contra o Tentador, cingindo-se com o escudo da verdade e de fato da verdade escrita, declarando que "está escrito" o que Ele estava prestes a articular com a sua voz. (...)

“Além disso, uma vez que os livros são os melhores professores, como o capítulo anterior afirma, é apropriado conferir-lhes a honra e a estima que devemos aos nossos professores. Em suma, uma vez que todos os homens naturalmente desejam saber, e desde que por meio de livros podemos alcançar o conhecimento dos antigos, qual homem não sentiria o desejo por livros? E embora saibamos que os porcos pisam nas pérolas sob seus pés, o homem sábio não será dissuadido de recolher as pérolas que estiverem diante dele.

“Uma biblioteca de sabedoria, então, é mais preciosa do que toda a riqueza, e todas as coisas que são desejáveis ​​não podem ser comparados a ela. Quem, portanto, pretende ser zeloso da verdade, felicidade, sabedoria ou conhecimento, sim, até mesmo da fé, precisa tornar-se um amigo dos livros".


O orgulhoso Rei de Roma

No capítulo III, o bispo de Durham relata uma história da Antiguidade para provar que o homem sábio não deve hesitar em comprar bons livros, mesmo que o preço seja elevado.

"Pelo que foi dito tiramos este corolário bem-vindo para nós, mas (como acreditamos) aceitável para poucos: ou seja, que nenhum preço exorbitante deve impedir um homem de comprar bons livros, se ele tem o dinheiro para pagar por eles. (...) Porque, se o valor dos livros é inestimável, como a premissa mostra, como pode o custo ser considerado elevado, quando um bem inestimável está sendo comprado?

"Que os livros devem ser comprados com prazer e a contragosto vendidos, Salomão, o sol dos homens, nos exorta em Provérbios: Compre a verdade, diz ele, e não venda sabedoria. Mas, o que estamos tentando mostrar pela retórica ou lógica, vamos provar com exemplos da história. (...)


Tarquin perde seis, mas, finalmente, compra os três últimos livros

"Vamos relatar a loucura de Tarquínio Superbus, ou Tarquin o Orgulhoso, em desprezar livros, como também relatado por Aulo Gélio. Diz-se que uma mulher completamente desconhecida foi até Tarquin, o sétimo Rei de Roma, oferecendo-lhe seis livros à venda, os quais ela declarava conter oráculos sagrados.

“Mas ela pediu uma soma imensa por eles, tanto que o Rei disse que ela era louca. Com raiva, ela jogou três livros no fogo, e ainda pediu a mesma quantia para o restante. Quando o Rei recusou, mais uma vez ela jogou três outros no fogo e ainda pediu o mesmo preço pelos três que sobraram. Enfim, sobremaneira admirado, Tarquin estava contente de pagar por três livros o mesmo preço pelo qual ele poderia ter comprado nove.
“A velha logo desapareceu e nunca mais foi vista. Estes foram os livros sibilinos, que os romanos consultavam como um oráculo divino por um dos Quindecem viri [Quinze homens], e essa se acredita ter sido a origem do Quindecem viratus [Governo dos Quinze].
O que esta Sibila ensinou ao Rei orgulhoso através deste ato ousado, senão que os vasos de sabedoria, os livros sagrados, ultrapassam toda estimativa humana, e, como diz Gregório sobre o reino dos Céus: "Ele merece tudo o que tens".



A Universidade de Oxford foi fundada no século XI e tornou-se um ilustre centro de aprendizagem


Adaptado de Richard de Bury, The Philobiblon, Trans. E. C. Thomas, Project Gutenberg, Cap. 1-3


Original aqui.