quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Maria de Ágreda na América - Parte III


Testemunhos da Sua Presença nos EUA 
Por Margaret C. Galitzin
Traduzido por Andrea Patrícia




Uma gravura na Madeira do século XVII


Na Parte I da Ven. Maria de Ágreda na América, nós vimos como os índios Jumanos no território do Novo México relataram em 1630 que a Senhora de Azul os estava visitando e ensinando a Fé Católica. Os índios descreveram a mulher com detalhes, e contaram aos Franciscanos na missão de Isleto fora de Albuquerque que ela os tinha enviado para pedirem o Batismo. Dois missionários foram enviados numa missão exploratória à aldeia dos Jumanos (cerca de 250 a 300 milhas a leste de Santa Fe) e viram que os Jumanos e outras tribos dos arredores já conheciam os rudimentos da Fé.  Todos eles relataram o mesmo fenômeno da Senhora de Azul que os tinha visitado.

A Parte II explica como o Pe. Alonso de Benevides, Inquisidor e Superior da Colônia do Novo México, fez um relato detalhado da situação da missão em 1630 – incluindo um relato da Senhora de Azul – e o entregou ao Rei da Espanha e ao Superior Franciscano espanhol. Enquanto estava lá, ele visitou a Madre Maria de Ágreda em seu convento. Após uma investigação cuidadosa, ele ficou convencido de que ela era a Senhora de Azul.


Quando os padres Salas e Lopez deixaram a aldeia dos Jumanos em 1630, eles evidentemente pretendiam retornar. Os índios perceberam que aqueles padres estavam fazendo uma excursão de inspeção preliminar e fizeram tudo o que podiam para convencê-los a estabelecer uma missão permanente no território Jumano. A decisão, de fato, foi a favor deles, embora os eventos tenham terminado saindo diferentes dos planos.
Os missionários espanhóis iriam ministrar aos Jumanos pelo resto do século, mas não na área dos Altos Planos. Logo após a primeira visita dos primeiros missionários, os Jumanos, uma tribo nômade caçadora, tiveram de deixar suas costumeiras áreas de caça.

Pareceu que, com a ajuda dos Franciscanos, eles foram reassentados na Missão da Imaculada Conceição, em Quarai, no Novo México, estabelecida em 1629-1630 (hoje conhecida como Gran Quivira). Em 1670 – uns 40 anos após a última visita documentada da Senhora de Azul – uma última parte dos Jumanos dos Altos Planos foi reassentada na Missão Manso fundada pelos Franciscanos perto de El Paso em 1659.(1)

Para os incrédulos europeus, os Memoriais de 1630 e 1633 do Pe. Benavides, registros históricos válidos, iriam oferecer a prova de que as bilocações de Madre Maria de Ágreda não foram apenas lendas fantásticas de ‘atrasados’ povos supersticiosos.

Para os índios, a documentação era desnecessária. De uma geração para outra, as histórias da freira Concepcionista que usava capa azul eram recontadas, as evidências de suas visitas milagrosas eram preservadas verbalmente, uma história oral duradoura.


“Eu não quero nenhuma outra cor a não ser azul”



Os índios recontavam histórias da senhora de azul visitando seus antepassados.

 

Os Memoriais do Pe. Benavides não são, entretanto, a única evidência documentada da presença da Madre Maria de Ágreda no Novo Mundo. Quando outros espanhóis chegaram ao território onde Maria de Ágreda fez suas visitas, eles encontraram índios que se lembravam da Senhora de Azul e de seus ensinamentos sobre a doutrina de Jesus Cristo.

Em 1689, 24 anos após a morte de Maria de Jesus, o explorador espanhol
Alonso de Leon fez sua quarta expedição dentro do território do Texas. Em sua carta ao representante do Rei, um relatório dando um detalhado registro da expedição, (2) ele escreveu que alguns dos índios Tejas com quem ele se encontrou já tinham sido parcialmente instruídos na Fé Católica por causa das visitas da Senhora de Azul aos seus antepassados. Essas são as suas palavras:

“Eles realizavam muitos ritos cristãos, e o chefe índio pediu aos missionários para instruí-los, dizendo que há muitos anos atrás uma mulher foi ao interior para instruí-los, mas ela não tinha ficado lá por muito tempo.” (3)

O padre Franciscano Damian Massanet acompanhou de Leon nessa expedição. Dois anos antes, ele tinha estabelecido a Missão São Francisco dos Tejas, a primeira missão no Leste do Texas. Num relatório ao representante do Rei, ele conta sobre um incidente que teve lugar nessa expedição entre os índios Tejas.
Os líderes da expedição estavam distribuindo roupas aos índios. O chefe deles, ou “governador” como o padre Massanet o chamava, pediu um pedaço de tecido grosso azul para enterrar sua mãe quando ela morresse.
Pe. Massanet escreve:
“Eu disse a ele que um tecido leve seria melhor, e ele disse que ele não queria nenhuma outra cor a não ser azul. Eu perguntei então qual mistério estava ligado à cor azul, e o governador disse que eles eram muito apaixonados por azul, particularmente para roupas de funeral, porque em tempos passados uma mulher muito bela os visitou lá, que desceu das alturas, e aquela mulher estava vestida de azul e eles queriam estar como ela.
“Sendo questionado se isso aconteceu há muito tempo, o chefe disse que não havia sido na época dele, mas a mãe dele, que era idosa, a tinha visto, assim como outras pessoas também tinham visto. A partir disso vê-se claramente que aquela era a Madre Maria de Jesus de Ágreda, que esteve frequentemente naquelas regiões, como ela mesma havia reconhecido ao Padre Superior no Novo México” (4)

Os Índios do Arizona se lembram de histórias sobe a belíssima mulher

Outro testemunho escrito sobre a presença da Madre Maria de Ágreda entre os índios do Arizona vem do livro de registros do Capitão Mateo Mange, que viajou com os padres jesuítas Eusebio Francisco Kino e Adamo Gil na expedição para descobrir o Colorado e o Rio Gila em 1699.
Uma vez, quando estava conversando com alguns índios muito idosos, os exploradores perguntaram se eles alguma vez haviam ouvido seus anciãos falarem sobre um capitão espanhol passando pela região deles com cavalos e soldados. Eles estavam procurando informações sobre a expedição de Don Juan de Oñate  em 1606.
Os índios disseram a eles que conseguiam lembrar-se de ter ouvido dos anciãos que já haviam morrido sobre um grupo assim. Então, eles acrescentaram – sem qualquer pergunta que os levasse a isso – que quando eles eram crianças uma belíssima mulher branca, vestida de branco, marrom e azul, com um tecido leve cobrindo a sua cabeça, veio à terra deles.

Uma senhora com uma cruz que “desceu do alto” para ensinar aos índios.

Mange recontou mais sobre o que os índios contaram a ele:
Ela falava, gritava e arengava com eles... e mostrava-lhes uma cruz. As nações do Rio Colorado atiraram flechas nela, deixando-a para morrer em duas ocasiões. Ao reviver ela desapareceu no ar. Eles não sabiam onde era sua casa e morada. Após alguns dias ela voltou novamente, e então muitas vezes depois para pregar para eles.” (5)
Isto iria concordar com o relato do padre Benavides, que havia entrevistado Madre Maria de Ágreda em seu convento (veja Parte II). Ela disse a ele em várias ocasiões que os índios haviam se voltado contra ela e atirado fleches nela, deixando-a para morrer. Ela sentiu a dor dos ataques, mas quando ela voltava a si no convento mais tarde, não havia sinal de ferimentos.
Mange observa, além disso, que os índios de São Marcelo tinham contado a ele a mesma história cinco dias antes, embora naquele momento eles não tivessem acreditado nela. Mas o fato de eles terem ouvido a mesma coisa repetida em um lugar um tanto distante fez com que começassem a suspeitar de que aquela mulher era Madre Maria de Jesus de Ágreda. Os missionários estavam familiarizados com sua vida e obra, e sabiam a partir dos Memoriais do padre Benavides que durante os anos de 1620 a 1631 ela havia pregado aos índios da América do Norte. (6)
Quase 70 anos tinham passado desde aquela época, e esse homens velhos – que aparentavam ter uns 80 anos – teriam sido jovens rapazes na época que a Senhora de Azul os visitou.

A lenda da flor azul Bluebonnet


 
As flores azuis comemoraram as visitas de Maria de Ágreda

Documentos históricos indicam claramente que Maria de Ágreda visitou o sudoeste dos Estados Unidos muitas vezes em 1620 para instruir os índios. Isso não é uma lenda.
Pe. Benavides, um Inquisidor de confiança, saiu de Ágreda convencido de que Maria de Ágreda havia estado fisicamente presente no Novo Mundo, e que as visitas dela haviam continuado durante o mesmo ano, 1631. Em 1635 ele se tornou o Bispo de Goa, e sempre se recomendou às orações da Abadessa Concepcionista e manteve a mais alta estima por ela.

Houve, entretanto, uma lenda encantadora que surgiu entre os índios Tejas, inspirada pelo seu amor e respeito pela Senhora de Azul.

De acordo com ela, após os Franciscanos virem para batizar e catequizar o povo, a Senhora de Azul contou aos Jumanos que suas visitas chegariam ao fim. Quando ela os deixou misteriosamente de sua maneira costumeira, a encosta onde ela apareceu ficou coberta com lindas flores azuis; uma memória da presença dela entre eles. Aquela espécie de flor veio a ser conhecida como Bluebonnet, e hoje é a flor do estado do Texas.

Notas:

1. Nancy P. Hickerson, "The Visits of the 'Lady in Blue': An Episode in the History of the South Plains, 1629" Journal of Anthropological Research, Vol. 46, No. 1 (Spring, 1990), pp. 67-90; http://www.jstor.org/stable/3630394

2. Damian Massanet, Letter of Fray Damian Massanet to Don Carlos de Siguënza, in Bolton, Herbert Eugene Bolton (ed.), Spanish Exploration in the Southwest, 1542-1706 (New York: Charles Scribner's Sons, 1916). Pp. 347-38;
www.americanjourneys.org/aj-018/

3. W. Donahue, “Mary of Ágreda and the Southwest United States,” p. 310; veja Artigo I, Nota 1).
4. Idem, in Ibid., p. 310
5. Ibid., p. 311
6. Ibid.

(Continua)

Original aqui.