quinta-feira, novembro 06, 2014

Sobre o Purgatório - Parte III



O Tormento dos Sentidos no Purgatório
Dr. Remi Amelunxen
Traduzido por Andrea Patrícia
 




O fogo do Purgatório é um fogo real, ensinam os Doutores da Igreja


Em adição a dor da perda, sobre a qual lidamos no último artigo, há também a dor dos sentidos, ou seja, a dor física do Purgatório. Como afirmado, a dor da perda é a privação da visão de Deus e é um sofrimento que atormenta a alma.
A dor dos sentidos é similar àquela que experimentamos em nossa carne. É opinião universal dos Doutores da Igreja que ela consiste num tipo especial de fogo que produz na alma um sofrimento similar ao que sofremos em nossa carne nesse mundo. Além do fogo, há também outros tipos de sofrimentos. 

Para ter uma ideia da intensidade do sofrimento, basta saber que o fogo do Purgatório é aquele do Inferno. “O mesmo fogo atormenta os condenados e purifica os eleitos,” diz o Papa São Gregório o Grande. São Roberto Belarmino ensina o mesmo: “Quase todos os teólogos ensinam que o réprobo e as Almas do Purgatório sofrem a ação do fogo.” (1)
Quanto aos outros sofrimentos, eles são infligidos pela Infinita Justiça e são proporcionais a natureza, gravidade e quantidade de pecados cometidos.
Os débitos variam muito em gravidade e quantidade. Alguns foram acumulados durante uma longa vida de negligência, enquanto outros são uma quantidade menor que não foi expiada na terra. O que é certo, escreve São Belarmino, é que "não há proporção entre os sofrimentos desta vida e aqueles do Purgatório.” (2)
Santo Agostinho implora a Nosso Senhor que lhe dê sofrimentos nesta vida em vez de sofrer os terríveis tormentos do Purgatório: “Oh Senhor, não castigue-me em Vossa ira. Em vez disso purificai-me de tal maneira nesta vida que eu não precise ser purificado na próxima. Sim, eu tenho medo que o fogo tenha sido aceso para aqueles que serão salvos, é verdade, mais ainda assim pelo fogo. Eles serão salvos, sem dúvida, mas apenas após a prova do fogo, mas esta prova será terrível.” (3)
Tomás de Kempis, autor de Imitação de Cristo, explica esta doutrina do Purgatório com um comentário muito marcante: “Lá [no Purgatório], uma hora de tormento será mais terrível do que 100 anos de rigorosas penitências feitas aqui.” (4)
Em seu Tratado Sobre o Purgatório, Santa Catarina de Gênova diz que as Almas do Purgatório “suportam um tormento tão extremo que nenhuma lingua pode descrevê-lo, nem poderia o entendimento conceber a menor noção disso se Deus não o fizesse conhecido por uma graça particular.“ Ela continua: “Nenhuma lingua pode expressar ou conceber qualquer ideia do que é o Purgatório. Quanto ao sofrimento é igual ao Inferno.” (5)
Consolo em meio à dor



Nossa Senhora oferecendo consolo as pobres almas

Apesar da intensa dor física e moral, no Purgatório ainda existe um imenso consolo que as almas apreciam em meio ao seu sofrimento. São Francisco de Sales diz-nos isso: “Nós podemos extrair do pensamento sobre o Purgatório mais consolo do que apreensão. A maior parte daqueles que se apavoram demais com o Purgatório pensam mais em seus próprios interesses do que na glória de Deus.
Isso acontece porque elas pensam apenas nos sofrimentos sem considerar a paz e a felicidade que são desfrutadas lá pelas santas almas. É verdade que os tormentos são tão grandes que os mais agudos sofrimentos desta vida não podem ser comparados com eles. Mas a satisfação interior desfrutada lá é tal que nenhuma prosperidade ou contentamento sobre a terra pode igualar-se a isso.” (6)
As Pobres Almas querem estar no Purgatório porque este é o desejo de Deus. Elas não podem pecar, não podem experimentar a menor impaciência ou cometer a menor imperfeição. Elas amam Deus com um amor perfeito, puro. Elas são consoladas pela Mãe Santíssima, pelos Anjos, pelos Santos Sacrifícios das Missas e pelos sufrágios dos fieis na terra.
Acima de tudo, elas têm assegurada a salvação eterna. A angústia mais amarga é aliviada pela profunda paz deste conhecimento. Assim, enquanto purifica as Almas do Purgatório pelo fogo, Deus tempera as chamas por consolações inefáveis.
A duração do Purgatório

A Fé não revela a exata duração das dores do Purgatório. O que sabemos é que a duração é medida pela Justiça Divina e que, para cada indivíduo, as dores são proporcionais à quantidade e à gravidade de faltas que não foram expiadas.
Deus, entretanto, pode encurtar estes sofrimentos aumentando sua intensidade. A Igreja Militante – aqueles que ainda estão vivos – podem também obter sua remissão pelo Santo Sacrifício da Missa e por sufrágios oferecidos pelos fieis aos defuntos.

De acordo com a opinião comum dos Doutores da Igreja, as dores expiatórias do Purgatório são de longa duração. São João Belarmino diz-nos: “As dores do Purgatório não são limitadas a 10 ou 20 anos, e elas duram em alguns casos séculos inteiros.” Então ele pergunta: “Devemos nós, então, encontrar qualquer dificuldade em abraçar o labor e a penitência para nos livrarmos dos sofrimentos do Purgatório?” (7)
 
Mesmo aqueles que se aplicam mais perfeitamente ao serviço de Deus cometem um grande número de faltas diariamente. Indo pelo princípio que “o homem justo cai sete vezes ao dia”, pode se dizer que mesmo aqueles dedicados ao serviço de Deus cometem uma grande quantidade de faltas aos olhos infinitamente puros de Deus.
Suponhamos que tal homem tenha cometido cerca de 10 faltas por dia. Após um ano, a soma é de 3,650 faltas. Após 10 anos, um total de 36,500 faltas. Agora suponha que cada falta requer uma hora no Purgatório. O tempo total no Purgatório para apenas estes 10 anos seriam mais que três anos por este cálculo bem indulgente…
Vamos encerrar com a revelação de Santa Lutgarda com relação ao Purgatório do Papa Inocente III, que presidiu o celebrado Concílio em 1215, mas, entretanto, possuía um apego muito grande pela sua família.
Papa Inocente III morreu em 16 de julho de 1216. No mesmo dia, ele apareceu a Santa Lutgarda em seu monastério em Aywieres em Brabant, atual Bélgica. Ele disse a ela que ele estava fazendo expiação por faltas que poderiam ter causado sua perdição eterna, mas devido à intercessão da Santíssima Virgem Maria [foi salvo]. Ele disse a ela que seu sofrimento duraria por séculos e pediu, em nome de Maria, que obteve para ele o favor de apelar a Santa Lutgarda, por sua assistência para mitigar sua punição. (8)
Disso nós podemos perceber a seriedade do pecado, a severidade da Justiça Divina e a importância da devoção a Nossa Senhora, que é a nossa intercessora mais poderosa diante de Deus no dia do nosso julgamento. Nós podemos também ver a importância de corrigir nossas faltas e expiar pelos nossos pecados enquanto ainda estamos vivendo, um assunto que infelizmente raramente é mencionado nos púlpitos após o Concílio Vaticano II.

(Continua)
Em S. 37 e De Purgat. I.2, cap. 6, apud François Xavier Schouppe, Purgatory Explained by the Lives and Legends of the Saints, Rockford: TAN, 2006, p. 25
  1. De Gemitu Columbae, lib. 2, cap. 9, apud ibid.
  2. Sentiments du B. Lefevre sur le Purgatoire Mois du Sacre Coeur, Nov. 1873., apud ibid., p. 25
  3. Imitation, lib. I, chap 24, apud ibid., p. 26
  4. F.X. Schouppe, Purgatório Explained, p. 28
  5. Ibid., p. 26
  6. De Gemitu, lib. Ii, c.9, apud ibid., pp. 68-69
  7. Ibid., pp. 72-73.

Original aqui.


Veja aqui todas as partes:

Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V.