sexta-feira, agosto 15, 2014

Neodireitistas, judeus e a Igreja



    Há uma nova moda entre os neodireitistas que consiste em evocar documentos da Igreja que garantem a proteção dos judeus, ou então que ressaltam os vínculos entre estes e os católicos em decorrência do caráter irrevogável da Antiga Aliança, para buscar apoio às políticas do Estado de Israel e seus aliados.
     Ora, este é um fato em que eu insisto constantemente: a Igreja sempre protegeu os judeus.
    É público e notório que judeus perseguiram com mão de ferro a Igreja nascente e se sabe que, depois de Cristo, definiram-se por oposição e contraste a ela, escreveram no Talmude coisas horríveis sobre a mesma Igreja, seu Senhor e a mãe dEle, estimularam as invasões islâmicas da Europa - para ficarmos somente em alguns dados mais conspícuos -, de modo que o surgimento de uma animosidade anti-judaica entre os cristãos não era de todo inusitado. Que esta tenha podido gerar arbitrariedade e violência, é algo que um mínimo conhecimento da natureza humana nos franqueia. Nada mais justo, portanto, que as intervenções da Sé de Roma, não somente para frear um espírito de vingança incompatível com a fé em Cristo, mas até para recordar que a descendência carnal de Israel, mesmo suplantada no plano espiritual pela Igreja - o novo povo eleito, que convoca à unidade todas as gentes - permanece como os primeiros convocados para aderir a Cristo - adesão cuja expectativa de consumação faz parte da fé escatológica da Igreja.
     Foi precisamente esse vínculo que alguns dos mais furiosos inimigos da Igreja alegaram contra ela, invocando uma "semitização" da cultura europeia como causa de sua "corrupção". Tal é a linha de argumentação que leva de Voltaire a Hitler, cujas posições a Igreja combateu com veemência. Não é de surpreender que entre os mais inflamados combatentes do regime nazista, e maiores benfeitores dos judeus perseguidos, se encontre um número considerável de leigos e clérigos católicos, sem excluir o próprio Romano Pontífice.
     Contudo, a diligência e a responsabilidade da Igreja, como congregação universal, não abraça somente um povo - por privilegiado que tenha sido -, mas se estende à totalidade do gênero humano. Além do mais, nada no ensinamento católico dá suporte às reivindicações do movimento sionista, ao qual a Sé Romana se opôs resolutamente desde o primeiro momento. É muito bonitinho reclamar a solidariedade aos judeus, mas não é nada bonito pedir que se fechem os olhos às arbitrariedades e atrocidades do Estado de Israel e aos crimes de certa máfia judaica - coisas que não poucos judeus eminentes erguem a voz para denunciar.
     Há uma espécie de clamor sentimentalista que pede para proteger criminosos (e que o sejam é coisa completamente independente de religião ou grupo étnico) por "amor aos judeus" ou pelo pânico do ressurgimento do "anti-semitismo". Ora, se a postura da Igreja, ao condenar a política sionista e a heresia dispensacionalista, ao mesmo tempo em que protege e ama os judeus - fazendo mesmo mártires para tanto -, se esta postura mostra alguma coisa, é precisamente a desonestidade intrínseca da acusação de "anti-semitismo" quando as suas autoridades, seus santos e doutores se manifestam contra os erros e malfeitos de alguns judeus - que se arrogam o direito de representar todo um povo, envolvendo-o, criminosamente, nos seus próprios crimes. Ou por acaso algum católico ignora que o Verbo se fez carne no seio de uma filha de Israel?
     Repito: tal estratégia é nitidamente desonesta. Nada há de mais arbitrário do que inferir, de tais pronunciamentos do Magistério da Igreja, o suporte para certas posições políticas que jamais o mesmo Magistério abençoou - quando não expressamente condenou. E tanto pior se torna esse estratagema quando se destina à justificação de crimes e à evasão de responsabilidades.
     No entanto, sei que a maior parte dos que o adotam, fazem-no passivamente, reproduzindo um padrão que vem pronto "de cima". Mais culpa tem quem o elabora.