quinta-feira, setembro 04, 2014

Relembrando as frequentemente esquecidas indulgências



Por Dr. Remi Amelunxen
Traduzido por Andrea Patrícia



A Confissão restaura a graça santificante na alma, mas alguns débitos pelos pecados permanecem.


Muitos católicos hoje quase nada sabem sobre as indulgências. Como o Privilégio Sabatino e as Trinta Missas Gregorianas, que foram tratadas em outro artigo as indulgências foram relegadas a lata de lixo na maioria das paróquias e escolas católicas. Cabe a cada um de nós conhecer estes importantes auxílios que a Igreja nos concede para diminuir a nossa estadia no Purgatório ou, em alguns casos raros, evitá-lo completamente.
Além disso, se nós generosamente ganharmos indulgências para as Pobres Almas do Purgatório, nós podemos esperar obter alívio ou libertação para muitas delas, de acordo com a Santa Vontade de Deus. Em gratidão muitas poderão obter favores para nós.

O que são indulgências?

Primeiro, é útil apontar o que a indulgência não é. Quando alguém peca, há duas consequências: quanto a culpa incorrida pelo pecado, ele perde a graça santificante, e para o dano que seu crime causou a glória de Deus ele deve pagar uma pena. A Confissão absolve um homem de sua culpa; a indulgência o ajuda a aliviar as penalidades que ele deve a justiça de Deus.
Assim, uma indulgência não é uma permissão para cometer pecados. Nem produz o perdão da culpa do pecado; mas sim consiste no pagamento do débito que o pecador deve a Deus. Ela não protege o pecador da tentação ou da subsequente ocasião de pecado. Nem assegura automaticamente a salvação do pecador ou liberta a alma de outro do Purgatório.

Ora, vejamos o que uma indulgência realmente é. A palavra indulgência vem do Latim indulgentia, uma gentileza ou favor. No Antigo Testamento foi usada para expressar libertação da punição ou cativeiro (Is 61,1). A Igreja usa a palavra num sentido análogo, definindo indulgência como uma remissão pela punição por causa do pecado, onde a culpa já foi perdoada.

O fiel católico apropriadamente disposto pode ganhar este benefício por meio de certas orações ou atos executados sob condições prescritas. Tal remissão é garantida pela Igreja através do poder das chaves através da aplicação dos infinitos méritos de Nosso Senhor e dos preciosos méritos dos santos.

No Sacramento do Batismo, a culpa do pecado e todas as penalidades anexas ao pecado são remidas. No Sacramento da Penitência, a culpa do pecado e a punição eterna devido ao pecado mortal são removidas. Mas o transitório, ou a punição temporal requerida pela Justiça Divina permanece e deve ser expiada na vida presente ou no Purgatório.

A penitência imposta pelo sacerdote no Sacramento da Penitência – uma parte integral deste Sacramento – é prestar satisfação pelo débito causado pelo pecado. Entretanto, frequentemente o sacerdote dá uma penitência pelo pecado que é muito mais leve do que é merecido. Então, ainda permanece uma quantidade a ser paga, e a pessoa deve também fazer outras penitências para fazer a expiação ou ela terá que ir para o Purgatório.

Outros meios que a Igreja concede para aliviar este débito – que é extra-sacramental e pressupõe os efeitos obtidos pela confissão, isto é, contrição – são por meio de indulgências.

Eis um resumo em termos mais simples:
  • A Igreja perdoa a culpa do pecado através do Sacramento da Penitência, eliminando a consequência eterna do pecado para o pecador e restaurando-o para a vida da graça.
  • O pecador penitente deseja prestar satisfação por seu débito a Deus a quem ele ofendeu através do pecado.
  • A Santa Igreja, através do poder de suas chaves, possui a autoridade para abrir caminhos ao penitente para prestar satisfação por seus débitos com Deus extraindo do tesouro dos méritos de Cristo e dos santos.
  • Então, a Santa Madre Igreja estabelece certas orações e obras a serem oferecidas sob certas condições, que serão pagas também parcialmente ou totalmente pelo débito devido a Deus.
  • O fiel executa as ações prescritas sob as condições estabelecidas para ganhar uma indulgência parcial ou plenária.
  • A Igreja atenua a punição merecida ao abrir o tesouro do mérito e aplicar aqueles méritos ao fiel.
  • As indulgências ganhas para as Pobres Almas são eficazes pelo modo do sufrágio (per modum suffragii), isto é, dependendo da decisão de Deus e não envolvendo o poder da Igreja, já que a Igreja exerce poder quanto às indulgências para os viventes.
Tipos de indulgências

Uma indulgência que pode ser ganha em qualquer parte do mundo é universal. Se a indulgência pode ser ganha apenas num lugar específico, como Roma ou Jerusalém, ela é local.

Indulgências perpétuas podem ser ganhas a qualquer momento, enquanto as temporárias apenas em certos dias ou períodos de tempos. Indulgências reais envolvem certos objetos – por exemplo: crucifixo, rosário, medalha. Indulgências pessoais são garantidas para uma certa classe de indivíduos, por exemplo: membros de uma ordem ou confraria.

A distinção mais importante é entre as indulgências plenárias e parciais.

A indulgência plenária

Uma indulgência plenária é a remissão de toda a punição temporal devido ao pecado de forma que nenhuma expiação adicional é requerida no Purgatório. Portanto, em princípio, uma pessoa que morre em estado de graça após ter ganhado uma indulgência plenária iria direto para o Céu. Apenas o Papa pode conceder indulgências plenárias.

Alguns católicos imaginam que se precisa apenas cumprir a ação prescrita para uma indulgência plenária e terão ganhado uma espécie de “passe para o Céu.” Este não é o caso. Há certas condições que a Igreja exige para ganhar uma indulgência plenária.
São as seguintes:
  • A pessoa deve estar em estado de graça pela realização da indulgência.
  • A pessoa deve ter a intenção de ganhar a indulgência.
  • A pessoa deve receber o Sacramento da Penitência e a Sagrada Comunhão dentro de sete dias da indulgência, mas preferencialmente no mesmo dia;
  • A pessoa deve rezar em intenção do Papa (isto é, um Pai Nosso e uma Ave Maria bastam).
  • A pessoa deve estar livre de toda ligação com o pecado, mesmo os pecados veniais.



Uma indulgência plenária é garantida pela visita a Roma durante um ano de jubileu. Acima, Pio IX no ano do jubileu de 1875.

Claramente, a última condição é a mais difícil, e a maioria das pessoas não irá cumpri-la. Todavia, a Igreja encoraja o fiel a tentar com perseverança já que o efeito é tão excelente. Se alguém tenta ganhar uma indulgência plenária mas falha em cumprir as condições, a indulgência será parcial.

Apenas uma indulgência plenária pode ser ganha por dia, exceto no momento da morte quando a pessoa pode ganhar uma segunda indulgência plenária para aquele dia. Outra exceção é no Dia de Finados, 2 de novembro, quando o fiel pode ganhar uma indulgência plenária para as almas do Purgatório.

Estes são alguns exemplos de como ganhar uma indulgência plenária:
  • Adoração do Santíssimo Sacramento por ao menos uma hora;
  • Fazer a Via Sacra, caminhando de estação a estação;
  • Recitação vocal de ao menos cinco dezenas do Rosário rezado com meditação devota dos mistérios. Pode ser rezado numa Igreja, num grupo na família, numa comunidade religiosa, ou associação piedosa;
  • A indulgência plenária é garantida em cada Quinta-feira da Quaresma ao fiel que após comungar piedosamente recitar diante da imagem de Cristo crucificado a oração: "Olhai-me, bom e gentil Jesus." Em outros dias do ano a indulgência é parcial.
  • Uma visita piedosa a Igreja no Dia de Finados (2 de novembro) rezando um Pai Nosso e o Credo - esta indulgência é aplicável apenas às Almas do Purgatório;
  • Uma visita devota ao cemitério com uma oração pelas almas defuntas do dia 1 a 8 de novembro.
A indulgência parcial

Uma indulgência parcial paga apenas uma certa porção da penalidade quanto ao pecado. Para indulgências parciais o fiel deve estar em estado de graça (livre de pecado mortal). Embora a confissão não seja obrigatória, a pessoa deve ao menos ter um coração contrito mesmo quanto aos pecados veniais. Quanto à indulgência plenária, a pessoa deve ter a intenção de receber a indulgência e realizar as ações prescritas.

 Uma indulgência plenária ou parcial pode ser ganha ao rezar diante do Santíssimo Sacramento

Existem três Concessões Gerais de indulgências parciais e muitas Concessões Especiais.

Estas Concessões Gerais são destinadas a lembrar o fiel de infundir com o espírito católico as ações de sua vida diária e a esforçar-se com o fim de ordenar a sua vida em direção a perfeição.
  • Primeira Concessão Geral: uma indulgência parcial é garantida ao fiel que, na execução de seus deveres e ao suportar as provações da vida, eleva sua mente com confiança humilde em Deus, adicionando – mesmo se apenas mentalmente – alguma invocação piedosa.
  • Segunda Concessão Geral: uma indulgência parcial é garantida ao fiel que num espírito de fé e misericórdia, doa a si mesmo ou os seus bens para ajudar seus irmãos necessitados.
  • Terceira Concessão Geral: uma indulgência parcial é garantida ao fiel que num espírito de penitência priva-se voluntariamente do que é lícito e agradável a ele.
Concessões Especiais de indulgências parciais movem o fiel a realizar obras de piedade, caridade e penitência. Elas incluem:
  • Orações indulgenciadas, tanto as recitadas sozinho, alternadamente com uma companhia, ou ao seguir mentalmente enquanto outro a recita.
  • Obras indulgenciadas, como o uso devoto de um artigo de devoção apropriadamente benzido (crucifixos, rosários, escapulários, ou medalhas), leitura da Escritura, fazer o Sinal da Cruz, visitas ao Santíssimo Sacramento, etc.
A lista completa de orações e obras indulgenciadas estão contidas num livro chamado Raccolta ou Enchiridion, que significa "manual.” Ao olhar uma antiga Raccolta ou ler livros antigos de oração ou santinhos, pode-se ver um período de tempo fixado para a indulgência parcial, por exemplo "indulgência de 100 dias."
Após 1968, a indicação de dias desta maneira foi eliminada. Parece que muitas pessoas presumiram que as indulgências tornaram-se nulas e vazias já que os dias não foram mais listados ou muitas orações indulgenciadas não foram incluídas no Enchiridon de 1968. Este não é o caso, e a confusão contribuiu para a triste negligência quando ao precioso presente das Indulgências que a Santa Madre Igreja nos concede.

Uma indulgência especial a ser ganha durante a Missa

 Os católicos são instruídos a olhar para as Sagradas Espécies e dizer "Meu Senhor e meu Deus"

As indulgências a serem ganhas na Consagração do vinho no Precioso Sangue não são bem conhecidas dos católicos.
Uma descrição detalhada é dada no Missal de Santo André, que nos ensina que quando o sacerdote recita a fórmula consagratória do vinho, o fiel deve olhar para o cálice e então fazer uma reverência e adorar o Sangue de Cristo. As espécies consagradas são então mostradas para a congregação como um protesto contra os hereges que negam a presença real.
São Pio X concedeu uma indulgência de sete anos e sete quarentenas (um período de 40 dias) para todos os que, olhando para o Corpo e Sangue de Cristo, digam “Dominus meus et Deus meus” – Meu Senhor e meu Deus. Estas são as palavras de São Tomé ditas a Nosso Senhor no Cenáculo após ele ter duvidado. A todos os que o fazem diariamente, ele concedeu uma indulgência plenária uma vez por semana desde que recebam a Sagrada Comunhão sob as condições habituais. É proibido dizer a invocação em voz alta.
Muitos católicos que curvam suas cabeças piedosamente durante a Consagração perdem assim a oportunidade de ganhar esta indulgência. Em vez disso, eles devem olhar devotamente para as Sagradas Espécies e rezar a oração prescrita. É uma maneira simples de receber tanto uma indulgência parcial quanto uma plenária.

Original aqui.