quinta-feira, outubro 16, 2014

Sobre o Purgatório - Parte I



O Purgatório é um Dogma da Fé
Por Dr. Remi Amelunxen
Traduzido por Andrea Patrícia



  Nossa Senhora provê consolo para as Pobres Almas no Purgatório

Os temas do Privilégio Sabatino, das Trinta Missas Gregorianas e das indulgências foram abordados para mostrar sua vantagem na libertação de almas do Purgatório. O que segue é uma apresentação mais detalhada daquele muito esquecido – se não negado – dogma do Purgatório, o lugar onde as almas dos membros da Igreja padecente fazem expiação dos seus pecados.
Na sua época, São Francisco de Sales (1567-1622) deplorou como os nossos falecidos são esquecidos, afirmando: “A memória deles parece perecer com o som dos sinos funerários.” (1) Como o jesuíta Pe. François Xavier Schouppe afirma em seu brilhante livro Purgatory Explained, “as principais causas desse esquecimento são a ignorância e a falta de fé; nossas noções sobre o Purgatório são vagas demais e nossa fé débil demais.”
Para corrigir estas deficiências, ele apresenta três fontes de luz para elucidar os fieis sobre a grande importância desse assunto: a doutrina da Igreja, os ensinamentos dos Doutores da Igreja e dos teólogos, e a revelação dos Santos.
Ensino dogmático sobre o Purgatório

A Igreja apresenta duas verdades claramente definidas como dogmas da fé: primeiro, existe um Purgatório; segundo, as almas que estão no Purgatório podem ser assistidas pelo sufrágio dos fieis, especialmente pelo Santo Sacrifício da Missa.

Em resposta a Revolução Protestante, o Concílio de Trento reafirmou a existência do Purgatório como já ensinada no Primeiro Concilio de Lion. Ele também instruiu Bispos a ensinar e pregar por toda parte a sadia doutrina da Igreja sobre o Purgatório para que seja mantida e acreditada pelos católicos. Eis três importantes citações dos Cânones de Trento:
Sessão 255 (1563) – Decreto sobre o Purgatório – Desde que a Igreja, instruída pelo Espírito Santo, ensinou nos Sagrados Concílios e muito recentemente em seu Concílio Ecumênico, seguindo as Sagradas Escrituras e a tradição antiga dos Pais, de que há um Purgatório, e que as almas lá detidas são auxiliadas pelos sufrágios dos fieis e sobretudo pelo aceitável Sacrifício do Altar, o Santo Concílio ordena que os Bispos empenhem-se diligentemente para que a sã doutrina do Purgatório, transmitida pelos Pais e pelos Sagrados Concílios, seja acreditada e mantida pelos fieis de Cristo, e seja ensinada e pregada por toda parte.
Sessão 6 (1547) - Cânon 30 – Se alguém diz que após receber a graça da justificação [Sacramento da Penitência], o culpado é totalmente remido e o débito da punição eterna é então apagado para cada pecador arrependido de modo que nenhum débito de punição temporal permanece para ser quitado tanto neste mundo quanto no Purgatório, antes que os portões do Paraíso possam ser abertos, seja anátema.

Sessão 14 (1551) - Cânon 12 – Se alguém diz que Deus sempre perdoa toda a pena juntamente com a culpa e que a satisfação [pelo pecado] feita pelos penitentes não é senão a fé pela qual eles percebem que Cristo tenha satisfeito por eles, seja anátema.
Cânon 13 – Se alguém diz que a satisfação pelos pecados, quanto a sua punição temporal, de modo algum é feita a Deus através dos méritos de Cristo pelas punições infligidas por Ele e pacientemente suportadas, ou por aquelas [penitências] impostas pelo sacerdote, ou mesmo aquelas voluntariamente empreendidas como jejuns, orações, esmolas ou quaisquer outras obras de piedade, e que, portanto, a melhor penitência é meramente uma vida nova, seja anátema.
Cânon 14 – Se alguém diz que as satisfações pelas quais os penitentes expiam pelos seus pecados através de Cristo não são um culto a Deus, mas sim uma tradição dos homens, que obscurecem a doutrina da graça e verdadeiro culto a Deus e o próprio benefício da morte de Cristo, seja anátema.

Desta doutrina fica claro que a existência do Purgatório é um dogma da Igreja Católica e aqueles que o negam não podem chamar a si mesmos de católicos.

O valor das revelações privadas

As revelações feitas aos Santos, chamadas de revelações privadas, não pertencem ao Depósito da Fé confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à Sua Igreja. Elas são fatos históricos, baseadas no testemunho humano que nós podemos não acreditar e ainda assim não pecar contra a fé. Mas como elas são autenticadas, nós não podemos rejeitá-las sem ofensa contra a razão, que exige assentimento à verdade quando adequadamente demonstrada.
As revelações privadas são de dois tipos: visões e aparições. Visões são luzes subjetivas infusas por Deus para compreensão de pessoas escolhidas para revelar Seus mistérios. Tais são as visões de muitos Profetas e Santos para transmitir sobrenaturalmente verdades espirituais para o homem.
Três impressões digitais queimadas sobre a capa do livro de orações por uma Pobre Alma – veja a história aqui

Aparições são fenômenos objetivos que podem ser provados por evidência material exterior às pessoas que as receberam. Aparições das almas do Purgatório são frequentes e podem ser provadas pelos objetos que elas tocaram que foram marcados com impressões de fogo. Tais aparições são encontradas em grande número na vida dos Santos.
Evidências concretas deixadas para trás por estas almas foram coletadas por um sacerdote no século XIX, Pe. Victor Jouet, e depositadas num especial Museu das Pobres Almas em Roma. Você pode ler sobre estes artefatos aprovados pela Igreja aqui e aqui.
Deus permite aparições deste tipo para alívio das almas bem como para inspirar nossa compaixão e orações por elas. Elas também servem para enfatizar como são terríveis os rigores de Sua Justiça contra aquelas faltas que nós infelizmente consideramos apenas triviais.
Nossa Senhora consola as Pobres Almas

As almas da Igreja Padecente sempre imploraram os sufrágios dos membros da Igreja Militante. Nossas orações e oferecimentos em nome delas são uma fonte de tremendo alívio para elas. Para os viventes, este é um meio de maior santidade.
Uma grande consolação para as almas do Purgatório são as visitas da Santíssima Virgem Maria. Nas Revelações de Santa Brígida, a Rainha do Céu chama a si mesma pelo lindo nome de “Mãe das Almas do Purgatório, a Mãe daqueles que estão no lugar de expiação.” Ela continua: “Minhas orações mitigam os castigos infligidos nos pecadores por suas faltas.” (2)
Nossa Senhora exercita sua misericórdia no Purgatório especialmente nos Sábados e nas suas diferentes festas, que tornam-se dias festivos no Purgatório. Como visto nas revelações de muitos Santos, no Sábado – o dia especialmente consagrado a ela, Nossa Senhora desce aos calabouços do Purgatório para visitar e consolar aqueles devotados a ela. De acordo com crença piedosa, ela livra as almas que usaram o escapulário e que merecem o Privilégio Sabatino, e então alivia e consola as outras almas que praticaram verdadeira devoção a ela.

Um anjo provê alívio para uma alma no Purgatório

Uma testemunha disso foi a Venerável Irmã Paula de Santa Teresa, uma religiosa Dominicana do Convento de Santa Catarina em Nápoles. Num Sábado ela sentiu-se em êxtase e foi transportada em espírito ao Purgatório, que estava transformado num paraíso de delícias, iluminado por luz brilhante em vez de trevas. Então ela viu a Rainha do Céu cercada por Anjos, a quem ela dava ordens de libertar aquelas almas especiais e conduzi-las ao Paraíso. (3)
O dia de festa da gloriosa Assunção parece ser um dia de especial libertação. São Pedro Damiano afirma que neste dia, a Mãe Santíssima liberta vários milhares de almas. (4) Isso acontece porque Nossa Senhora encanta-se em introduzir seus filhos na Glória do Céu no dia em que ela mesma teve a visão beatífica.

Além das consolações recebidas pela Mãe Santíssima, as Pobres Almas são também consoladas pelos Santos Anjos, especialmente pelos seus Anjos da Guarda. Os Doutores da Igreja ensinam que a missão protetora dos Anjos da Guarda termina somente com a entrada de seus protegidos no Paraíso.
Se, no momento da morte, uma alma em estado de graça ainda não é digna de ver a face de Deus, o Anjo da Guarda conduz a alma ao lugar de expiação e permanece lá para buscar para aquela alma toda a assistência e consolação em seu poder. (5) O objetivo do devotado Guardião é ajudar aquela alma a entrar em seu lar no Céu.
Na aparição a Santa Margarida de Cortona que estava rezando pelas Pobres Almas do Purgatório, Nosso Divino Redentor disse a ela: "As dores que elas suportam são muito grandes, mas seriam incomparavelmente maiores se elas não fossem visitadas e consoladas por Meus Anjos, cuja visão as conforta em seus sofrimentos e as refresca em sua purificação." (6)
Estas revelações são perfeitamente consistentes com o ensino da Igreja. De acordo com muitos Doutores da Igreja, os Anjos da Guarda informam às almas do Purgatório quem são seus benfeitores e as exorta a rogar por eles.
A Venerável Agnes de Jesus, que viveu em constante intercurso familiar com os Santos Anjos, relata muitas aparições nas quais ela viu os Anjos da Guarda intercedendo por seus protegidos, trazendo-lhes consolações em meio as chamas onde eles sofriam, e levando-os ao Céu quando o tempo da expiação havia chegado ao fim. (7)
Nossa Senhora e os Santos Anjos são intermediários naturais entre o Purgatório e a Terra, assim como são entre o Céu e o Purgatório. Que consolação para aqueles que durante suas vidas mostraram devoção a Santíssima Virgem e aos seus Anjos da Guarda!

F. X. Schouppe, Purgatory Explained by The Lives and Legends of the Saints, Rockford: TAN, 2006, p. xxxiii
  1. Revel: 8, Brig., lib. 4, c 50, in ibid., p. 178
  2. Rossign., Merc., 50; Marchese, tom. i., p. 56, in ibid., p. 180
  3. Opusc. 34, c.3,f.2, in ibid., p. 180
  4. Rev. H. Faure, S.M., The Consolations of Purgatory, Benzinger Bros, 1912, p. 65
  5. Ibid.
  6. Ibid, p. 66

Original aqui.


Veja aqui todas as partes:

Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V.