quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Maria de Ágreda na América - Parte I



Uma ‘Senhora de Azul’ Instrui os Índios no Sudoeste

Por Margaret C. Galitzin
Traduzido por Andrea Patrícia




Sem deixar o seu convento na Espanha, Madre Maria de Ágreda instruiu índios nos EUA.


Os soldados espanhóis e missionários vinham explorando nosso vasto Sudoeste por quase um século, quando os peregrinos, membros de uma seita protestante radical, estabeleceram sua primeira colônia estável em Plymouth Rock em 1620. Ao contrário daqueles puritanos, que visavam apenas encontrar um lugar seguro para sua seita prosperar, os espanhóis tinham uma dupla missão. Eles tinham como objetivo explorar e se estabelecer definitivamente no Oeste, mas uma outra missão de igual importância para a Coroa era converter os índios à Fé Católica.
Em 1598 os frades franciscanos que acompanhavam os exploradores e colonos espanhóis estabeleceram uma cadeia de missões para trabalhar com os índios Pueblo e outras tribos na Colônia instável do Novo México. Em 1623, Frei Alonso de Benavides chegou do México para a Missão de Santa Fé como o primeiro Superior das Missões Franciscanas do Novo México e o primeiro comissário da Inquisição para a Colônia. Ele era conhecido não só pela sua capacidade e energia, mas também pelo seu grande zelo missionário.
Ele chegou com um pequeno reforço de outros frades franciscanos que iriam embarcar no perigoso trabalho missionário no extenso território agitado do Novo México. Como em tantas obras épicas da história, alguns homens, movidos pelo zelo sobrenatural pela causa de Deus, realizaram um trabalho muito maior do que suas forças humanas.
Um dos episódios mais fascinantes daquele tempo envolveu os esforços missionários de uma Abadessa espanhola que trabalhou no Novo México, Arizona e Texas de 1620 a 1631. Ela instruiu várias tribos indígenas na Fé Católica e contou-lhes como encontrar a missão franciscana para pedir aos padres que viessem batizar seu povo. O nome dela era Madre Maria de Jesus de Ágreda, uma freira Concepcionista, que, no entanto, nunca deixou seu convento na Espanha.

Uma Abadessa vivendo na Espanha se biloca para a América
Suas bilocações extraordinárias para o Novo Mundo eram uma fonte de admiração para a Igreja espanhola e a Coroa. A autenticidade do milagre de suas mais de 500 visitas à América foi cuidadosamente examinada e documentada pelas autoridades competentes para garantir que não houve fraude ou erro. Ela também foi cuidadosamente examinada duas vezes pela Inquisição, nos anos 1635 e 1650.
Em seu Memorial de 1630, um relatório sobre o estado das missões e da colônia, Pe. Benavides fez um relato preciso dos índios que haviam sido instruídos pela "Senhora de Azul". Seu Memorial de 1634, escrito depois que ele conheceu e conversou com Madre Maria de Ágreda, em 1631, também descreve essa reunião e suas impressões favoráveis da Abadessa Concepcionista (ver Parte II). Quando ele deixou Ágreda, Pe. Benavides pediu a Maria de Ágreda para escrever uma carta endereçada aos missionários do Novo Mundo. Suas palavras inspiraram os religiosos a trabalharem nos campos missionários americanos pelos muitos anos vindouros.
Que Maria de Ágreda desempenhou um papel influente em nosso país é algo inegável. Alguns anos mais tarde Pe. Eusebio Kino encontrou velhos índios no Novo México e Arizona que contaram histórias sobre como uma linda mulher branca vestida de azul tinha falado com eles sobre a Fé Católica. Pe. Junipero Serra escreveu que foi a "Seráfica Madre Maria de Jesus" que o tinha inspirado a trabalhar na vinha do Senhor, na Califórnia. (1)
Hoje Madre Maria de Ágreda é mais conhecida por seu trabalho importante na vida da Bem-aventurada Virgem Maria, A Cidade Mística de Deus. Talvez uma das razões porque os católicos norte-americanos sabem muito pouco sobre suas bilocações bem documentadas para a América é o fato de que por séculos os Memoriais do Frei Benavides estiveram escondidos no Arquivo da Propaganda Fide, em Roma, e assim desconhecidos para o mundo que fala Inglês. Seu extenso Memorial 1634 só foi traduzido para o Inglês e disponibilizado para o público em 1945. (2) Muitos dos detalhes deste artigo foram tirados deste documento, bem como de vários artigos científicos sobre o tema. (3)

Uma ordem para um inquérito
Em 1627, o Pe. Sebastian Marcilla, o confessor de Madre Maria de Ágreda, enviou da Espanha um relatório sobre o seu trabalho entre os índios americanos ao Arcebispo do México, Francisco de Manso. Ele disse ao prelado que a jovem Abadessa - de 25 anos - estava visitando aldeias indígenas no Novo México de alguma maneira sobrenatural, e estava ensinando aos nativos a Fé católica. Mesmo ela falando em espanhol, os índios a entendiam, e ela os compreendia quando eles respondiam em seu dialeto nativo. O confessor tinha uma impressão favorável da freira Concepcionista e estava inclinado a acreditar em suas palavras.
O Arcebispo ordenou ao padre Benavides, que estava sendo transferido da Nova Espanha para o Novo México, que fizesse uma investigação cuidadosa, a ser realizada "com a exatidão, fidelidade e devoção que tal matéria grave requer". Vale ressaltar que o Padre Benavides havia sido investido com dois ofícios no Novo México - o de Superior e o de Inquisidor - e teve todos os recursos disponíveis para fazer uma investigação séria.
O Arcebispo pediu que ele descobrisse se as novas tribos - os Tejas [Texans], Chillescas, Jumanos e Caburcos - já tinham "algum conhecimento da Fé" e "de que maneira e por que meios Nosso Senhor manifestara isso".

Índios pedindo o Batismo
No verão de 1629, uma delegação de 50 Jumanos chegou a Isleta, uma missão Pueblo perto da atual Albuquerque, solicitando sacerdotes para retornar com eles e batizar seu povo. Os Jumanos eram uma tribo ainda não catequizada que caçava e comercializava por uma vasta área nas planícies do leste do Novo México - hoje Panhandle ou região do Sul do Texas.


Maria de Ágreda ensinando aos índios

Nos últimos seis anos, delegações menores de Jumanos tinham chegado aproximadamente ao mesmo tempo a Isleta para falar com Padre Juan de Salas, um missionário muito respeitado que havia estabelecido a igreja em Isleta em 1613. A cada ano, os índios faziam o mesmo apelo e falavam sobre uma mulher que lhes tinham enviado. Eles foram os primeiros a relatar as visitas da "Senhora de Azul". Mas a história foi descartada como sendo algo impossível.
Viajar de Isleta à planície oriental era uma caminhada longa e perigosa - mais de 300 milhas através das terras hostis dos Apaches. Naquela época os missionários não tinham nem os sacerdotes nem os soldados necessários para fazer a viagem e estabelecer um novo posto avançado, então a missão dos  Jumanos foi adiada.
Nesse ano, quando o grupo Jumanos chegou, o Pe. De Salas estava na reunião do capítulo na sede franciscana em Santo Domingo. Um mensageiro foi enviado a ele com as notícias sobre a delegação, e ele informou ao novo Superior sobre a estranha história de uma senhora que supostamente estava ensinando a Fé Católica aos índios.
O Pe. Benavides, que havia recebido instruções específicas do geral franciscano sobre este tema, estava muito interessado em saber mais. Ele decidiu voltar com o padre De Salas a Isleta, a fim de questionar o grupo indígena e perguntar como eles tinham chegado a ter conhecimento da Fé.
Em seu Memorial ao Papa Urbano VIII, ele relatou os resultados de sua investigação:
"Nós chamamos os Jumanos ao mosteiro e lhes perguntamos o motivo para virem todos os anos pedir o batismo com tanta insistência. Vendo um retrato de Madre Luisa [outra irmã franciscana espanhola na Espanha, com uma reputação de santidade] no mosteiro, eles disseram: 'Uma mulher em trajes semelhantes vagueia entre nós lá, sempre pregando, mas seu rosto não é velho assim, é jovem e bonito.’
"Perguntados sobre por que não tinham nos dito isso antes, eles responderam: 'Porque vocês não perguntaram, e nós pensamos que ela estivesse aqui também’."
Os índios chamaram a mulher de "Senhora de Azul" por causa do manto azul que ela usava. Ela iria aparecer entre eles, os representantes Jumanos disseram, e instruí-los sobre o verdadeiro Deus e a Sua santa lei. A festa, que incluiu 12 chefes, contou com representantes de outras tribos, aliados dos Jumanos. No Memorial 1630 do Pe. Benavides, ele observa que eles lhe disseram: "uma mulher costumava pregar a cada um deles na sua própria língua" [grifo nosso].
Foi essa mulher que insistiu que eles deveriam pedir aos missionários para serem batizados e disse-lhes como encontrá-los. Às vezes, eles disseram, a ‘Senhora de Azul' ficava escondida deles, e eles não sabiam para onde ela tinha ido ou como encontrá-la.

Missionários encontram um campo pronto para a colheita


A Igreja de Corpus Christi na Missão Isleta, a mais antiga igreja funcionando nos EUA.

Pe. Benavides enviou dois missionários, Pe. Juan de Salas e Pe. Diego López, acompanhados por três soldados na missão apostólica aos Jumanos. Depois de viajar centenas de quilômetros a leste através do perigoso território Apache, a expedição cansada foi recebida por uma dúzia de índios da tribo Jumanos. Eles tinham sido enviados para cumprimentá-los e acompanhá-los nos últimos dias de viagem, afirmando que a ‘Senhora de Azul’ lhes tinha alertado sobre a sua proximidade.
Conforme os frades se aproximavam da tribo, viram com espanto uma procissão de homens, mulheres e crianças que vinha ao encontro deles. À frente vinham índios carregando duas cruzes decoradas com guirlandas de flores. Com grande respeito os índios beijaram os crucifixos que os franciscanos usavam ao redor de seus pescoços.
"Eles ouviram dos índios que a mesma freira lhes havia instruído a respeito de como eles deviam sair em procissão para recebê-los, e que ela os ajudou a decorar as cruzes", escreveu Pe. Benavides em seu Memorial. Muitos dos índios imediatamente começaram a clamar para serem batizados.

Os missionários descobriram que os índios já tinham sido instruídos na Fé e ansiavam por aprender mais. Seu espanto aumentou quando chegaram mensageiros de tribos indígenas vizinhas que imploraram aos sacerdotes que fossem a eles também. Eles disseram que a mesma senhora de azul os tinha catequizado e disse-lhes para buscar os missionários para o batismo.
Depois de um tempo, os missionários tiveram que voltar para a Missão San Antonio para relatar ao Pe. Benavides as coisas surpreendentes que tinham encontrado antes que ele viajasse para a Nova Espanha, onde ele iria relatar ao Arcebispo e ao representante do Rei sobre o trabalho missionário e potencial no Novo México.

Um grande milagre
Antes de saírem, o padre Juan de Salas disse-lhes que até que novos missionários chegassem "eles deveriam se reunir todos os dias, como eles estavam acostumados, para rezar diante de uma cruz que eles haviam montado em um pedestal."
Mas isso não satisfez ao Chefe dos Jumanos, que suplicou aos sacerdotes para curar os doentes: "pois vocês são sacerdotes de Deus e podem fazer muito com essa Santa Cruz."
Os doentes, totalizando cerca de 200, foram reunidos em um só lugar. Os sacerdotes fizeram o sinal da cruz sobre eles, leram o Evangelho segundo São Lucas e invocaram Nossa Senhora e São Francisco. Para recompensar sua fé e preparar o caminho para grandes conversões, Deus operou um milagre. Todos os doentes se levantaram curados. Em meio à grande alegria, os missionários deixaram a aldeia para começar a longa e arriscada viagem de regresso para o Novo México.
Ao longo do caminho, eles foram recebidos por "embaixadores" de outras tribos, os Quiviras e Aixaos. Esses índios também pediram aos padres que fossem batizar seu povo e disseram-lhes que a 'Senhora de Azul' lhes havia dito onde encontrar os missionários. Esses embaixadores acompanharam os sacerdotes até o Novo México.

Relatório para o Representante do Rei e o Arcebispo


Maria de Ágreda é mais conhecida por sua obra A Cidade Mística de Deus

Os missionários retornaram pouco antes da partida do Pe. Benavides para o México. Quando ele ouviu o relato extraordinário do que os missionários haviam encontrado, ele incluiu em seu relatório a história da "Senhora de Azul" e seu trabalho milagroso para converter os Jumanos.
Seu Memorial de 1630 oferece uma descrição cuidadosa do trabalho missionário que foi realizado na nova colônia do México. As 111 páginas do documento descrevem mais de 60.000 nativos cristianizados residindo em 90 povoados, divididos em 25 distritos.
O Representante do Rei e o Arcebispo Francisco de Manso ficaram muito impressionados com  o que ele contou e o enviou a Madrid "para informar Sua Majestade, como líder de tudo, das coisas notáveis ​​e incomuns que estavam acontecendo."
Havia muitos assuntos urgentes relacionados com as colônias da missão que o Padre Benavides precisava endereçar às autoridades da Espanha. Ele também esperava encontrar Madre Maria de Ágreda a fim de interrogá-la e se informar com certeza se ela era a 'Senhora de Azul’ que tinha trazido o Evangelho de Cristo ao longo dos oceanos para os índios do Novo México.

Notas:

1. Francisco Palou, Evangelista de la Mar Pacífico, ed. por M. Aguilar, Madri, 1944. p. 25.
2. The Benavides Memorial of 1634, traduzido com notas por F. W. Hodge, G. P. Hammond e Agapito Rey, Albuquerque, 1945.
3. Donahue, William H., “Mary of Ágreda and the Southwest United States,” The Americas, Vol. 9, No. 3 (Jan., 1953), p. 291-314; Nancy P Hickerson, “The Visits of the “Lady in Blue’: An Episode in the History of the South Plains, 1629,” Journal of Anthropological Research 46.1 (Primavera 1990), p. 67-90

(Continua)


Original aqui.