quinta-feira, outubro 30, 2014

Sobre o Purgatório - Parte II



A Necessidade do Purgatório e a dor da Perda
Por Dr. Remi Amelunxen
Traduzido por Andrea Patrícia






As chamas do Purgatório são mostradas a Virgílio e Dante


Algumas pessoas perguntaram: "Por que as almas devem sofrer antes de poderem ver a face de Deus?" O Sacramento da Penitência não remove suficientemente os efeitos do pecado da alma e paga o débito exigido para o perdão?”.
De acordo com os teólogos, não é a culpa do pecado mas o débito de dor procedente do pecado que exige expiação. (1) O pecado produz dois efeitos na alma: a culpa por ofender Deus e a pena a ser paga por tal crime. No Sacramento da Confissão o sacerdote absolve a culpa quando a pessoa está devidamente arrependida. Isso é chamado de dor de culpa, que é removida pela absolvição.
Entretanto, o preço da pena ainda tem que ser pago. Quando a penitência imposta pelo sacerdote não é suficiente para igualar a pena devida a Justiça Divina, outra coisa precisa ser paga. Essa outra coisa que não foi devidamente compensada é chamada de débito de dor. Se, quando a pessoa morre, ela ainda possui este ultimo débito, ela precisa prestar satisfação por isso diante da Justiça Divina sofrendo no Purgatório.
O débito de sofrimento vem de todas as faltas cometidas durante a vida, especialmente dos pecados mortais. Embora a culpa seja remida por uma boa confissão, os pecados não foram expiados pelos frutos dignos da penitência exterior. O que constitui este débito de dor é o restante das muitas penas pelas quais ainda não foi prestada satisfação, uma espécie de mancha, que coloca um obstáculo à união da alma com Deus.
Santa Catarina de Gênova afirma que mesmo que, embora as Almas do Purgatório estejam necessariamente livres da culpa de pecado, ainda há uma barreira entre elas e a união com Deus enquanto as imperfeições existem. (2) No seu Tratado sobre o Purgatório, ela explica que a alma sente esta barreira dentro dela mesma e deseja fazer a expiação exigida pela Justiça Divina:
“Vejo que a divina Essência é de tal pureza que qualquer alma, a menos que seja absolutamente imaculada, não pode suportar a visão. Se, na presença da Divina Majestade, a alma encontra em si mesma o mínimo átomo de imperfeição, em vez de habitar lá com uma mancha, ela mergulharia a si mesma nas profundezas do Inferno. Encontrando um meio de apagar suas manchas no Purgatório, a alma [voluntariamente] lança a si mesma nisso. Ele sente-se feliz porque, sob o efeito de uma grande misericórdia, um lugar é dado a ele onde ele pode libertar-se dos obstáculos para atingir a máxima felicidade.” (3)
Assim, as almas sofrendo no Purgatório compreendem completamente e abraçam as dores que elas devem suportar. Elas veem claramente como mesmo o mais leve obstáculo levantado pelos resquícios do pecado é grave diante de Deus.


As almas sofrem com resignação as dores do Purgatório

Em seu livro Purgatory Explained, Pe. Schouppe observa: “As almas estão em contínua união com Deus no Purgatório. Elas são perfeitamente resignadas com a vontade Dele, ou melhor, sua vontade está tão transformada naquela de Deus que elas não podem desejar senão o que Deus deseja.… Elas purificam-se voluntariamente e amorosamente, porque esse é o Divino prazer.”(4)
Pe. Schouppe faz uma longa lista de pecados que exigem expiação. São os seguintes: pecados de luxúria (pensamentos, palavras e ações impuras), pecados de mundanismo e dar escândalo, pecados de vida de prazer e busca de conforto, pecados de tibieza, pecados de negligência em receber a Santa Comunhão e falta de respeito na oração, pecados de falta de mortificação dos sentidos e da língua, pecados contra a justiça, pecados de omissão, pecados contra a castidade, pecados de abuso de graças, e pecados contra os Dez Mandamentos, especialmente pecados da carne.
A culpa de dor ainda existe para todos estes pecados mesmo depois que uma boa confissão tenha sido feita. É por isso que o Purgatório é uma misericórdia de Deus. Para aqueles que não fizeram expiação suficiente nesta vida, há um lugar após a morte onde suas almas sofrerão voluntariamente – embora grandemente – para que possam ser purificadas. 

A Dor da Perda
Todas as Almas do Purgatório sofrem a dor da perda da visão de Deus. Algumas, entretanto, sofrem apenas esta dor e não a dor dos sentidos com a qual iremos lidar no próximo artigo.


No seu Tratado sobre o Purgatório, Santa Catarina de Gênova explica quão grande é a dor da perda

De fato, a tortura da dor da perda é, de acordo com todos os Santos e Doutores da Igreja, muito mais aguda que a dor dos sentidos. Nós não podemos entender isso porque temos pouquíssimo conhecimento do Soberano Bem para o qual fomos criados. Mas, na próxima vida, o Bem inefável assemelha-se para as almas ao que o pão é para o homem faminto, ou a água fresca para aquele que está morrendo de sede, ou como a saúde para uma pessoa doente torturada por uma longa enfermidade. (5)
Em Castelo Interior ou Moradas, Santa Teresa D’Ávila fala sobre a dor da perda: “A dor da perda, ou a privação da visão de Deus, excede todos os mais excruciantes sofrimentos que podemos imaginar, porque as almas necessitando ir rumo a Deus, como o centro de suas aspirações, são continuamente repelidas por Sua Justiça. Você pode imaginar a si mesmo como um marinheiro náufrago que, após longa batalha contra as ondas, chega enfim próximo de alcançar a praia, apenas para ver-se constantemente puxado para trás por uma mão invisível. Que torturante agonia! No entanto a das almas do Purgatório é milhares de vezes maior.” (6)
Todas as almas do Purgatório sofrem a dor da perda, mas algumas almas sofrem apenas isso, a privação da visão de Deus. Nós podemos imaginar, entretanto, que esta é uma punição leve.
Isso é justificado pelas palavras de São João Crisóstomo em sua 47a Homilia: "Imagine" ele diz, “os tormentos do mundo. Você não encontrará algum que seja igual a privação da visão beatífica de Deus." (7)

(Continua)
 Notas:
  1. F. X. Schouppe, Purgatory Explained by The Lives e Legends of the Saints, Rockford: TAN, 2006, p. 86.
  2. Catherine of Genoa, Traité du Purgatoire, chap 3, in ibid., p. 87.
  3. F.X. Schouppe, Purgatory Explained, p. 56.
  4. Ibid., p. 27.
  5. Ibid., page 30.
  6. Ibid.
  7. Ibid.

Original aqui.


Veja aqui todas as partes:

Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V.