sexta-feira, novembro 29, 2013

Número de pecados são contados








Lendo o livro de Santo Afonso de Ligório, Preparação Para a Morte, me deparei com algo que nunca tinha visto antes, e que acho importante que seja dito. 

Meus irmãos, vamos cuidar para não cometer mais pecados! E busquemos imediatamente o arrependimento sincero caso caiamos em pecado novamente, procurando o mais breve possível um sacerdote para confessar. 

Que Deus tenha misericórdia de cada um de nós e que a Virgem Santíssima, tão doce, tão piedosa e amorosa, possa nos socorrer com seu carinho de Mãe e rogar por cada um de nós.
Santo Afonso diz o seguinte (os grifos são meus):



"Se Deus castigasse imediatamente a quem o ofende, não se veria, sem dúvida, tão ultrajado como o é atualmente. Mas, porque o Senhor não sói castigar logo, senão que espera benignamente, os pecadores cobram ânimo para ofendê-lo. É preciso, porém, considerar que Deus espera e é pacientíssimo, mas não para sempre. É opinião de muitos Santos Padres (de São Basílio, São Jerônimo, Santo Ambrósio, São Cirilo de Alexandria, São João Crisóstomo, Santo Agostinho e outros) que Deus, assim como determinou para cada homem o número dos dias de vida, e dotes de saúde e de talento que lhe quer outorgar (Sb 11,21), assim, também, contou e fixou o número de pecados que lhe quer perdoar. E, completo esse número, já não perdoa mais, diz Santo Agostinho1. Eusébio de Cesaréia2 e os outros Padres acima citados afirmam o mesmo. E não falaram estes Padres sem fundamento, mas baseados na Sagrada Escritura. Diz o Senhor, em certo lugar do texto, que adiava a ruína dos amorreus porque ainda não estava completo o número de suas culpas (Gn 15,16). Em outra parte diz: “Não terei no futuro misericórdia de Israel (Os 1,6). Já por dez vezes me provocaram. Não verão a terra” (Nm 14,22-23). E no livro de Jo se lê: “Tendes selado, como num saco, as minhas culpas” (Jo 14,17). Os pecadores não tomam conta dos seus delitos, mas Deus enumera-os bem, a fim de os decifrar quando a seara estiver madura, isto é, quando estiver completo o número de pecados (Joel 3,13). Em outra passagem lemos: “Não estejas sem temor da ofensa que te foi perdoada e não amontoes pecado sobre pecado” (Ecl 5,5). Ou seja: é preciso, pecador, que tremas ainda dos pecados que já te perdoei; porque, se lhes acrescentares outro poderá ser que este novo pecado com aquele complete o número e então não haverá misericórdia para ti. Ainda mais claramente, em outra passagem, diz a Escritura: “O Senhor espera com paciência (as nações) para castigá-las quando se completar a conta dos pecados, e então virá o dia do juízo” (2Mc 6,14). De sorte que Deus espera o dia em que se completa a medida dos pecados, e depois castiga.
A Escritura oferece-nos muitos exemplos de tais castigos, especialmente o de Saul, que, por ter reincidido na desobediência ao Senhor, foi abandonado por Deus de tal modo, que, ao rogar a Samuel que por ele intercedesse, lhe disse: “Rogo-te que tomes sobre ti o meu pecado e venhas comigo para adorar ao Senhor” (1Rs 15,25). Ao que Samuel respondeu: “Não irei contigo, porque desprezaste a palavra do Senhor, e o Senhor te repeliu” (1Rs 15,26). Temos também o exemplo do rei Baltasar que, achando-se num festim a profanar os vasos do templo, viu mão misteriosa a escrever na parede: Mane, Thecel, Phares.
Veio o profeta Daniel e explicou assim as palavras: “Foste pesado na balança e achado demasiadamente leve” (Dn 5,27), dando-lhe a entender que o peso de seus pecados havia inclinado até ao castigo a balança da justiça divina. E, com efeito, Baltasar foi morto naquele mesma noite (Dn 5,30). Quantos não há a quem sucede a mesma desgraça! Vivem longos anos em pecado; mas, quando se completa o número que lhes foi fixado, a morte dos arrebata e são precipitados no inferno (Jo 21,13). Quantos procuram investigar o número das estrelas que existem, saber a quantidade dos anjos no céu, e computar os anos de vida dos homens; mas quem se atrever a indagar do número de pecados que Deus quer perdoar-lhes...? Tenhamos, pois, salutar temor. Quem sabe, meu irmão, se, depois do primeiro deleite ilícito, ou do primeiro mau pensamento em que consintas, ou do próximo pecado em que incorras, Deus ainda te perdoará?"

(Santo Afonso de Ligório, Preparação Para a Morte. Página 184 da edição digital. Você pode baixar o livro aqui.)