quinta-feira, novembro 13, 2014

Sobre o Purgatório - Parte IV



A Localidade do Purgatório & a Ajuda das Pobres Almas
Dr. Remi Amelunxen
Traduzido por Andrea Patrícia




Nosso Senhor desce ao Limbo dos Pais para libertar as Almas esperando lá

Conquanto nossa fé nada revele definitivamente sobre a localidade do Purgatório, a opinião mais comum sustentada pelos teólogos que mais concorda com as Sagradas Escrituras é que o Purgatório é localizado nas entranhas da terra, não muito distante do Inferno. São Roberto Belarmino concorda com isso em seu Catecismo.(1)

Os três locais mais baixos ou infernos

As palavras que dizemos no Credo dos Apóstolos “Ele desceu aos Infernos” são frequentemente simplificadas. A palavra portuguesa Inferno, ou, em Latim inferos, o Catecismo do Concílio de Trento diz-nos, significa as localidades inferiores ou mais baixas onde as almas que não alcançaram o Céu ficam detidas. Esses locais inferiores são três: Limbo, Purgatório e Inferno dos réprobos, também chamado de Geena.
Nesta Geena, os condenados são continuamente atormentados pelos demônios e por um fogo que nunca é extinto.
O Purgatório é outro lugar mais baixo onde as almas sofrem com um fogo físico para expiar todos os seus pecados, para que então elas possam estar inteiramente purificadas antes de serem transferidas para o Céu para desfrutar da Visão Beatífica.
O terceiro lugar mais baixo é o Limbo dos Patriarcas ou Limbo dos Pais (limbus patrum), onde as almas dos santos que morreram antes da vinda de Cristo foram recebidas. Lá elas desfrutaram de um repouso pacifico, isentas de dor, consoladas e sustentadas pela promessa de redenção. Foi neste lugar que Nosso Salvador desceu após Sua morte para libertar as almas esperando lá. Assim, Cristo cumpriu a promessa que Ele fez ao bom ladrão Dimas, que morreu diante Dele: “Hoje você estará comigo no Paraíso.” (2)
Há também o Limbo das crianças não batizadas (limbus infantium). A Enciclopédia Católica diz-nos que este é o lugar onde as almas das crianças e outras que morreram sem pecado grave ou culpa pessoal estão detidas. Elas estão excluídas da visão beatífica porque o pecado original não foi removido de suas almas, mas elas não sofrem nenhuma dor e desfrutam de uma perfeita felicidade natural.
Santo Tomás de Aquino admite, como outros Doutores da Igreja, que a Justiça Divina permite que certas Almas do Purgatório apareçam para instruir os viventes ou para buscar sufrágios necessários para aquelas Almas. (3)
Pe. Schouppe deixa a prova com relação à localidade do Purgatório para teólogos como Suarez e Belarmino. Ele contenta-se com o argumento dos geólogos que afirmam que o interior da terra pode ser inteiramente de fogo. Assim, Schouppe conclui, não há nada que impeça de servir como estada de espíritos. Pois se anjos e outros espíritos podem habitar em nossa atmosfera, porque as almas dos mortos não podem morar nas entranhas da terra? (4)
Isso é ademais atestado por Santa Teresa D’Ávila, que costumava ajudar as Almas do Purgatório com suas orações e boas obras. Ela viu muitas dessas Almas no momento de sua libertação do sofrimento e entrada no Céu. Ela escreveu: “Elas geralmente saem do âmago da terra.” (5)

O grande bem em ajudar as Pobres Almas

Através da Misericórdia Divina, os católicos podem ajudar as Pobres Almas através do sufrágio. Embora os meios sejam poderosos, eles geralmente são tristemente negligenciados, especialmente após o Vaticano II quando quase nada é pregado nos púlpitos sobre o Purgatório. Consequentemente, a maior parte dos católicos faz pouco ou nada pelos falecidos devido tanto à ignorância quanto a falta de fervor.

 
Uma página de um manuscrito medieval ilustrando o bem em assistir as Pobres Almas
A principal causa deste triste esquecimento é a falta de reflexão e a perda de visão dos grandes motivos exortando caridade para com os mortos. Estes motivos são revelados a nós pelo Espírito Santo: “É um santo e saudável pensamento rezar pelos mortos, para que eles sejam libertados de seus pecados” (2 Mac 12,46) ou seja, da punição temporal devida aos seus pecados.
Santo Agostinho afirma: “Uma das obras mais santas, um dos melhores exercícios de piedade que nós podemos praticar neste mundo é oferecer sacrifícios, esmolas e orações pelos mortos.” (6) São Jerônimo diz brevemente: “O alívio que nós buscamos para os falecidos obtém para nós misericórdia similar”.
Em sua Summa, Santo Tomás de Aquino ensina: “Os sufrágios pelos mortos são mais agradáveis a Deus que os sufrágios pelos viventes, porque os primeiros possuem necessidades mais urgentes porque não estão aptos a assistir a si mesmos, como os viventes.” (7)
"Ajudar as Almas do Purgatório," diz São Francisco de Sales, "é realizar a mais excelente das obras de misericórdia; ou melhor, é praticar da maneira mais sublime todas as obras de misericórdia juntas. Elas são: visitar os doentes; dar de beber a quem tem sede da visão de Deus; alimentar os famintos, visitar os presos, vestir os desnudos, adquirir para pobres exilados a hospitalidade da Jerusalém celeste; confortar os aflitos, instruir os ignorantes - resumindo, praticar todas as obras de misericórdia em uma." (8)
Finalmente, para nos mover para lá, há estas palavras tocantes em Jó (19,21), habitualmente colocadas sobre os lábios sedentos das Pobres Almas: “Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, meus amigos.”.
Vantagens da devoção às Pobres Almas
Se nós compreendêssemos a gratidão das Santas Almas por nossos sufrágios, nós ficaríamos muito impressionados. Seu reconhecimento ultrapassa qualquer coisa que nós percebemos na terra.
Santa Margarida de Cortona tinha grande devoção pelas Pobres Almas. Na sua morte ela viu uma multidão de almas que ela havia libertado do Purgatório formando uma procissão para levá-la ao Paraíso. Deus revelou este favor concedido a Margarida a uma pessoa santa na cidade de Castello, Itália, que viu a alma de Santa Margarida após a morte desta no meio de um brilhante cortejo ascendendo ao Céu. (9)
São Filipe Néri também tinha uma grande devoção pelas Pobres Almas, e Deus confiou aquelas almas que estiveram sob sua direção espiritual de um modo especial ao seu zelo. Ele revelou que muitos de seus filhos espirituais apareceram a ele após suas mortes, tanto para pedir suas orações quanto para agradecê-lo profundamente pelo que ele já havia feito por elas. Ele adicionou que através das Pobres Almas ele havia obtido muitas graças. (10)
A gratidão das Pobres Almas às vezes manifesta-se de uma maneira clara e visível, mas muito frequentemente elas expressam sua gratidão invisivelmente por orações pelos seus benfeitores. Embora elas não possam rezar por si mesmas, elas podem, todavia obter graças para nós.

 Um homem visita um cemitério em Praga para acender velas e rezar pelos entes queridos falecidos

Tal é o ensino de teólogos eminentes como São Roberto Belarmino e Pe. Suarez. Este último afirma: “Estas almas são santas e queridas a Deus. A caridade exorta-as a amar-nos e saber ao menos de maneira geral a quais perigos estamos expostos e qual a necessidade que temos de assistência divina. Por que elas não rezariam pelos seus benfeitores?” (11)
Santa Catarina de Bologna pedia ajuda frequentemente as Almas pelas quais ela rezava frequentemente. Ela aconselhava outros a fazer o mesmo, dizendo: “Quando eu desejo obter qualquer favor do Pai do Céu, eu recorro às Almas que estão detidas no Purgatório. Eu rogo a elas para apresentar meu pedido a Divina Majestade em seu próprio nome, e eu sinto que sou ouvida através da intercessão delas.”
O grande Cura d’Ars, São João Vianney, da mesma forma encorajava aqueles que o consultavam a pedir ajuda às Pobres Almas: “Oh! Se soubessem como é grande o poder das boas Almas do Purgatório diante do Coração de Deus! E se nós soubéssemos todas as graças que podemos obter através da intercessão delas, então elas não seriam tão esquecidas. Nós devemos, portanto, rezar muito por elas, para que elas possam rezar muito por nós.” (12)
Nós não devemos ter dúvidas de que ao entrarem na glória eterna os primeiros favores que as Pobres Almas libertas pedem à Misericórdia Divina são por aqueles que abriram os portões do Paraíso para elas. Então não deixemos de rezar por elas, pois elas nunca falham em rogar por seus benfeitores, especialmente quando elas os veem em qualquer necessidade ou perigo.
(Continua)
Apud Pe. F. X. Schouppe, Purgatory Illustrated by the Lives e Legends of the Saints, NY: Benzinger Bros., 1893, p. 5
  1. Ibid., pp., 5-6
  2. Tomás de Aquino, Summa Theologica, 1 Suplemento., part. III, Quest. Ult., apud ibid.
  3. Ibid.
  4. Ibid., p. 7.
  5. Santo Agostinho, Homilia 16, apud Pe. Schouppe, Purgatory Illustrated, p. 216
  6. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologica, Suplemento, Q 71, art 5, apud ibid., p. 217.
  7. Apud Pe. Schouppe, Purgatory Illustrated, p. 217.
  8. Ibid., pp. 248-249.
  9. Ibid.
  10. Ibid., pp. 263-264.
  11. Ibid., p. 265.
Original aqui.


Veja aqui todas as partes:

Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV, Parte V.